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Fotografia: Tiago Durães
Publicado a: 09/01/2026

O primeiro álbum produzido por si saiu discretamente no ano passado.

Maze é O Eremita: “Foi um momento-chave civilizacional e o disco em que a página estava mais em branco”

Fotografia: Tiago Durães
Publicado a: 09/01/2026

Pode não ser a experiência mais intuitiva para muitos, mas quando o mundo se fechou em copas na Primavera de 2020 com a notícia de uma pandemia, Maze beneficiou da solitude e da reclusão de que sempre desfrutou qual templo da reflexão e da introspecção, longe da azáfama quotidiana para se dedicar à criação.

Muito espontaneamente, começou a recolher samples, que se transformaram em beats, que por sua vez se revelaram terra fértil para a sua palavra. Rapper dos históricos Dealema, que celebram em Fevereiro 30 anos de carreira, trilhou um percurso em nome próprio sobretudo na última década. Tirou da gaveta o projecto inédito Subverso (2015) e lançou no ano seguinte o álbum de estreia a solo, Entranhas

Depois, colaboraria com os produtores e músicos Oder, Azar Azar e spock para dar origem, respectivamente, aos discos Contracorrente (2020), SUB-URBE Vol. 1 (2021) e Simbiose (2022). No período dos confinamentos, porém, havia escrito e composto as canções que resultariam no álbum que revelou sem estrondo no Verão passado, em plena época de férias e festas populares, como se O Eremita quisesse lançar a sua obra ao mundo mas também passar despercebido.

Em Dezembro, Maze resolveu editar o disco de 19 faixas em cassete, pretexto que o Rimas e Batidas aproveitou para, desta vez, não deixar passar O Eremita sem abrir o jogo sobre o seu primeiro trabalho produzido por si próprio. A autossuficiência chegou ao ponto de até o videoclipe do primeiro single, “Florir”, ter sido totalmente captado e editado por si. Em entrevista, Maze revela o seu labirinto, fala das progressivas aproximações à spoken-word e ao universo clássico da poesia, e deixa pistas para os próximos passos deste monge solitário da palavra.



No anúncio que fizeste sobre o disco, explicaste que ele foi criado no contexto da pandemia, naquele momento estranho para todos nós que te obrigou a passares mais tempo contigo próprio, com os teus pensamentos, sem o ruído do dia-a-dia, e isso abriu uma porta criativa…

Sim, foi completamente isso que disseste. Fui ali para um sítio em que ganhei tempo e espaço. E, sinceramente, não fui para um sítio mau. Porque gosto dessa solitude. Estou habituado a estar nessa solitude. E sabe-me bem, porque é um sítio criativo para mim. Então, aproveitei da melhor forma esse tempo que tinha. Olha, isto é perfeito. Porque, de repente, não estou só a correr atrás do tempo, como é a vida normal de trabalho, tipo rato na roda. Tenho aqui um balão de oxigénio em que me posso sentar comigo e trabalhar em coisas criativas em diversas áreas. E o Mike Ghost tinha-me emprestado um microfone há pouquíssimo tempo, ou até me enviou por correio, já não tenho a certeza. Mas fiquei com a capacidade de gravar em casa. 

Que antes não tinhas?

Quer dizer, tinha um microfone, um SM58, e uma placa de som. Mas não tinha qualidade suficiente, servia para fazer maquetes. Mas com o condensador já podia gravar vozes semi-profissionais, sendo um estúdio caseiro, com uma qualidade editável. Então, entrei mesmo numa espiral. Eu tenho guarda partilhada da minha filha, então numa semana ela estava comigo e na semana seguinte estava com a mãe. E nas semanas em que eu não estava com a minha filha, só fazia música. Acordava e quase fazia um beat por dia. Escrevia, pegava nesse beat e fazia uma música. 

E já tinhas a intenção, desde o início, de fazer um álbum? Ou inicialmente foi só aquele impulso de escrever um verso ou outro e de repente tens uma canção e a coisa foi crescendo?

