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Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 07/05/2026

Hip hop revisitado através da lente do jazz.

Kassa Overall antes da estreia em Portugal: “Soamos como se o Ahmad Jamal tivesse o Madlib na bateria”

Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 07/05/2026

Formado na tradição jazz mais exigente, baterista de técnica explosiva e compositor profundamente atento à história da música afro-americana, Kassa Overall construiu ao longo da última década uma das obras mais singulares da música contemporânea, tendo-se aplicado a fundo na diluição das fronteiras supostamente estabelecidas entre o jazz, o hip hop, a electrónica e a produção experimental.

Dos primeiros discos, editados pela Brownswood de Gilles Peterson, até ao mais recente Cream, álbum carimbado pela Warp onde reinterpretou repertório de artistas como Wu-Tang Clan, Outkast, Biggie Smalls ou Dilated Peoples através de uma linguagem jazzística profundamente pessoal, Overall tem vindo a afirmar-se como um criador raro: alguém capaz de pensar simultaneamente como instrumentista, produtor, rapper, arranjador e arquitecto sónico. Mas se Cream lhe trouxe uma nova visibilidade junto de sectores mais tradicionais do jazz, também o levou a reflectir sobre aquilo que sempre tornou a sua música diferente: a dimensão autobiográfica, emocional e radicalmente híbrida do seu trabalho.

Antes da estreia em Portugal com dois concertos – sexta, dia 8 de Maio, na Casa da Criatividade, em São João da Madeira, e sábado, dia 9 de Maio, no Cine-Teatro da Nazaré, como parte do Festival Jazz Valado -, Kassa Overall falou connosco a partir de uma estação de comboios em Bruxelas, no arranque de uma nova digressão europeia. Pelo meio, dissertou sobre improvisação total, a influência de Bob Marley, Wu-Tang Clan e Bob Dylan, o peso invisível da vida em tournée, a importância crescente da forma da canção no seu trabalho e o novo álbum que prepara actualmente — um disco com que promete unir todas as linguagens que tem vindo a explorar desde Go Get Ice Cream and Listen to Jazz.



Em cada digressão pareces procurar uma forma diferente de reinventar o formato do concerto. Desta vez falaste de um trio que mistura piano jazz tradicional, eletrónica, MPCs e manipulação ao vivo. O que estás a tentar construir com este novo setup?

Este será o primeiro concerto, amanhã, em Liège. É uma tour curta, cerca de uma semana e meia, mas estou muito entusiasmado. Uma das coisas boas – mas, ao mesmo tempo, complicadas – do meu trabalho é que tento sempre fazer algo novo em cada digressão, encontrar um setup diferente, trazer uma energia fresca. Desta vez vai ser um trio: eu, um baixista e um pianista. Um trio de piano bastante clássico na sua base, mas ao mesmo tempo estou a incorporar uma série de elementos eletrónicos para manter o som expansivo e tridimensional. Vou usar faixas ao vivo no Ableton, sequências no MPC Live 2 e também trago comigo uma drum machine da Teenage Engineering. Estou a tentar juntar várias cores diferentes para fazer este trio soar muito maior do que aquilo que normalmente associamos a um trio tradicional.

É quase como se o Bill Evans tivesse sido um filho da geração hip hop… 

(Risos) Sim, sem dúvida. Eu acho que soamos como se o Ahmad Jamal tivesse o Madlib na bateria!

Existe toda uma dimensão invisível na vida de um músico em tournée aeroportos, estações, emails, esperas intermináveis que contrasta com a intensidade quase espiritual do momento em palco. Como aprendeste a lidar com esse lado menos romântico da vida na estrada?

Acho que isso acaba por entrar na mesma categoria de muitas outras coisas da vida. Mesmo quando estás em casa tens de lidar com tarefas pouco glamourosas: manter organização, responder a emails, tratar de logística, lidar com tudo aquilo que não é propriamente criativo. Existe sempre muito desse trabalho invisível. E mesmo quando tens ajuda – um manager, um assistente – se queres que as coisas fiquem realmente bem feitas continuas a ter de estar envolvido. Não há forma de escapar totalmente a isso. Acho que simplesmente amadureci o suficiente para perceber que tudo na vida tem dois lados. Não existe nada realmente bom que não venha acompanhado de outro tipo de esforço. Exige disciplina, exige paciência, exige fazer tudo aquilo que é necessário para chegar ao momento bonito, quando estamos em palco a comunicar com o nosso público, com os nossos fãs. Por isso tento aceitar a parte frustrante juntamente com a parte celestial. São duas faces da mesma moeda.

