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Ilustração: Riça

Techno, house, hauntology e outras ondas.

Oficina Radiofónica #31: Susana Santos Silva / Beatriz Ferreyra

Ilustração: Riça

A Oficina Radiofónica é a coluna de crítica de música electrónica do Rimas e Batidas. Música Electrónica? Sim. Techno e footwork, house e hauntology, cenas experimentais, ambientais, electro clássico e moderno, drum n’ bass e dubstep, dub e o que mais possa ser feito com sintetizadores e caixas de ritmos, computadores e osciladores e samplers e sequenciadores e outras máquinas que façam “bleep”, “zoing”, “boom” e “tshack”.


MMXX-08 : SUSANA SANTOS SILVA – LIMITED ETCHED CRYSTAL CLEAR VINYL – 500 COPIES | Matière Mémoire

RELEASE DATE : AUGUST 25, 2020 Maitère Mémoire presents the MMXX Series.In anticipation of the year 2020, Matière Mémoire asked 20 great artists to create an original 20 minutes piece and an artwork.Throughout this year, each quarter will see the release of 5 new vinyls, available individually or as a bundle.Each record is limited at 500 copies and comes as a crystal clear vinyl featuring an original track of 20 minutes on one side, and a laser engraved artwork on the other.Each contained in a transparent sleeve, and each coming with a print of the artist artwork.


[Susana Santos Silva] Life is a Mystery / Matière Memoire

Os dois lançamentos anteriores de Susana Santos Silva, The Same is Always Differente The Ocean Inside a Stone, receberam atenção no âmbito da coluna Notas Azuis, mas a próxima obra da trompetista a ser lançada, Life is a Mystery, álbum que inclui uma peça singular de 20 minutos, “Sometimes It’s Raining a Lot”, concebida a pedido da Matière Memoire, tem perfeito cabimento na Oficina Radiofónica que trata música que cai no vasto território da electrónica. O facto de entre as ferramentas usadas estar o sintetizador da Yamaha PSR-36, e, talvez até, sobretudo, o uso de gravações de campo e a indicação, de acordo com a ficha técnica, de que a composição contempla edição e manipulação electrónica, justificam plenamente que se olhe Life is a Mystery a partir da perspectiva da música electrónica.

Há um contexto digno de nota para este lançamento de Santos Silva na Matiére Memoire: a editora belga explica que em antecipação do ano 2020 pediu a 20 “grandes artistas” que criassem uma peça original de 20 minutos e respectivo artwork; desta forma, Susana Santos Silva integra um extraordinário lote de criadores em que se incluem figuras como Phil Niblock, Jim O’Rourke, Stephen O’Malley, Oren Ambarchi ou, para citar apenas mais um par de exemplos, Charlemagne Palestine e Kevin Drumm. Mais um sinal de um amplo reconhecimento internacional que atem afirmado a artista portuguesa como figura ímpar no panorama global da mais avançada música contemporânea.

Poderá dizer-se que são ténues os sinais do jazz ou da música improvisada em “Sometimes It’s Raining a Lot”. Por um lado, esta parece ser uma peça em que se dispensam muitas das características basilares do jazz, desde logo por não lidar com questões de tempo (ou de implosão de tempo) rítmico, e ainda que certamente uma dose generosa de improvisação possa ter estado na origem de alguma da massa sonora aqui tratada, nomeadamente no drone do trompete ou nos etéreos arremedos pianísticos, a verdade é que, colocados lado a lado com as gravações de campo, e depois de altamente processados, esses elementos acabam por, e tomando emprestado o nome da etiqueta que dá esta obra à estampa já no próximo mês de Agosto, ser matéria de memória indissociável dessoutra que resulta das gravações de campo: a voz captada no PA de uma estação, conversas truncadas, o ruído das rodas metálicas do comboio sobre os carris… Aliás, é impossível não ligar, até por isso, esta peça ao histórico Etudes aux Chemin de Fer, uma das obras fundacionais da música concreta, criação de Pierre Schaeffer datada de 1948. O fundador do Groupe de Recherches Musicales acreditava que música era organização de matéria sonora concreta e essa é precisamente a ideia que preside a esta criação de Susana Santos Silva que aqui combina sons captados de instrumentos reais – trompete, piano, sintetizador – com processamento de sinal, gravações de campo e edição e montagem (palavra-chave neste contexto) que no final resulta numa obra altamente abstracta, mas ainda assim vívida e capaz de imprimir sensações e até imagens no nosso pensamento.

Escrita, de acordo com as notas técnicas disponíveis, em finais de 2019 entre o Porto e Estocolmo, “Sometimes It’s Rainging a Lot” permite, de facto, imaginar um movimento físico através de um qualquer espaço urbano, mas sempre com uma difusa ligação à realidade, não se entendendo se a peça ilustra uma viagem específica ou apenas uma memória de uma viagem, distante, mutilada pelo tempo, de que sobram apenas fragmentos dispersos. Ou nada disso, como é até mais provável.

