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Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 30/04/2026

Uma forma de aprofundar a escuta.

Ler o Jazz: 5 livros recentes para celebrar o Dia Internacional do Jazz

Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 30/04/2026

O Dia Internacional do Jazz tende a ser vivido sobretudo como um ritual de escuta: revisitam-se discos clássicos, aplaudem-se concertos, até se permite que algoritmos afinados nos levem ao (re)encontro de clássicos ou nos proponham descobertas. Mas há uma dimensão menos celebrada e talvez até mais transformadora que passa pela leitura. Ler sobre jazz é uma forma de aprofundar a escuta, de a tornar mais informada, mais crítica, mais inquieta. Porque o jazz, enquanto prática artística, sempre foi também pensamento: sobre identidade, liberdade, espiritualidade, tecnologia, comunidade. Os livros permitem-nos aceder a essas camadas invisíveis: às histórias por trás das gravações, às tensões culturais que moldaram os sons, às ideias que os músicos procuraram traduzir em música. Ler sobre jazz é, nesse sentido, aprender a ouvir de forma mais profunda.

Num momento em que a abundância digital tende a fragmentar a atenção, o livro impõe outro ritmo: mais lento, mais exigente, mais reflexivo. Obriga-nos a permanecer, a estabelecer ligações, a construir contexto. E isso é particularmente importante numa música como o jazz, cuja história é feita de continuidades subterrâneas, de diálogos transgeracionais e de constantes reinvenções. Este guia reúne cinco novidades editoriais que, cada uma à sua maneira, expandem o campo do jazz para lá do som. Biografia, ensaio cultural, arqueologia discográfica e história editorial cruzam-se aqui como formas complementares de conhecimento. Cinco propostas para assinalar o Dia Internacional do Jazz não apenas com os ouvidos, mas também com o pensamento. E com os olhos…

[Andy Beta] Cosmic Music: The Life, Art, and Transcendence of Alice Coltrane

A figura de Alice Coltrane tem sido progressivamente resgatada como uma das vozes mais singulares e visionárias do jazz do século XX, e este livro de Andy Beta surge como mais um contributo decisivo nesse processo, sobretudo depois de Monument Eternal: The Music of Alice Coltrane, um livro de 2010 de Franya J. Berkman. Mais do que uma biografia convencional, trata-se de um retrato que procura dar conta da totalidade da sua prática artística e espiritual.

Beta acompanha o percurso de Alice desde os anos ao lado de John Coltrane até à sua afirmação como líder, compositora e guia espiritual. O livro destaca particularmente a forma como a sua música evolui para territórios cada vez mais abertos, incorporando influências da música clássica indiana, do minimalismo e de práticas devocionais. Um dos pontos fortes desta abordagem está na recusa de separar a obra da dimensão espiritual. Em vez disso, Beta propõe uma leitura integrada, em que discos, ensinamentos e práticas religiosas fazem parte de um mesmo impulso criativo. Essa perspectiva é essencial para compreender a radicalidade de álbuns como Journey in Satchidananda.

Ao mesmo tempo, o livro contribui para corrigir um apagamento histórico persistente, reposicionando Alice Coltrane não como figura secundária, mas como uma artista central na expansão do jazz para territórios cósmicos e transcendentais.

[Melvin Gibbs] How Black Music Took Over the World

Em How Black Music Took Over the World, Melvin Gibbs propõe uma tese ambiciosa: a de que a música negra não só influenciou a cultura global, como ajudou a moldar a forma como pensamos o mundo. O livro cruza história, ciência e teoria cultural para construir uma narrativa ampla e provocadora. Gibbs, que é também um fabuloso músico com um percurso vasto e singular, recusa uma leitura linear ou puramente histórica, preferindo uma abordagem que liga práticas musicais a conceitos científicos e tecnológicos. Ritmo, improvisação e inovação surgem aqui, antes de mais nada, como formas de conhecimento.

O jazz ocupa naturalmente um lugar central neste percurso, funcionando como ponto de convergência entre tradição e experimentação. Mas o autor expande o foco para incluir outras formas musicais afro-diaspóricas, traçando uma linha contínua de influência que chega ao presente. Como escreveu Phil Freeman, no fundamental Substack da sua Burning Ambulance, esta é uma obra que revela “como o som e a ciência partilham uma linguagem comum de padrões e descoberta”. Essa ideia resume bem a proposta de Gibbs: pensar a música negra como um sistema complexo e profundamente estruturante.

[Richard Morton Jack] Labyrinth (2nd Edition): British Jazz on Record 1960–75

A nova edição de Labyrinth, de Richard Morton Jack, reforça e aprofunda um trabalho que já era, à partida, fundamental. Este é um livro que não se limita a documentar uma cena: reconfigura-a, iluminando zonas de sombra e propondo novas formas de olhar para o jazz fora dos centros habituais.