E para lá dessa parte de gestão, encontras tempo para relaxar? Lês ou ouves música quando andas na estrada?

Sim. Ouço muita música e leio bastante. E curiosamente grande parte daquilo que leio tem um lado mais terapêutico ou meditativo. Leio muito sobre afirmação positiva, visualização mental, esse tipo de coisas. Percebi que isso realmente ajuda porque, no fundo, podes criar a energia de que precisas. Às vezes, se apenas fores arrastado pela corrente das viagens e dos horários, podes não ter a energia certa disponível. Mas se parares um pouco, fizeres algum trabalho mental, alguma visualização positiva, sentes imediatamente mais bateria interior. Também mergulho muito na música antes dos concertos. Nestes últimos dias tenho estado a viajar e a preparar toda a logística, mas ao mesmo tempo tenho passado horas a pensar no alinhamento, no setup, nos sons, em como tudo vai funcionar ao vivo. Mesmo quando estás sentado numa estação de comboios, como acontece agora, o teu cérebro já está subconscientemente a preparar-se para o palco.

Os músicos que te acompanham parecem ocupar papéis muito específicos dentro dessa visão híbrida entre jazz, produção e performance. Como foste construindo este núcleo de colaboradores?

Tenho um pequeno núcleo de colaboradores com quem vou trabalhando. Tudo depende de quem está disponível e também do tipo de linguagem musical que quero explorar em cada momento. Nestes concertos, o baixista chama-se Julio Xavier, é de São Francisco. Conheci-o quando comecei a desenvolver os meus próprios concertos e o meu projeto pessoal, ainda antes de sair o Go Get Ice Cream and Listen to Jazz. Havia um clube em São Francisco chamado Black Cat. O dono adorava jazz e tinha dinheiro para investir, então trazia músicos de Nova Iorque para tocar lá. Mas também incentivava os artistas a tocar com músicos locais, como forma de equilibrar financeiramente as coisas. Foi aí que comecei a tocar com o Julio. E a nossa ligação é especial porque ele está comigo praticamente desde o início desta caminhada, mesmo não tendo feito todas as tours comigo. Ele tem uma relação muito profunda com esta música porque viu tudo nascer. Além disso, ele também canta. Já fizemos concertos só com baixo, bateria e eletrónica, mas depois aquilo pode transformar-se quase numa dinâmica de rapper e hype man, porque ele faz coros e reforça a componente vocal. Isso torna tudo muito mais tridimensional. O pianista chama-se Matt Wong. Também é de São Francisco, mas conheci-o em Nova Iorque. Trabalhou muito em arranjos e escrita para o Jon Batiste e outros artistas incríveis. Ele toca piano no Cream. É bastante mais novo do que eu, mas anda em tournée comigo há uns três anos de forma muito intensa. E isso é uma arma secreta. Quando tens alguém na banda que sabe escrever arranjos, montar partituras, estruturar ideias musicais, isso muda tudo. Somos um grupo pequeno, mas funcionamos quase como um canivete suíço.

E que material vais tocar? Imagino que além de coisas de Cream e de outros momentos da tua discografia, também abres espaço para a improvisação no meio dos teus sets?

Talvez um terço seja material do Cream. O resto será uma mistura de improvisação, músicas mais antigas e também material novo. Tenho trabalhado bastante em música nova e estou a tentar descobrir organicamente o que será o próximo projecto. E uma das coisas mais importantes nos concertos é precisamente perceber como a música afecta as pessoas em tempo real. Isso dá-te informação muito valiosa sobre o desenvolvimento do material. Estamos também muito interessados em levar a improvisação ainda mais longe. Gostávamos de conseguir subir ao palco e fazer um concerto inteiro totalmente improvisado. Uma composição espontânea do princípio ao fim. E, se eu quiser, posso acrescentar letras de diferentes músicas por cima dessas improvisações. Para nós isso seria extremamente divertido. Mas ao mesmo tempo, quando vais tocar a mercados onde nunca estiveste – e eu nunca toquei em Portugal – também queres equilibrar isso com músicas que as pessoas talvez já conheçam. Portanto há sempre esse equilíbrio entre risco, improvisação e repertório. E a verdade é que uma tour vai-se desenvolvendo sozinha. Depois do primeiro concerto percebemos melhor em que frequências estamos a funcionar enquanto trio naquele momento específico e a partir daí tudo evolui naturalmente ao longo da semana.