A edição física de Life is a Mystery será limitada a 500 exemplares, em vinil transparente com a faixa original de um lado, e artwork gravado a laser do outro. Tudo embalado numa capa transparente em que se inclui ainda um print do artwork criado pelo artista.



[Beatriz Ferreyra] Huellas Entreveradas / Persistence of Sound

Em 2017, Beatriz Ferreyra, a compositora argentina que então tinha acabado de completar 80 anos, apresentou-se na jornada inaugural do festival Semibreve de Braga conduzindo uma imersiva sessão a partir das entranhas do Theatro Circo. No dia seguinte, no aprazível espaço do jardim da Casa Rolão, a veterana compositora protagonizou uma interessantíssima palestra em que explicou, entre outras coisas, como a ideia de preservação de certas memórias, nomeadamente de familiares, é uma constante na sua obra, como se a captação em fita permitisse resguardar para a posteridade, qual âmbar, o espírito das pessoas gravadas. Ou de outros seres queridos, como “Tim, Oggi, Justine e todos os cães com uma avó”, como se explica na contracapa de Huellas Entreveradas a propósito de “La Ba-Balle du Chien-Chien à la Me-Mère”.

Este novo lançamento na Persistence of Sound tem o mérito (adicional) de devolver Ferreyra, que já há algum tempo não lançava novo material, ao presente, facto espantoso se entendermos que a sua carreira remonta aos alvores dos anos 60, quando ingressou no Groupe de Recherches Musicales (GRM) a convite de Pierre Schaeffer, tendo ao longo das décadas seguintes desenvolvido assinalável trabalho ao mesmo tempo que privava com luminárias como Pierre Henry ou Bernard Parmegiani.

No GRM, Ferreyra desenvolveu um projecto de pesquisa a que deu o título Objets Construits (Objectos Construídos), “camadas de sons curtos”, explica-se nas notas de capa, “acordes feitos de diferentes ruídos”. Trata-se de um método de investigação, usando gravações de fita, das propriedades intrínsecas do som, procurando, na sua aplicação em composições, encontrar relações entre eles, observando os efeitos provocados pelas “alterações do pitch, de dinâmicas, na morfologia dos sons ou no timing da percepção geral do acorde”. Actualmente, Beatriz Ferreyra recorre ao Pro-Tools para as suas montagens, mas o pensamento que ainda preside às suas composições é amplamente baseado no resultado dessas experiências formativas no seio do GRM.

Este álbum reúne três peças, a mais recente das quais, a que dá título ao álbum, datada de 2018 e resultante de uma encomenda da DEGEM (Associação Alemã de Música Electroacústica). “Traços, passos que se cruzam, que desaparecem, escondem-se, tornam-se fluidos, desvanecem-se diante do labirinto da memória ou talvez durante um passeio através de uma paisagem desconhecida”, descreve a compositora. As coordenadas permitem-nos valorizar o trabalho realizado, deixando-nos perceber o nível profundo de processamento da matéria recolhida e depois tratada, que resulta sempre em peças de elevado grau de abstracção sobre as quais é possível projectar os nossos próprios filmes/sonhos/anseios, erguendo novas narrativas, tal o carácter opaco dos sons.

Mas no lado B, “La Ba-Balle du Chien-Chien à la Me-Mère”, encomenda de 2001 do GMEB (Groupe de Musique Electroacoustique de Bourges), começa por nos sugerir que nesta música há também espaço para o humor: trata-se de uma peça de 11 minutos “concebida especialmente para pessoas que têm um ou mais cães de qualquer espécie, tamanho, cor, grau de ferocidade e inteligência”. Os sons, dilatados até ao infinito, esticados, invertidos e manipulados com todas as técnicas possíveis e imaginárias, adquirem outros significados, desconectados da natureza real que os gerou, impondo-se em abissais cavernosos, ressoantes e poderosamente graves.

O humor volta a representar um papel em “Deys Dents Déhors” (“Dois Dentes Salientes”), um trabalho de 2007 concebido para assinalar o 80º aniversário de Parmegiani. É uma composição em que se evoca uma ocasião em que Phillippe Mion fez uma piada acerca de uma peça de Bernard Parmegiani, mesmo antes de uma performance pública. Essa peça tinha por título “Dedans Dehors” (“Dentro Fora”) mas podia ser pronunciada exactamente como “Deux Dents Dehors”. Para Ferreyra a evocação do pitoresco episódio permite-lhe abrir as portas da sua própria memória, homenagear um companheiro das exploratórias aventuras do GRM e, ao longo de 4 minutos, manipular vozes e ruídos, entrelaçando-os numa tapeçaria de frequências que nos cobre facilmente a imaginação, sobretudo se a ela nos entregarmos com um bom par de auscultadores nos ouvidos.

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