Brian Eno // Apollo: Atmospheres & Soundtracks – Extended Edition

[TEXTO] Rui Miguel Abreu

“Magnífica desolação”. As palavras de que Buzz Aldrin se socorreu para descrever a superfície lunar servem igualmente para descodificar Apollo: Atmospheres & Soundtracks, o álbum de 1983 que Brian Eno criou com a ajuda do seu irmão Roger e de um engenheiro de som e guitarrista que se revelaria cúmplice em muitas outras produções, Daniel Lanois.

O álbum com que Eno sucedeu a On Land, peça final no “painel” de quatro partes que é a sua série Ambient (que inclui ainda Music For Airports, The Plateaux of Mirror, trabalho realizado em conjunto com Harold Budd, e Day of Radiance, de Laraaji), mereceu agora reedição recente enquadrada com o redondo aniversário de 50 anos volvidos sobre a chegada do homem à Lua. A edição original de 1983 resultou de uma encomenda do documentarista Al Reinert que abordou Eno para a criação da banda sonora para o seu projecto For All Mankind, filme criado a partir do espantoso acervo de imagens que a NASA registou para documentar a missão Apollo que em 1969 colocou a primeira pegada humana na superfície lunar. O documentário acabaria por só se estrear em 1989, no 20º aniversário da alunagem, e a sua versão final incluía algum do material de Apollo: Atmospheres & Soundtracks bem como trabalhos posteriores da autoria de Brian Eno.

Esta reedição pode, de certa maneira, ser enquadrada num programa em curso de reintrodução no mercado do vasto catálogo de Brian Eno: nos últimos anos parte da sua obra dos anos 90 – Nerve Net, The Shutov Assembly, Neroli e The Drop – e, mais recentemente ainda, parte significativa da sua discografia inicial a solo – Here Come The Warm Jets, Taking Tiger Mountain (By Strategy), Discreet Music, Another Green World, Music For Films, Before and After Science, Ambient 1 (Music For Airports) e Ambient 4 (On Land) (todos estes integrados na série Half Speed Mastering da Abbey Road, ou seja, reedições audiófilas em suporte analógico…) – mereceram relançamento motivado pela reposição no formato vinil de boa parte do passado (além desses trabalhos, outras peças resultantes de colaborações com Jon Hassell ou Robert Fripp foram igualmente relançadas). Mas esta é, como indicado pela adição entre parêntesis ao título, uma “edição expandida” que ao alinhamento original de 1983 acrescenta um segundo álbum de material inédito que é a consequência do regresso ao estúdio dos irmãos Eno e do seu colaborador Daniel Lanois, forma encontrada pelo trio para assinalar o 50º aniversário da missão da Apollo 11.

“Ambos os Enos e Lanois foram agarrados pela alunagem de 1969 e ficaram de queixo caído e arrebatados, como milhões de outras pessoas, pelas imagens monocromáticas e granulosas da Eagle – o módulo lunar da Apollo 11 – que desembarcou os fantasmagóricos astronautas no chão poeirento do Mar da Tranquilidade,” escreve David Sheppard em On Some Faraway Beach(Orion Books, 2008), livro que apresenta, como se refere na bandana da capa, “a primeira examinação séria e crítica da vida e obra de Brian Eno”. Essa chegada a “uma distante praia” não podia, de facto, ter sido musicada por outra pessoa.



O futuro músico tinha acabado de se graduar na Winchester School of Art quando Neil Armstrong deu o “pequeno passo para o homem, gigante salto para a humanidade” deixando a primeira pegada humana impressa na poeira da superfície lunar. Dois anos depois, Brian Eno era a carta fora do baralho glam da banda de Bryan Ferry com que gravou os seus dois primeiros álbuns, Roxy Musice For Your Pleasure, em 1972 e 1973, antes de embarcar numa muito fértil e ultra-celebrada carreira a solo cujo primeiro capítulo, Here Come The Warm Jets, assinado em 1974, não permitiu logo vislumbrar o vasto alcance que registaria na década seguinte.

Quando chegou a Apollo em 1983, além do seu contributo marcante no arranque da discografia dos Roxy Music, Brian Eno já contabilizava oito álbuns a solo e importantes colaborações com Robert Fripp (dos King Crimson), Kevin Ayers (que vinha dos Soft Machine), Phil Manzanera (seu companheiro dos Roxy Music), David Bowie (foi peça importante no tabuleiro de “xadrez” berlinense que rendeu Low, “Heroes” e Lodger entre 1977 e 1979), com os alemães Cluster, com o pianista Harold Budd e, talvez mais importante do que todas as outras, com David Byrne na obra-prima visionária My Life in the Bush of Ghosts (1981). Além disso, contava ainda com produções assinadas para gente como Penguin Cafe Orchestra, Ultravox, Talking Heads, Devo ou Laraaji e Edikanfo, registando significativos impactos em cenas tão diversas quanto o krautrock, o punk e a no wave (assinou a produção da seminal compilação No New York, em 1978), a new age ou a então ainda nascente ideia de world music.

Justificava-se plenamente, portanto, a escolha de Brian Eno para a importante tarefa de traduzir em música as soberbas imagens que documentavam para a posteridade um dos mais extraordinários feitos da humanidade. De toda a humanidade.