Primeiro, foi um impulso criativo de produção. De acentuar e construir ambientes que me fizessem sentido. Depois aquilo começou a ter alguma coerência. As músicas até comunicavam, eram os mesmos tipos de samples e os mesmos ambientes. Então, acho que escrevi uma e a partir daí comecei a perceber que queria pôr letras naqueles beats. Que é uma coisa que eu nunca tinha feito, porque nunca tinha produzido para mim. Escrevi sempre para beats de outros porque sempre tive a sorte de estar rodeado dos melhores produtores. Então não me fazia sentido, porque não me considero um produtor, um beatmaker. Gosto de fazer música, mas não é essa a minha área principal. Eu vejo-me muito mais como um MC. Então comecei a perceber que, se calhar, tinha ali ambientes em que podia experimentar palavra dita, rimas e tentar construir músicas diferentes do que eu tinha feito até ali. Músicas mais curtas, que fossem só de spoken-word, músicas em que a spoken-word e o rap pudessem conviver… Então o disco foi crescendo assim, porque as músicas também tinham ali um fio condutor estético. 

E dirias que esse impulso de produzir beats surgiu por alguma razão em concreto? Talvez não fosse assim tão expectável.

Eu sempre produzi, mas guardo os projectos todos no computador. Faço de forma recreativa e terapêutica, porque gosto de ouvir música, gosto de descobrir pedaços que possa usar, gosto de perceber o que é que pode ser um bom sample. E começou assim também, nesse processo… É quase brincar. Sinto-me quase como uma criança a brincar nesse sítio criativo. Então começou mesmo aí, de uma forma muito descomprometida e sem qualquer intenção de fazer alguma coisa séria, que de repente foi ganhando vida. E depois das bases instrumentais estarem criadas, escrevi para algumas e depois fui continuando. São 19 temas, mas tenho ideia de ter criado mais alguns, que ficaram só como esboços e rascunhos. E a partir de determinada altura fui construindo o disco, percebi que poderia ser um disco. Aí, a intenção mudou e comecei a tentar perceber o que é que queria dizer mais, o que é que faltava, o que é que podia acontecer ali. 

Dirias que esse processo de construção durou quanto tempo? 

Acho que durou pelo menos uns meses, foi na primeira fase em que ficámos mesmo fechados em casa e depois devo ter completado na segunda. Mas foi fruto mesmo do processo, do tempo obrigatoriamente passado em casa. E depois não voltei a pegar mais naquilo, exportei tudo e enviei para o Pi [técnico de som dos Dealema], que fez a mistura e a masterização. 

E tal como explicaste no anúncio do disco que eu há pouco mencionava, as músicas também estiveram bastante tempo com o Pi e só em 2025 viram a luz do dia. Mas suponho que isso não tenha sido planeado.

Sim, nada planeado. Não sou grande especialista em mistura e masterização, sei o suficiente, mas nem sequer me aventuro a querer fazê-lo. São duas ciências. Então passei-lhe as pistas todas, trabalho com ele há muitos anos e confio no trabalho dele, e disse-lhe: “Olha, tens aí, isto é uma coisa que eu criei e pronto, não tenho deadlines, não há pressão nenhuma. Queres pegar nisto?” Ele disse que sim, mas entretanto a vida dele ficou um bocado complicada durante esses anos, então ele ia fazendo aquilo muito a conta gotas e eu também não pressionei muito porque não tinha qualquer tipo de pretensão. Eram músicas que eu tinha criado durante aquele período que nem sabia bem se podiam ser um disco. Ainda não sabia bem se fariam sentido porque eram músicas num formato estranho em comparação com o que normalmente costumo fazer. Não tinha a certeza se aquilo se aguentava enquanto álbum e, ainda por cima, se calhar havia um bocado a síndrome de impostor enquanto produtor. Não sabia sequer se os beats estariam ao nível do que eu normalmente faço para poderem ser editados.



E essa realização aconteceu quando recebeste as misturas e a masterização de volta, as canções terminadas? 

