Oficina Radiofónica #14: Four Tet / Sufjan Stevens & Lowell Brams / Druuna Jaguar / Roger Eno & Brian Eno

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [ILUSTRAÇÃO] Riça 

A Oficina Radiofónica é a coluna de crítica de música electrónica do Rimas e Batidas. Música Electrónica? Sim. Techno e footwork, house e hauntology, cenas experimentais, ambientais, electro clássico e moderno, drum n’ bass e dubstep, dub e o que mais possa ser feito com sintetizadores e caixas de ritmos, computadores e osciladores e samplers e sequenciadores e outras máquinas que façam “bleep”, “zoing”, “boom” e “tshack”.


[Four Tet] Sixteen Oceans / Text Records

Como se mede a obra de alguém como Four Tet? Kieran Hebden não é, e por esta altura já nem deveria ser necessário escrevê-lo, o típico criador de música electrónica. Reclusivo, mas sempre aberto ao desafio de imprimir a sua marca em seara alheia (Skrillex ou Ty Dolla $ign são dois dos seus “clientes” mais recentes), o patrão da Text combina uma paixão pelas mais esotéricas regiões musicais (é um reconhecido coleccionador de valorizadas rodelas de vinil, do mais abrasivo free jazz à mais obscura folk, da mais privada new age às mais avançadas vanguardas eruditas) com uma aparentemente inabalável paixão pela pista de dança, algo que não o impede de tocar uma peça ambiental no meio de um set em Ibiza a altas horas da madrugada se estiver para aí voltado. Tendo em conta o completo (e louvável, devo acrescentar…) desprezo pelo que aparentam ser regras indiscutíveis bem clarificadas na maior parte dos manuais de gestão de carreiras (e “golpes de rins” criativos parecem ser norma…), Four Tet prossegue o seu caminho, solitário, não se importando de insistir em marcas que são, afinal de contas, definidoras da sua identidade. E se isso leva a que haja quem fale em “repetição” ou “cansaço” (a palavra “fresh” desponta tanto na crítica da Pitchfork como na da Resident Advisor…), então é porque, atrevo-me a contrapor, não compreendem inteiramente a postura de Kieran Hebden: a ideia de que uma carreira tem que se traduzir num eterno impulso para a frente, em contínuo desbravar de novos terrenos, nunca se aplicou a gente como, sei lá, John Fahey ou Alice Coltrane, mas é nesse universo, precisamente, que se devem procurar as comparações para um criador como Hebden. Como o guitarrista ou a harpista e pianista, também o homem que acaba de lançar Sixteen Oceans parece acreditar numa dimensão espiritual para a sua música e na busca de um refinamento de uma visão, como se estivesse convencido de que o próximo gesto pode ser melhor, mais perfeito e profundo do que o anterior. Neste novo álbum, Four Tet combina a sensação de hipnótica vertigem que se pode descobrir na pista (“Love Salad” é um óptimo exemplo, com os seus arpégios “trancey”) com abstractas miniaturas que bem poderiam constar num qualquer registo do Groupe de Recherches Musicales (“Hi Hello”) ou terem sido extraídas de uma rara cassete gravada por um guru New Age numa cabana da selva do Bornéu (“ISTM”). O sentido de profundidade melódica continua espantoso nas mãos de Hebden que bem mais do que contentar-se com as funcionais convenções que poderão ditar as tendências no Panorama Bar prefere, obtusamente, tentar traduzir a ideia de maravilhamento com samples e pads sintetizados combinados como se em vez de um estúdio faixas como “Something in the Sadness” fossem afinal de contas criadas a bordo de uma qualquer nave enviada até nós por uma distante civilização que nos quer apontar um caminho. E quem sabe…?


[Sufjan Stevens & Lowell Brams] Aporia / Asthmatic Kitty

A intrincada história na base de Aporia (termo que, já agora, designa “uma contradição irresolúvel”) é perfeitamente explanada nas detalhadas notas de John Colpitts que acompanham a apresentação no Bandcamp deste novo projecto de Sufjan Stevens com o seu padrasto Lowell Brams. O recentemente aposentado homem do leme da Asthmatic Kitty foi uma verdadeira figura paternal para Sufjan Stevens, impulsionando a sua paixão por música e orientando-o, através de mixtapes cuidadosamente preparadas, pela mais aventureira história da música. O álbum que está prestes a ser editado (tem lançamento marcado para o próximo dia 27) sucede a Music For Insomnia, trabalho de 2008 inserido na há muito extinta Library Catalog Music Series da Asthmatic Kitty e originalmente assinado por Lowell Abrams (mas com generosa, ainda que discretamente creditada, contribuição de Sufjan). Nesse registo, o duo, nitidamente inspirado por alguma electrónica exploratória e pelo espírito “livre” da Library Music, criou peças que assumidamente buscavam um lado mais novelty, abrasivo e esotérico da electrónica procurando dessa forma homenagear um determinado espírito ligado à memória de música originalmente editada entre finais dos anos 60 e o arranque dos anos 80 (uma das peças, reveladoramente, titulava-se “Hypnagogic Hallucination” referenciando, portanto, o peso dessas memórias…). Nos últimos 10 anos, Brams, que não é um músico no sentido convencional do termo, reservava sempre algumas horas para se fechar no estúdio com o enteado sempre que o visitava em Nova Iorque. Dessas incontáveis horas de criação livre, como explica Sufjan Stevens, surgiam alguns “rasgos” de luz, que foram depois aproveitados como as bases para o material de que agora se compraz Aporia. Com a ajuda de um verdadeiro who’s who da Asthmatic – o baterista James McAlister (The National), Thomas Bartlett (Doveman), teclista e trombonista Steve Moore (Sunn O)))), D.M. Stith, Nick Berry (Dots Will Echo), John Ringhofer (Half-handed Cloud), guitarrista Yuuki Matthews (The Shins), e o vocalista Cat Martino –, Sufjan terminou o álbum que serve também como uma espécie de vénia e um sentido agradecimento ao homem que lhe apontou a direcção no momento em que este anunciou a sua reforma. E embora “new age” seja um termo usado na apresentação oficial deste trabalho, não se deve pensar em Aporia como um mero revisitar da música que hippies criaram durante a década de 70 e nos anos 80 com a inspiração obtida pela luz que era refractada pelos seus cristais favoritos. Esse elemento “apaziguador” está presente, mas há igualmente um claro sentido de lúdica exploração, com Sufjan a admitir que o disco acaba também por ser uma espécie de homenagem a Dave Smith, criador de boa parte das peças de culto da Sequential, como os synths da série Prophet ou a caixa de ritmos Tempest, instrumentos a que o duo recorre abundantemente neste álbum. Para lá da new age, dos pioneiros trabalhos dos Tangerine Dream ou da música cinemática de Vangelis, Aporia referencia igualmente aquela electrónica exótica que nos anos 80 ilustrava quase tudo, de filmes passados no espaço a intrigas policias situadas nas grandes cidades, de publicidade a cruzeiros a trilhas de base para telejornais. E tudo isso com sentido de descomprometida liberdade, por um lado, e de sério empenho artístico, por outro. A merecer a nossa incondicional atenção.