Tendo em conta a natureza do filme, que foi montado a partir de centenas de horas de imagens recolhidas pela NASA no âmbito das missões lunares que ocorreram entre 1969 e 1972, seria de esperar que Eno se socorresse do seu lado mais abstracto, electrónico e ambiental e terão, certamente, sido os pergaminhos acumulados nesse campo que lhe garantiram a encomenda de Al Reinert. Ainda assim, há também no álbum uma dimensão bem terrena, personificada sobretudo nas contribuições de Daniel Lanois que consegue impor, através do “twang” da sua guitarra, um “dissonante” tom humano, evocando paisagens verdejantes, montanhas com topos cheios de neve dignos de postal ilustrado ou ribeiras de águas frescas a rasgarem caminho por entre protegidas planícies que se estendem por reservas naturais. Ou seja, o tipo de imagens que nos habituámos a ver, em gloriosos e carregados tons technicolour, em documentários da National Geographic.



Eno justificou a ideia numa entrevista concedida em 1998 à revista Mojo: “O plano passava por tentar fazer um tipo de música espacial de fronteira. Quando fui convidado a fazer a música para o filme”, explicou Brian Eno, “descobri que os astronautas foram autorizados a levar uma cassete cada um nestas missões e quase todos levaram canções de country. Achei fabulosa a ideia de haver gente no espaço a ouvir esta música que realmente pertence a outra fronteira – de certa forma, viam-se a si mesmo como cowboys”.

Música de Buck Owens ou Merle Haggard a ecoar no espaço era, de facto, uma proposta de um profundo exotismo e talvez o impulso mais fundo para a criação do tema mais imediatamente reconhecível de Apollo, o belíssimo “Deep Blue Day” em que a guitarra de Lanois soa como se estivesse a ser tocada por um guitarrista a flutuar em gravidade zero, sobre um planante fundo de nuvens sintetizadas e com um piano celestial por guia. Como Martin Denny, Les Baxter ou Esquivel um quarto de século antes, também Eno precisava aqui de imaginar um exótico e até então inexplorado universo, não de ilhas povoadas com sensuais nativas em saias de palha ameaçadas por vulcões à beira da explosão, mas de um espaço mais amplo do que qualquer pradaria em que o foguetão é o novo cavalo e o capacete de astronauta substitui o Stetson de cowboy.

“Deep Blue Day” foi editado em single pela EG e, anos mais tarde, integrado na banda sonora de Trainspotting que se revelou um inesperado êxito de vendas, acumulando números astronómicos na ordem dos milhões de cópias, facto que ajudou esse tema a afirmar-se como um improvável “hit”. Há, na verdade, algo de realmente intemporal em Apollo, uma qualidade diáfana que posiciona este trabalho acima das malhas do tempo, parecendo que esta música existe ela mesma em suspensão. Talvez o facto do Homem não ter regressado à Lua desde a última missão tripulada em 1972 ajude a explicar o eterno fascínio que tal missão exerce sobre toda a humanidade. Ao contrário das ilhas do Pacífico de que os soldados foram trazendo, desde o fim da segunda guerra mundial, os ecos que inspiraram os grandes estetas da exotica easy listening pré-rock and roll e que entretanto se tornaram em aprazíveis destinos turísticos, com a promessa de mistério substituída por uma bem mais mundana ideia de prazer associada a piscinas infinitas e cocktails coloridos com sombrinha de palha, a Lua guarda ainda todos os seus segredos e esta música, por associação, nunca viu o seu propósito inicial ser desvirtuado.

Compreende-se, portanto, o desejo de Roger e Brian Eno e ainda de Daniel Lanois de regressarem a esse segredo que contemplamos todas as noites por cima das nossas cabeças, sem que o consigamos alcançar. As 11 faixas que compõem For All Mankind – assim é subtitulado o CD com novo material que justifica esta Extended Edition – reforçam a ideia de que o trabalho original de 1983 não se vergou sob o peso do tempo entretanto volvido. Talvez isso resulte também do recurso a instrumentos similares – nas sessões de 1983 o DX7 representou um papel importante, com Eno a mostrar-se capaz de moldar o notoriamente difícil teclado da Yamaha aos seus próprios desígnios e vontades, usando-o generosamente na construção das passagens mais ambientais –, mas não se pode falar simplesmente de replicar as ideias inicialmente exploradas há três dúzias de anos. Estes 11 temas mantêm o carácter imersivo e docemente ambiental, mas não só propõem novas cores para as imagens que pintam (escutam-se guitarra acústica e órgão, sons que não constavam  na obra original), como também exploram outro tipo de pulsar, com subtis marcações rítmicas a ancorarem algumas das peças (“At The foot of a Ladder” ou “Last Step From The Surface” são excelentes exemplos), sublinhando assim o propósito narrativo desta música. 

A ideia de “magnífica desolação” a que poeticamente se referia Buzz Aldrin traduz afinal de contas os anseios da humanidade que há 50 anos sabe estar condenada a explorar as estrelas, a encontrar uma nova casa. Esta primeira “ilha” a que o Homem chegou no vasto oceano cósmico pode ser desolada, mas contém ao mesmo tempo a promessa de outras paragens, porventura mais difíceis de alcançar porque bem mais longínquas. Brian Eno compreende isso. Ele que também de dividiu, nos quase 50 anos da sua carreira como músico, entre as mais físicas manifestações da pop e as mais espirituais demandas artísticas, ofereceu-nos em 1983 uma banda sonora não apenas para um filme que retratava a chegada do homem à lua, mas uma suite que é um hino às infinitas capacidades do génio humano. “Like I Was a Spectator”, o tema que encerra o álbum de material extra agora adicionado a Apollo: Atmospheres & Soundtracks é quase um oratório, uma manifestação musical de tocante reverência perante algo maior. A vastidão do espaço pode ser magnífica e desoladora, mas nós, os membros de toda esta humanidade, até aqui meros espectadores, estamos condenados a enfrentá-la.


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu