A última gala dos Grammy Awards decorreu em Los Angeles na noite passada e confirmou a vitalidade do hip hop — numa altura de algum questionamento depois de, em Outubro último, o género se ter eclipsado do top 40 das tabelas de vendas norte-americanas pela primeira vez em 35 anos —, coroando Kendrick Lamar como o grande vencedor da noite. O artista de Compton venceu cinco das nove categorias para as quais estava nomeado, um feito que o consagra como o rapper mais galardoado da história dos Grammy, ainda na ressaca de GNX.
Entre os prémios mais mediáticos, Bad Bunny voltou a fazer história ao vencer numa categoria principal — DeBÍ TiRAR MáS FOToS foi “Álbum do Ano” —, reforçando a normalização do espanhol e da música latina no coração da indústria global. Billie Eilish, por sua vez, aproveitou o facto de “Wildflower” se ter sagrado “Canção do Ano” para protagonizar um dos momentos mais comentados da noite, ao usar o palco para uma declaração política directa — “No one is ilegal on stolen land,” disse a cantora num gesto que sublinhou a sua dimensão activista e que toca nas recentes controvérsias em torno da situação dos imigrantes nos EUA, terminando a sua intervenção com um “Fuck ICE”. A consagração de Olivia Dean como “Artista Revelação” e a vitória de Lola Young como “Melhor Performance Pop a Solo” confirmaram também uma nova geração de cantautoras britânicas a ganhar espaço num mercado historicamente dominado pelos EUA.
Nas restantes categorias, os Clipse coroaram o seu regresso triunfal ao arrecadar o galardão para “Melhor Performance de Rap” e assinaram uma das actuações mais celebradas da noite ao lado de Pharrell Williams — Let God Sort Em Out, o álbum de regresso da dupla formada por Pusha T e Malice foi o disco internacional mais marcante de 2025 para a equipa do Rimas e Batidas. Tyler, The Creator, que apenas venceu na recém-criada categoria “Melhor Capa de Álbum”, também presenteou o público com uma performance intensa e teatral. As vozes de Leon Thomas, Durand Bernarr e Kehlani destacaram-se nos campos do R&B, enquanto Doechii confirmou o seu crescimento como uma das vozes mais inventivas do rap actual e não saiu da cerimónia de mãos a abanar — o “Melhor Videoclipe” é seu graças a “Anxiety”.
A diversidade estilística estendeu-se a vários outros campos: Turnstile e Nine Inch Nails mostraram que o rock pesado continua relevante quando reinventado; FKA twigs e Tame Impala foram distinguidos por projectos que expandem as fronteiras da pop electrónica; no jazz, Samara Joy, Christian McBride, Nate Smith e Pino Palladino & Blake Mills reafirmaram a vitalidade de um género que, mesmo fora do centro mediático, mantém uma presença forte e consistente nos Grammy.
Apresentada novamente por Trevor Noah, a cerimónia equilibrou humor mordaz — com várias piadas sobre a indústria, algoritmos e política — e momentos de tensão social, reflectindo um clima cultural mais consciente e interventivo. O beef entre Kendrick Lamar e Drake ou a recente aproximação de Nicki Minaj a Donald Trump não passaram despercebidos por entre as diversas tiradas preparadas pelo comediante sul-africano.