[Druuna Jaguar] Musa Utópica / Variz

This is the audio proof of an endless impossibility”, garante Jorge Mantas, aka Druuna Jaguar, na breve apresentação deste trabalho na sua página Bandcamp. A musa utópica referenciada no título desta obra é explorada através de uma série de “episódios sensuais” estabelecidos com a firme ideia de que “ela” (a musa, bem entendido) inspira, mas não se deixa possuir. Musicalmente, isso traduz-se numa série de exercícios de electrónica concreta que começam por habitar as margens do próprio silêncio antes de começarem a revelar abstractos espaços: há sinos reverberantes, portas que rangem e água que pinga, ruído de pássaros, elementos que bem podiam ser manipulados por um técnico de “foley” numa qualquer narrativa cinematográfica independente. Os sons remetem-nos para algo misterioso, de tons sépia, como os que são usados nas fotos da capa, mas isso pode ser apenas a imaginação de quem agora escreve a seguir numa direcção contrária à do autor. A voz humana também se faz ouvir, mas é só som desprovido de sentido, onomatopeias e risos, que nos indicam uma figura feminina, sem nenhum pendor dramático ou narrativo claro. Drones, espectrais notas de piano, reverberações harmónicas metalizadas, gravações de campo, objectos avulsos, sons captados com microfones de contacto, e, portanto, amplificados até ao detalhe textural mais ínfimo, vozes sobrepostas, línguas exóticas, sons das entranhas da indústria, cordas de piano esticadas sobre o abismo, chuva e robots que tentam falar com pássaros, vidro, madeira, lata e pedra. Tudo junto, tudo organizado, como preconizava Pierre Schaeffer, dá-nos uma estranha música de um mundo real, mas que não conseguimos exactamente perceber onde fica. O mais provável é que não exista e, consequentemente, esta Musa Utópica é, também, um mapa de nenhures.


[Roger Eno & Brian Eno] Mixing Colours / Deutsche Grammophon

Brian e Roger Eno são irmãos, mas nunca tinham feito um disco em duo. Roger colaborou, juntamente com Daniel Lanois, no belíssimo Apollo – Atmospheres & Soundtracks (reeditado o ano passado e merecedor por aqui de atenção), mas esta é, de facto, a primeira vez em que dividem de igual forma os créditos de um trabalho. E é significativo que este Mixing Colours surja com carimbo da prestigiada Deutsche Grammophon, talvez a mais importante editora de música clássica no mundo. E a primeira conclusão que se pode retirar do álbum é que, querendo, Roger e o irmão Brian poderiam muito bem impor-se no tantas vezes soporífero território “modern classical” habitado por gente como Olafur Arnalds ou Max Richter e vencê-los no seu próprio jogo. Não é de todo, certamente, o que pretendem. Mixing Colours foi criado com um método talvez já ultrapassado: Roger a executar peças ao piano que, depois de traduzidas para “partituras” MIDI eram enviadas ao seu irmão, que as foi “pintando” com manipulação subtil de estúdio e adição de delicadas camadas de electrónica, como uma seda fina em que se envolveu o corpo de cada melodia. Na era da banda larga e da comunicação de grandes quantidades de dados através da rapidíssima fibra óptica, talvez esta forma de trabalhar já não espante ninguém, mas o que significa aqui neste contexto é que Brian Eno decidiu trabalhar com a “ideia” das melodias, não necessariamente com o “som real” de cada uma das que o seu irmão congeminou ao piano. E tal decisão significa, portanto, partir de um lugar de inteira liberdade, sendo possível chegar a qualquer destino que a imaginação dite. E a tranquilidade continua a ser, ao fim e ao cabo, o sítio para onde a música de Eno nos impele, desta vez com as cores da natureza (“Obsidian”, “Wintergreen” ou “Ultramarine” e “Quicksilver” são algumas) como pontos de partida (ou talvez de chegada…) para cada uma destas peças que parecem viver suspensas no ar que suporta a cúpula das catedrais ou ecoar no silêncio profundo de que se faz o fundo dos oceanos. Música perfeita para os cinzentos dias que correm que clamam por rasgos de cor que nos pintem os olhos de esperança.

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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