Sim, ele começou-me a enviar. Enviou-me ali dois temas ou três temas. Há dois temas que saem antes, que saem soltos, ainda sem eu querer lançar o disco. Um deles é uma parceria com um artista visual que é o Random Freaks, e ele criou um vídeo. Ele trabalha com maquetes e depois filma, e é um tema que é spoken-word, a “Oblívio”. E fizemos um NFT com o mesmo nome, porque ele trabalha com NFTs. E isso foi o primeiro avanço do disco, que ainda não era um disco na altura. Depois, passado um tempo, o Pi mandou-me uma mistura da “Vida Vivida” e eu também decidi soltar esse tema. Sem grande promoção, até porque nem tinha Instagram na altura, estava no meu hiato de redes sociais. Depois, mais para a frente, quando o Pi voltou a ter mais tempo e começou a trabalhar nas misturas, mandou-me mais três, mais cinco. E as coisas começaram a fazer algum sentido na minha cabeça. E nesse primeiro tema, que eu fiz com o vídeo do Random Freaks, há uma flauta do Francesco Valente, que é a única participação. Na altura ele estava a gravar uma flauta para temas do disco que lancei com o spock, o Simbiose. E enviei-lhe também esse tema, esse instrumental que às vezes, quando tocávamos ao vivo, em cenas de spoken-word, eu e o Francesco púnhamos essa base e fazíamos esse tema. “Então, olha, podes tocar aquela flauta que normalmente fazemos ao vivo, podias gravar? Porque vou editar esse tema.” Então as músicas foram chegando até mim e comecei a perceber que isto se calhar era um disco. E no texto do lançamento dessa peça visual, eu já falo d’O Eremita. Esse nome já me fazia sentido naquela altura, mesmo não sabendo que era um disco. Não sabia se seria um alter-ego ou o que poderia fazer, mas O Eremita fazia-me sentido por todas as circunstâncias, por ter sido um disco criado nessa… Ah, e houve uma feliz coincidência. Quem vai acompanhando até pode achar que criei conteúdos visuais de propósito para este disco, mas há uns três anos participei na Mostra de Arte Urbana da Quinta do Anjo [em Palmela], e fiz uma residência artística com um realizador que é o André da Costa e um fotógrafo chamado Tiago Durães. Eles andavam comigo e eu ia escrevendo, e o objectivo era escrever uma peça final em spoken-word sobre o que eu estava a ver ali, sobre a Quinta do Anjo e a arte urbana. Eles foram-me filmando e fotografando em muitos sítios, e de repente há uma gruta, um sepulcro antigo, então fiquei com um registo que batia completamente certo com o que eu queria fazer com o disco. E foi uma coisa completamente casual, não foi nada propositado.

E quando recebeste as restantes faixas, suponho que até já tivesses um certo distanciamento em relação às músicas que também pode ter sido útil para as analisares e perceberes se faziam sentido enquanto disco. E foste recuperar o nome d’O Eremita que já pairava aí.

Sim, foi precisamente isso. As peças do puzzle começaram a mostrar-me uma imagem do que poderia ser a imagem geral. E aí o nome fez sentido, as músicas começaram a desenhar uma narrativa, até porque foram escritas durante um período específico e puxavam por temas específicos que me levavam a esse sítio interno de reflexão. Há ali alguns temas que eu abordo, se calhar de forma um bocado repetitiva, que são frutos desse sítio em que estávamos enquanto civilização e que eu estava também a viver. Então, essa narrativa apresentou-se mais claramente para mim, aí fez-me sentido. E não quis saber, não é? Isso também é um exercício meu de confiança, de não precisar de validação externa, de querer tirar coisas de mim, independentemente de serem bem recebidas ou não, de não estar muito preocupado se mantenho um determinado nível ou se vou decepcionar as pessoas que vão ouvindo o que vou criando, porque me interessa mais criar, independentemente do que venha. 

Criar e pôr a obra cá fora.

E pôr a obra cá fora, sim. 

Tal como já tinha acontecido com Subverso, o projecto que tinha ficado 10 anos na gaveta

Exactamente. Aí comecei a ter alguma urgência, porque tornou-se mais nítido para mim que era um álbum. E é um álbum que, mais uma vez, está parado há muito tempo na gaveta. Comecei a ficar mais ansioso e a pensar que não faz sentido os processos criativos serem tão longos. Porque tem acontecido isso e durante muito tempo acho que aconteceu a muita gente. A mistura demorava muito tempo, o processo de gravação também, até o disco sair às vezes era um ano. Agora começa a ser diferente, até porque se trabalham mais singles do que álbuns e a máquina está mais oleada. Mas como ainda sou desse tempo em que os passos demoram muito, isso ainda me provoca um bocado de ansiedade porque realmente queria que os processos fossem muito mais rápidos. Faz mais sentido. Mesmo que as músicas sejam intemporais, quem as cria já está noutro sítio. Já está a pensar outras coisas, já está noutro processo de vida. 

