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Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 29/04/2026

À conversa com Marco Martins e Carolina Santos.

Mákina de Cena antes da estreia de Luz em Lisboa: “Acaba por ser um espectáculo total”

Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 29/04/2026

Entre o jazz, a palavra dita e a imagem em movimento, Luz constrói-se como um objecto artístico muito complexo, com muitas peças distintas em movimento. Criado por Marco Martins e Carolina Santos a partir da obra poética Selvagem, de Salvador Santos, o espectáculo nasce de um impulso íntimo: uma leitura que ressoa com a memória e o território algarvio, mas que se expande rapidamente para uma experiência colectiva onde música, vídeo, encenação e comunidade se cruzam de forma harmoniosa.

O projecto reflecte também o percurso dos seus criadores enquanto fundadores da Mákina de Cena, estrutura sediada em Loulé que tem vindo a afirmar-se como um pólo activo de criação e programação cultural no Algarve. Entre a necessidade de viabilizar o próprio trabalho e a vontade de construir um espaço de encontro artístico, a dupla foi desenhando um caminho que hoje passa tanto pela criação de espectáculos como pela edição musical, pela formação de públicos e pela construção de redes locais que interagem com as comunidades, dos mais jovens em idade escolar aos públicos que frequentam a Universidade Sénior.

A apresentação em Lisboa, no Teatro do Bairro, já no próximo dia 2 de Maio, surge, assim, como extensão natural de um trabalho contínuo que questiona a lógica centro-periferia, ao mesmo tempo que propõe uma experiência sensorial onde a palavra não é ilustrada pela música nem a música se sobrepõe à imagem preferindo-se antes um equilíbrio delicado. À boleia dessa estreia, conversámos com ambos sobre percursos, processos e o que significa transformar um livro num objecto performativo em permanente mutação.



Para quem ainda não vos acompanha, de onde vêm e como se cruzam os vossos percursos? 

[Marco Martins] O meu percurso começa no jazz, muito marcado pelo trabalho com o Zé Eduardo no Algarve, que foi uma figura determinante na formação de muitos músicos. Depois segui para a Universidade de Évora, onde estudei jazz e onde conheci a Carolina. A partir daí, o percurso torna-se também um percurso conjunto. Vivemos em Paris durante algum tempo, onde gravei o meu primeiro disco, Roadbook, em 2016, e onde tivemos contacto com uma realidade muito forte de músicos que produzem e editam o seu próprio trabalho. Quando regressámos a Portugal, continuei a estudar no mestrado em Lisboa e gravei o Low Profile, já com músicos do Algarve, mas ao mesmo tempo começámos a desenvolver projectos que iam além do jazz mais tradicional. 

[Carolina Santos] O encontro foi muito imediato. Nós praticamente começámos a criar juntos no momento em que nos conhecemos. Eu venho do teatro, o Marco da música, e essa mistura aconteceu de forma natural. A poesia e a música estiveram sempre presentes no nosso trabalho, mesmo quando ele estava mais focado no jazz. Isso acabou por abrir caminho para projectos como este.

A Mákina de Cena nasce dessa vontade de cruzamento ou também de uma necessidade prática de viabilizar o vosso trabalho? 

[C.S.] Nasce muito dessa necessidade concreta. Quando regressámos de Paris e nos fixámos em Loulé, percebemos que seria difícil editar, produzir e apresentar trabalho sem uma estrutura própria. Em Paris tínhamos aprendido muito sobre como os músicos se organizam de forma independente, porque o acesso às grandes editoras é muito limitado. Então decidimos criar essa estrutura, a Mákina de Cena, para podermos produzir, acolher artistas, programar e também candidatar-nos a apoios. Ao mesmo tempo, surgiu a MdC Records, que é uma editora independente muito focada no jazz e na produção algarvia.

[M.M.] A estrutura foi crescendo à medida que fomos percebendo o que era necessário. Não é exactamente uma produtora nem uma companhia, é um espaço híbrido que permite que várias coisas aconteçam ao mesmo tempo.

Que lugar é esse que ocupam em Loulé? Como se constrói esse trabalho num território com menos estruturas?

[C.S.] Há uma relação muito forte com a comunidade. Como não existem muitas estruturas profissionais a operar continuamente, acabamos por assumir vários papéis: programação, formação de públicos, mediação e também criação. Temos projectos com escolas, com o conservatório, com a universidade sénior, e procuramos criar uma relação continuada com as pessoas. Isso faz com que o público vá crescendo e que haja um sentimento de pertença. 

