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Ilustração: Riça

Techno, house, hauntology e outras ondas.

Oficina Radiofónica #37: Jon Collin & Demdike Stare / Zombi / Druuna Jaguar

Ilustração: Riça

Oficina Radiofónica é a coluna de crítica de música electrónica do Rimas e Batidas. Música Electrónica? Sim. Techno e footwork, house e hauntology, cenas experimentais, ambientais, electro clássico e moderno, drum n’ bass e dubstep, dub e o que mais possa ser feito com sintetizadores e caixas de ritmos, computadores e osciladores e samplers e sequenciadores e outras máquinas que façam “bleep”, “zoing”, “boom” e “tshack”.


Jon Collin & Demdike Stare – Sketches Of Everything

Ostensibly Demdike Stare’s first proper full-length collaboration, ‘Sketches Of Everything’ weaves dark moorland ambient blues into guitarist Jon Collin’s windswept Americana. It’s a highly evocative swing between porchside strums, sludge doom and weathered dub noise somewhere between Bruce Langhorne’s soundtrack for ‘The Hired Hand’, Neil Young’s ‘Dead Man’, Loren Mazzacane Connors at his most swoonsome and a screwed Prince Jazzbo – proper stoner vistas.


[Jon Collin & Demdike Stare] Sketches of Everything / DDS

Esclarece-nos a Boomkat, casa mãe da DDS, selo operado por Sean Canty e Miles Whitaker, os Demdike Stare, que este Sketches of Everything foi gravado entre Manchester e Estocolmo, a base de trabalho de Jon Collin, guitarrista que, por seu lado, gere a Winebox Press, pequena label que se dedica a lançar obscuros trabalhos em edições limitadas em cassete apresentadas em “found objects”.

Dado importante: apesar do projecto singular Slant Azymuth (obscuro “supergrupo” com o patrão da Finders Keepers, Andy Votel, que em 2012 editou um álbum homónimo) e de “encontros” com Anworth Kirk (aka Andy Votel), ou Il Gruppo Di Improvvisazione Nuova Consonanza (e, neste caso pelo menos, as aspas na palavra “encontros” justificam-se uma vez que se trata de um exercício de “manipulação” ou “intervenção” sobre matéria previamente gravada), este é de facto o primeiro registo colaborativo da dupla Demdike Stare, facto digno de nota até porque Sean Canty tem um pronunciado espírito colaborativo que já o levou a trabalhar em diferentes contextos com artistas como o já mencionado Andy Votel, Doug Shipton, Jane Weaver ou até Suzanne Ciani (ou seja, família Finders Keepers).

Neste registo, com que a dupla sucede a Passion, de 2018 (e a trabalhos mais recentes lançados em cassete, como foi o caso de Embedded Content), o tom é pronunciadamente diferente do habitual: pode dizer-se que a obra dos Demdike Stare se estrutura sobre dois grandes eixos – por um lado a exploração das diferentes mutações da rave, gostando Sean e Miles de investigar as mais remotas margens do techno ou do drum n’ bass, retirando dessas correntes o tremor mais subterrâneo que depois injectam nas suas abstractas visões; por outro lado, há uma clara ligação ao lado mais experimental e exploratório da história da música electrónica, dos pioneiros da música concreta aos mais obscuros mestres da labiríntica cena de library music.

Em Sketches of Everything, porém, os Demdike Stare parecem apostados em adornar a espectral americana de Jon Collin, que se faz de um contemplativo dedilhar em cordas de aço, tão esparso quanto expressivo, com uma moldura reverberante de frequências mais ou menos graves, relocalizando o que poderia ser música criada com um qualquer alpendre de cabana de montanha na mente para uma ampla câmara subterrânea, que tanto pode ser funda caverna tenuemente iluminada por lanternas que recortam as estalactites em fantasmagóricas formas como estação de metro abandonada numa grande cidade, mas ainda plena dos ruídos que a indústria deixa escapar para o subsolo. Processamento pesado, sobretudo com recurso ao delay e ao reverb, gravações de campo (escuta-se o que soam a gaivotas a dada altura, no arranque do lado B), e outras manipulações electrónicas colocam este trabalho dos Demdike Stare em linha com as experiências anteriormente realizadas, mas a matéria acrescentada por Collin à fórmula habitual da dupla transporta o todo para outras paragens, decididamente cinemáticas e que bem podem aguardar por um daqueles thrillers psicológicos nórdicos para adquirirem novas camadas de sentido.



[Zombi] 2020 / Relapse

Os Zombi de A.E. Paterra e Steve Moore têm desde 2004, ano em que lançaram Cosmos, sido uma declarada paixão por estes lados. O duo de Pittsburgh deve o seu nome ao clássico filme de 1978 de George Romero e Dario Argento parcialmente rodado (não há coincidências, certo?…) nas imediações daquela cidade da Pensilvânia. Notoriamente distribuído com duas versões diferentes, aquela que chegou ao mercado europeu “orquestrada” por Dario Argento, com o título Zombi, beneficiou de uma banda sonora diferente a cargo dos italianos Goblin, precisamente uma das mais vincadas inspirações desta banda (Steve Moore chegou mesmo a integrar ao vivo uma das formações do grupo italiano que fez algumas digressões em anos recentes beneficiando de toda a fértil cena editorial que respondeu ao interesse do público por bandas sonoras de filmes de terror, a mesma cena, aliás, que impulsionou o novo fôlego na carreira de John Carpenter, agora plenamente concentrado na música, outra das notórias influências da dupla de Escape Velocity).

Paterra e Moore nunca esconderam que na génese do som que foram refinando estava um certo peso rock, sobretudo aquele encontrado nalgum rock progressivo mais elaborado e nalgum metal (o duo haveria, aliás, de se ligar em 2009 à Relapse, editora de metal com que continuam a trabalhar). Mas, em parte significativa da sua discografia, esse lado mais rock ficou quase sempre relegado para o pulsar musculado da bateria de A.E. Paterra, com o essencial da personalidade mais “cinemática” do seu som a ser assumida pelos sintetizadores de Steve Moore que foram crescentemente aproximando-se de uma sonoridade muito específica, em sintonia sobretudo com as experiências que os Tangerine Dream operaram no seio de Hollywood nos anos 70 e 80. Steve Moore tornou-se, aliás, num muito requisitado autor de bandas sonoras, nos últimos anos.

Agora, com este 2020 (o press release nada nos diz sobre o título do disco que foi lançado a 17 de Julho último, ficando, portanto, aberto a todo o tipo de interpretações), o grupo assume na totalidade essa ligação a um lado mais rock com o mais pesado dos discos que assinou até agora. Esse “peso” passa pelo baixo e pelas guitarras que Moore acrescenta ao seu arsenal de synths, mas também pelo convite endereçado ao guitarrista Phil Manley (The Fucking Champs, Trans AM) para solar em “Breakthrough & Conquer”, tema de abertura e talvez o momento mais intenso do álbum. E a esse lado mais eléctrico, Paterra responde com ainda mais músculo do que é habitual, com as canções a adoptarem sem qualquer tipo de disfarce algumas das mais evidentes marcas do tipo de rock que os inspira: dinâmicas de tensão e libertação, riffagem sem vergonha, crescendos orgásmicos, etc.

O que os Zombi teimam em não abandonar é uma certa ideia de anos 80, com as suas referências a continuarem a encontrar-se nas bandas sonoras de um tipo muito específico de produção cinematográfica que normalmente se localizava nas secções mais remotas dos videoclubes, quando o VHS ainda reinava supremo. Há, por isso mesmo, um sentido muito lúdico na música, como se os Zombi aproveitassem o lado mais indulgente desse rock produzido para cinema na década dos néons, da laca e das ombreiras e o destilassem, descartando a por vezes incomportável componente vocal e concentrando toda a sua energia e atenção no âmago que, pelo menos quando ninguém está a ver, puxa pelo guitar hero que pode habitar no mais fundo de cada um de nós. Sendo que aqui, esse guitar hero coabita também com o bass hero (“Earthscraper”) e, como não podia deixar de ser, com o synth hero (“XYZT”).  Rock on…



[Druuna Jaguar] Memória Aumentada / Robert & Leopold

Memória Aumentada é o trabalho com que Jorge Mantas, aka Druuna Jaguar, sucede a Musa Utópica, título lançado no primeiro trimestre deste ano. Com selo da etiqueta de Brooklyn Robert & Leopold, Memória Aumentada é um estudo sobre um outro lado sónico da ruralidade: não tanto a placidez pastoral, mas muito mais a espectralidade do vazio, os fantasmagóricos ecos de lugares abandonados, onde a água que pinga recorta o silêncio e o ar adquire um outro peso, talvez mais denso.

Mantas combina de forma exímia a síntese, sempre em lentos drones que parecem traduzir o carácter mais inexorável do tempo que se arrasta com outro vagar quando nos encontramos longe do bulício das grandes cidades (como acontece com “Musée Des Yeux Clos”) com as field recordings (caso mais claro é a sua “Pequena Fantasia Sobre a Água”) que usa como telas em cima das quais pinta abstractos detalhes, naturezas mortas de partículas sónicas suspensas, pinceladas de ruídos densamente processados, paisagens difusas de luz.

A água é o elemento principal deste Memória Aumentada: água que corre, que pinga, água que oscila com a maré. Esse elemento natural fluído oferece, é lícito pensar-se, uma possível banda sonora ao mundo, tanto o que se posiciona mais próximo da natureza, onde correm rios, onde é possível até escutar os pingos da chuva ou da humidade que cede à gravidade e cai das folhas ou das rochas, como o das cidades, onde existem fontes, água domada em canalizações, etc. Mas Druuna Jaguar parece, sobretudo, explorar aqui um estado intermédio, aquele que é possível detectar em velhas construções rurais (casarões abandonados, velhos monumentos, estruturas industriais que o tempo ultrapassou), onde a presença humana é já só memória e a natureza tem, por isso mesmo, licença para entrar, livre, curiosa e incontrolável. Este novo trabalho de Mantas parece traduzir esse sentimento de vazio e abandono, essa ideia de que o tempo tudo conquista, com música que, tal como em Musa Utópica, volta a fazer-se sobretudo de tonalidades mais sombrias, mais sépia, sem cor, e ainda assim profundamente expressivas.

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