Há 10 anos, tu só tinhas um único disco editado a solo, o EP Homem em Missão. Até porque o Entranhas, o teu primeiro álbum, completa uma década agora em 2026. Lançaste o tal projecto Subverso que estava na gaveta, fizeste os discos colaborativos com o spock, o Azar Azar, o Oder… Como olhas para esta década prolífica? Sendo que nos últimos meses juntaste mais este disco à lista, todo produzido por ti que é a tal novidade na tua discografia, e que no fundo é mais uma parceria com um único produtor, só que neste caso és tu próprio.

Exactamente, eu demorei muito tempo até lançar o meu primeiro álbum e acho que agora foi mesmo o culminar. Agora que te estou a ouvir dizer isso é que estou a conseguir ter distância, espaço e perspectiva para me aperceber disso. Porque as minhas primeiras décadas criativas foram muito dedicadas a Dealema. Via-me muito enquanto elemento de uma banda, e apesar de gostar muito de colaborar com pessoas — e é do que mais prazer me dá, criar em conjunto, sempre fiz muitas participações, com outros MCs e outros produtores — sempre tive o foco em Dealema. E acho que o Entranhas marca a mudança e a transição, porque de repente tenho um álbum e fico com vontade de fazer mais música com produtores, porque também ainda não me via enquanto produtor. E não é que me veja agora. Gosto de fazer algumas experiências, porque já vinha a produzir de forma experimental há muitos anos, no campo da música electrónica, mas não me via enquanto produtor clássico de rap. Então fui fazendo essas colaborações todas, porque revia-me nos instrumentais, nesses produtores, e achava que eram caminhos perfeitos para a minha rima — para tirar essas rimas de mim. E no fim desta década aparece, casualmente, esse espaço para experimentar os meus beats e escrever de outra forma com os meus beats, porque sinto que neste disco a palavra também ganha outra estética. 

Por também seres tu próprio a produzir os instrumentais?

Acho que sim. Aconteceu porque eu escolhi os ambientes e a minha palavra segue sempre o sentimento do beat. A palavra vai sempre atrás. Em tudo o que faço, raramente escrevo no vazio, no silêncio. Estou a escrever enquanto estou a ouvir música, enquanto estou a ouvir o beat ou um loop. Sendo que os ambientes foram todos escolhidos por mim, os beats foram construídos por mim, faz-me todo o sentido que a palavra também já esteja condicionada por esses ambientes que eu escolhi. Porque já sabia que iriam em determinada direcção. Mas também não fogem muito ao que eu tenho feito desde sempre. Falo sobre o cansaço da modernidade, a perda do sagrado, a transformação da linguagem, o ego, a vida urbana. Há sítios recorrentes da minha escrita que estão sempre lá, estão sempre marcados. 

E continuam, mas neste caso também estão influenciados por um contexto específico e diferente, e pelo teu próprio amadurecimento. 

Sim, completamente. Pela minha perspectiva e pelo que estava a sentir no momento. Porque no fundo havia ali muitas questões. Foi um momento-chave de transição, um momento-charneira civilizacional. E eu, nesse meu espaço de reclusão, de eremita, se calhar estava a percebê-lo, estava a conseguir ver as coisas com alguma perspectiva, no meu silêncio. E queria partilhar. Julgo que foi aí que, de repente, este espaço que se começou a criar entre polaridades se agravou. E a falta de comunicação e a confusão entre política, entre saúde, entre muitas questões, começou a ser quase incutida na sociedade para nos afastar uns dos outros. E eu estava a conseguir perceber isso muito rápido e não queria guardar para mim, queria tirar de mim e transformá-lo em música. 