[M.M.] Também há um trabalho de agregação. No jazz, por exemplo, começámos a reunir músicos da região e a criar projectos colectivos, como o Algarve Jazz Collective, onde cada músico compõe para o grupo. Isso ajuda a criar uma identidade e uma dinâmica que antes não existia. 

[C.S.] Ao mesmo tempo, trazemos artistas de fora e tentamos criar circulação. A ideia é sermos um ponto de encontro. E isso acaba por questionar essa divisão entre centro e periferia, porque os centros são os sítios onde as coisas acontecem.

Este espectáculo nasce da leitura de Selvagem. O que vos levou a querer trabalhar esse livro? 

[M.M.] Houve uma identificação muito forte com aquele universo. O Salvador fala de um Algarve rural que me é muito próximo: eu cresci com essa realidade, com esses espaços, com essas pessoas. A música surgiu num momento muito particular, durante uma fase de doença em que estive isolado. Comecei a compor para instrumentos que nunca tinha usado dessa forma, como o violoncelo e o violino, porque procurava uma sonoridade mais contemplativa. E a partir daí o projecto começou a ganhar forma. 

[C.S.] A palavra foi sempre central. Não queríamos cantar os poemas nem transformá-los em canções, mas encontrar uma forma de os dizer, de trabalhar o ritmo e a presença da palavra sem a descaracterizar.

O projecto evolui bastante desde esse ponto inicial. Como se dá essa transformação até ao espectáculo que vemos hoje? 

[C.S.] Começámos com um primeiro concerto ainda muito embrionário. Depois fizemos uma residência no Cineteatro de Loulé, onde gravámos o disco ao vivo, e aí o projecto começou a consolidar-se. Paralelamente, começámos a trabalhar com o João Catarino e a ideia inicial de pequenos vídeos para cada tema transformou-se num vídeo-álbum com uma narrativa própria. Esse vídeo envolve pessoas da comunidade – alunos, actores, famílias – e foi todo filmado na região. 

[M.M.] Em palco, isso traduz-se numa sobreposição de planos: os músicos estão visíveis, mas há uma tela onde o filme é projectado, criando um jogo constante entre luz e sombra. É daí que também surge o título Luz. Acaba por ser um espectáculo total, porque integra música, imagem, encenação e palavra.

A construção do ensemble parece também fazer parte da identidade do projecto. Como foi esse processo? 

[M.M.] Foi muito baseado em encontros. Convidámos músicos que admiramos e com quem já tínhamos tido algum contacto, como o João Paulo Esteves da Silva ou o Alexandre Frazão. Houve sempre uma abertura muito grande da parte deles, o que nem sempre acontece. 

[C.S.] Também houve um lado de risco, porque estamos a juntar pessoas de contextos diferentes, mas a verdade é que a equipa funcionou muito bem desde o início. Houve uma empatia imediata. Além disso, o projecto foi-se expandindo, incluindo o Zeca Medeiros, que inicialmente participava em vídeo e que agora, sempre que possível, está presente ao vivo.

Levar este espectáculo a Lisboa é também uma forma de dar visibilidade a esse trabalho feito fora dos grandes centros? 

[C.S.] Sim, há essa vontade de mostrar o trabalho a um público mais amplo. Acreditamos na qualidade do que fazemos e faz sentido que circule. 

[M.M.] Mas também há uma dimensão de afirmação no sentido de mostrar que fora da capital se fazem coisas com consistência. Não é tanto uma questão de provar algo, mas de partilhar. 

[C.S.] E de contribuir para desmontar essa ideia de que a criação relevante acontece apenas em determinados lugares.

O projecto prolonga-se para além do espectáculo, com uma dimensão digital interactiva. O que vos interessava explorar aí? 

[C.S.] Queríamos que o vídeo não ficasse preso ao momento do espectáculo. Então criámos uma plataforma associada ao disco onde o público pode aceder ao vídeo-álbum e interagir com ele. 

[M.M.] É possível, por exemplo, ouvir só a música, só a voz ou ver apenas as imagens. Há uma possibilidade de desmontar o objecto e explorá-lo de diferentes formas. 

[C.S.] É uma maneira de prolongar a experiência e de manter o projecto vivo para além do palco.


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