Sobre a primeira edição, escrevi por aqui: “Olhando com atenção para as gloriosas capas de discos criados por músicos visionários como Tubby Hayes, Ronnie Scott, Mike Westbrook, Ray Russell, John Stevens, John Dankworth, Mike Garrick, Stan Tracey, Michael Gibbs, Neil Ardley, John Surman, Phil Seamen, John McLaughlin, Tony Oxley, Frank Ricotti, Jack Bruce, Dick Morrisey, Ian Carr, Don Rendell e Joe Harriott — este, sem dúvida, um dos nomes mais representados neste tomo — obtém-se uma visão clara de um jazz que soube abrir-se a outras latitudes e acolher no seu seio músicos que trouxeram válidas experiências de ex-colónias do império, ainda que, pontualmente, os seus títulos traduzissem pensamentos que hoje seriam inadmissíveis — algum executivo da MFP, etiqueta de edições “budget” da EMI, deve ter achado brilhante a ideia de dar ao único álbum do Indo-Jazz Ensemble, em que tocaram Kenny Wheeler e Jeff Clyne ao lado de músicos indianos desconhecidos certamente recrutados para o que deve ter sido encarado como uma mera oportunidade de faturação, o título Curried Jazz. Esses retrógrados resquícios de pensamento colonial também admitiam alguma misoginia, algo que, aliás, reforça a ideia avançada por Morton Jack da fraca representação feminina no género nesse tempo: no gosto duvidoso da capa de Snakehips Etcetera dos Nucleus de Ian Carr ou na jovem branca em pose de recatada sensualidade sob uma bandeira britânica na capa de Southern Horizons de Joe Harriott (relegado pela editora Jazzland a uma pequena foto do tamanho de um selo na contracapa) podem adivinhar-se as razões para as libertárias lutas que as décadas seguintes haveriam de conhecer. Mas é definitivamente importante que o olhar contemporâneo de Morton Jack não tenha procurado suavizar o lado menos positivo desses tempos”.

Essa leitura ganha ainda mais densidade nesta segunda edição. Morton Jack amplia o alcance da investigação, acrescenta novas entradas e aprofunda o contexto de muitas das gravações já analisadas. O resultado é um retrato ainda mais detalhado de uma cena onde o jazz se cruzava com o free, o rock psicadélico e a música contemporânea. Há, ao longo do livro, uma sensação constante de descoberta, como se cada página abrisse uma porta para um disco improvável, uma colaboração inesperada, um momento esquecido. E é precisamente essa capacidade de reencantar a escuta que faz de Labyrinth uma obra tão relevante e um verdadeiro convite à exploração. Um lembrete de que o jazz sempre existiu em múltiplos centros, muitas vezes longe do olhar dominante, mas sempre à espera de ser redescoberto.

[Tad Richards] Listening to Prestige: Chronicling Its Classic Jazz Recordings, 1949–1972

A história da Prestige Records é inseparável da evolução do jazz moderno, e neste livro Tad Richards oferece um mergulho detalhado nesse legado. Focado no período entre 1949 e 1972, o autor revisita algumas das gravações mais influentes da editora. Com uma abordagem simultaneamente analítica e acessível, Richards guia o leitor através de sessões históricas de músicos como Miles Davis, John Coltrane ou Sonny Rollins, contextualizando cada gravação no seu momento específico.

O livro destaca-se pela capacidade de transformar um arquivo discográfico num relato vivo, onde decisões de produção, contextos industriais e dinâmicas criativas ganham relevância. Trata-se de uma história em movimento, muito mais do que uma exaustiva lista de discos – coisa que este livro também não enjeita ser. Para ouvintes interessados em aprofundar a escuta, esta obra funciona como um guia indispensável, oferecendo ferramentas para compreender melhor o impacto duradouro destas gravações.

[Michael C. Davis] Philly Joe Jones Biography: The Life and Legacy of a Drummer Who Transformed Modern Jazz

A importância de Philly Joe Jones no desenvolvimento do jazz moderno nem sempre é devidamente reconhecida, e esta biografia de Michael C. Davis vem precisamente colmatar essa lacuna. O livro oferece um retrato detalhado de um baterista fundamental. Desde os primeiros anos em Filadélfia até à consagração ao lado de Miles Davis, Jones é apresentado como um inovador rítmico, cuja abordagem ajudou a redefinir o papel da bateria no contexto do bebop e hard bop.

Davis não evita as zonas mais difíceis da sua vida, incluindo períodos de dependência e afastamento dos palcos. Essa dimensão humana contribui para um retrato mais completo e menos idealizado. No final, emerge a imagem de um músico cuja influência se estende muito para além das gravações mais conhecidas. Esta biografia reafirma Philly Joe Jones como um dos pilares discretos — mas essenciais — da história do jazz.

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