Tendo em conta que foste tu que escolheste os ambientes e criaste os beats que te encaminharam numa certa direcção lírica, é provavelmente o disco em que a página estava mais branca, vazia, no início do processo criativo. Porque criaste tudo do zero.

Completamente. A página estava mesmo, mesmo em branco. Nos meus outros processos criativos, alguém já tinha dado ali uma cor base. E neste não. Neste a página estava em branco e eu tive espaço para perceber, aos poucos, o que é que ia nascendo dali.



E houve faixas específicas que criaste já mais com essa consciência de que poderia ser um álbum? Ou seja, coisas que tu ainda querias abordar e que achavas que faziam sentido? Faixas que foram mais intencionais? 

Sim, no sentido do que eu estava a falar, sobre essa questão mais de perceber a direcção que estávamos a levar enquanto sociedade global, há a “1984”… A última música do disco, a “Livre Voam Leves”, fala de pássaros e é um poema que fiz porque já não via pessoas há algum tempo no sítio onde estava e só via pássaros. Então estava a tentar perceber qual era a mudança para eles. O “Milagre da Criação” também vem desse meu sítio de criatividade, de estar fechado em mim e de tentar perceber o que é que estava a acontecer nos meus próprios processos criativos, ao perceber que toda a gente tem um criativo interno e que deveria usá-lo, numa sociedade em que há espaço para essa criatividade e em que não temos que estar sempre a correr para a produtividade. Houve muitas coisas que fizeram sentido e eu fui acrescentando capítulos. 

Como disseste, apostaste num registo que oscila entre o rap e a spoken-word, com várias nuances pelo meio. É algo que te vês cada vez mais a fazer, até porque também tens intensificado a tua participação no circuito mais ligado à spoken-word e à poesia?

Sim, acho que é quase um definir, um polir da minha identidade criativa. Já quando escrevi este disco estava a fazer muitos espectáculos de palavra dita e isso já era natural. Então percebi que são coisas que funcionam muito bem. O rap só tem outra cadência, então na spoken-word é um bocado mais livre. Ganho outro espaço, porque o rap tem que obedecer a determinado BPM, tem outras regras. 

E talvez assim até consigas chegar a outro público, suponho.

Completamente. Esse registo chega a muita gente que tem preconceitos com o rap, porque não entendem a linguagem e não conseguem entender a rapidez da palavra, nem a cadência, porque é preciso uma habituação e um treino para conseguir ouvir um rap do início ao fim é preciso ter um ouvido treinado e ter ouvido o estilo durante algum tempo para conseguires perceber um rap da primeira à última palavra. Esse encriptar da linguagem faz parte desta subcultura e é o que a torna tão especial e ainda bem que é assim. Mas a palavra dita não tem essas barreiras e chega a toda a gente, e se calhar até consigo cruzar universos, que é o que tenho feito ao estar nesse circuito literário, no fundo.

E alguém que não tem acesso ou que não procura o rap de repente pode ouvir-te num registo mais rappado, durante uma performance, e também se apercebe da beleza da coisa.

Sim, e isso é parte da minha intenção, da minha missão, de estar nesse circuito ligado à palavra, mais tradicional e erudito. Também sempre foi isso, dizer que há aqui pessoal à margem que faz coisas tão ou mais relevantes do que outros poetas. Sempre foi uma das minhas missões, até porque nunca vou deixar de ser um MC.

Falando nesse cruzamento entre o universo mais clássico da poesia e o do rap e da cultura hip hop, gostarias de fazer mais coisas nesse sentido? Gostarias, por exemplo, de publicar poemas escritos? Achas que há muita gente do lado do rap que poderia estar a fazer esse caminho, no sentido de aproximar os dois universos?

Sim, eu já tenho tentado fazer isso e já estou nesse circuito há algum tempo. A percepção que tenho é que as portas já se abriram. E não sou só eu, não é? A Capicua também o faz há bastante tempo, o Xullaji, o Nerve que até criou um evento de spoken-word. Tive o prazer de estar numa das primeiras Purga e achei logo incrível, que aquilo ia fazer um trabalho impressionante de levar o rap até um público diferente. Então já tens muita gente que está a usar esse espaço. E eu acho que cada vez mais isso vai acontecer. Até porque a Slam Poetry também está em alta. Existe um circuito grande e ainda bem, está saudável e há cada vez mais pessoas a quererem ter espaço para dizer coisas.

E também pode ser um bom complemento para quem faz um rap muito virado para a palavra, realmente com esse pendor poético.

Acho que há várias formas de envelheceres enquanto rapper. A que eu encontrei foi esta. Adoro fazer rap, tenho espaço para fazer rap hardcore com Dealema, tenho espaço para uma versatilidade incrível nos meus projectos, mas encontrei aqui um espaço para dizer poesia que era algo que queria ter há muito tempo. Porque gosto de escrever, gosto de dizer. Então este meu envelhecimento também me levou por essa estrada de querer experimentar outras formas. E acho que há muitos MCs da minha geração que o vão fazer. Alguns já o estão a fazer. E vai ser cada vez mais normal. É um caminho natural. E respondendo à tua pergunta, claro que tenho. Tenho aí um livro na calha já há muito tempo que se chama Poesia Desmusicada, que eu acho que finalmente vai sair agora em 2026. São textos que foram escritos para serem musicados, são todos raps, mas agora vão ver a luz de outra forma, no papel. 

Mas são raps que estão em músicas, editadas? 

Todos eles foram editados ao longo destes anos e agora estão a ser desmusicados, que é uma palavra, um neologismo que eu inventei. Estão a sair desse formato de áudio, a passar para o papel e, aqui, mais uma vez, sou eu a pôr-me fora de pé, sem perceber como é que a minha palavra que foi escrita com determinado ritmo, com determinada cadência, como é que ela se aguenta quando é lida por alguém e interpretada de outra forma na cabeça dessa pessoa. 

Também deve depender muito dos raps, porque nalguns a entrega ritmada deve ser mais determinante do que noutros.

Sim, nuns mais do que noutros, mas vais perceber sempre que o bloco de texto é um bloco de rap, porque as sílabas métricas são as mesmas todas as frases, então graficamente tens rectângulos de texto. Não fogem a isso, é mesmo essa a estética de um rap quando é traduzido graficamente. E pronto, também sou eu a explorar, a tentar. Também isto não é novo, não é? O Halloween tem um livro e há outros. E há livros com as letras dos cantautores portugueses, não é? Quero perceber como é que a minha poesia se aguenta assim em livro, mas também tenho ideias e coisas escritas e a avançar noutros sentidos, de poesia escrita. E tenho muita vontade também de fazer discos de spoken-word, com uma base jazzística.

Dirias que um próximo disco será mais nessa direcção? 

É algo que vejo a acontecer e tenho aí uns esboços do que é que pode vir a ser, mas tenho outras ideias e continuo sempre a fazer beats, a fazer músicas com o formato de rap mais convencional, mais os projectos colaborativos com os quais tenho vindo a trabalhar e a que dou sempre continuidade, os projectos que faço com o spock, o Azar Azar, o Oder… Continuamos a ter vontade de fazer mais coisas e gosto de dar continuidade a estes projectos.

Só para terminar, o que te levou a decidir editar O Eremita em cassete? Era uma vontade antiga?

Olha, a conversa inicial sobre essa ideia aconteceu há vários anos, quando enviei as músicas ao Pi e estávamos a falar sobre a estética da mistura e eu estava-lhe a dizer que queria uma coisa assim mais suja, com mais ruído, mais estática. E ele disse: “Estou a entender, se calhar até poderia sair em cassete”. E fez-me todo o sentido, adoro o formato, deixámos a ideia no ar. Depois, o disco acabou por sair no digital, mas eu tinha vontade de celebrar a edição e transformá-la numa edição física e aí a ideia regressou. “Olha, vou mesmo fazer uma coisa curta, para coleccionadores, só 50 cassetes para marcar esta edição.” E desapareceram logo. É bom perceber que as pessoas ainda gostam do formato físico e, para mim, é aquela realização de ter mais uma peça, até porque eu colecciono rádios, ghetto blasters, então a cassete sempre fez muito sentido para mim. Em Faca Monstro, também editávamos em cassete e é um formato de que gosto.


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