O Cream ocupa um lugar muito particular na tua discografia. Por um lado, aproxima-se mais explicitamente da tradição do jazz acústico; por outro continua a ser profundamente radical na forma como trata o hip hop como repertório interpretável quase como Coltrane fez com “My Favorite Things” nos anos 60, apropriando-se da música popular do seu tempo. Como viveste a recepção ao álbum, especialmente dentro do universo jazz?

Acho que foi muito bem recebido. E, de certa forma, cumpriu exatamente a função que eu imaginava. Eu venho da cena jazz mais tradicional, do jazz “a sério”, digamos assim. E uma coisa curiosa na minha carreira é que tudo teria sido muito mais fácil se eu tivesse conformado a minha música a certas expectativas institucionais do jazz. Há festivais, rádios e plataformas de jazz que, mesmo sem perceberem, acabam por ser bastante fechados em relação a determinados sons e texturas. Não digo isto com ressentimento. É apenas uma realidade. Existem certos sons que essas pessoas consideram “jazz-worthy” e outros que não. Como eu nunca tentei realmente conformar-me a isso, foi difícil convencer certas plataformas. E quando fizemos o Cream houve muita gente que reagiu como se dissesse: “Finalmente ele acertou”. Era um disco que podiam tocar em rádios jazz, mas que ao mesmo tempo mantinha uma ligação ao hip hop. De certa forma preenchia todas as caixas necessárias. Então houve uma reação muito forte e muito positiva, e sou genuinamente grato por isso. Mas, ao mesmo tempo, aconteceu outra coisa interessante: os fãs mais hardcore, aqueles miúdos que iam aos concertos, que se cruzavam comigo depois de uma noite no Ronnie Scott’s em ondres, por exemplo, e me diziam “eu nem sabia que tu tocavas bateria, eu gosto é das tuas letras, das tuas músicas”, esses vieram ter comigo depois dos concertos e disseram: “Este disco é incrível, mas quando é que voltamos a ter um verdadeiro statement teu? Quando é que voltamos a ter aquelas canções autobiográficas?” E isso aqueceu-me o coração porque eu próprio sinto isso. Gosto muito do Cream, mas também tenho uma paixão enorme por tentar encontrar uma forma de continuar aquela mistura muito pessoal entre autobiografia, produção, rap, jazz e composição.

Mesmo sendo um disco muito construído ao nível conceptual, há algo no Cream que também transmite uma sensação de grande fluidez e espontaneidade. O processo de arranjos foi tão detalhado quanto o resultado sugere?

Sim e não. Não tanto quanto noutros discos meus. Mas usei muitas das ferramentas que já fazem parte da minha linguagem enquanto produtor. Usei o Ableton Live, peguei nos originais, fiz sketches, manipulei samples, cortei áudio, construí ideias dessa forma em vez de simplesmente escrever tudo em pauta. Continuei a utilizar o meu background de hip hop e produção para experimentar as ideias, o é interessante porque o resultado final foi realmente distinto do dos outros álbuns. Depois ensaiámos como numa sessão clássica de jazz e fomos directamente para o estúdio gravar. E foi uma experiência muito libertadora para mim porque normalmente entro em estúdio e depois ainda passo meses ou anos a mexer no disco. A alterar coisas, a reconstruir detalhes, a experimentar misturas. Desta vez foi diferente. Gravámos, escolhemos os takes, enviámos para mistura e acabou. Foi quase chocante perceber: “Ok, está pronto.” Foi uma sensação muito libertadora.

O que estás a descobrir neste momento enquanto compositor? Para onde é que te vai levar o novo álbum e quando é que podemos esperar ouvi-lo?

Não sei exatamente quando o novo álbum sairá porque isso depende também da editora, do planeamento de lançamento e de toda essa maquinaria. Mas certamente sairá em 2027. Se conseguíssemos lançá-lo no final de 2026 seria ótimo, mas honestamente não sei se isso será possível. O que sinto é que este novo disco talvez seja aquele que mais junta todas as fases anteriores do meu trabalho. Todos os meus discos tiveram identidades muito próprias, práticas diferentes, linguagens diferentes. Mas este parece estar a unir tudo isso. Estou também a regressar a certas texturas do Go Get Ice Cream and Listen to Jazz, aquela ideia de rimar sobre baladas e trabalhar ambientes mais íntimos. No Cream existe muito da textura clássica do jazz, mas sem letras. Neste novo projeto estou novamente muito focado na minha relação com a escrita e com as palavras. E ao mesmo tempo comecei a estudar muito mais seriamente a própria forma da canção. Durante muito tempo, enquanto músico de jazz, ignorei quase completamente a importância da estrutura clássica – verso, refrão, ponte. Achava que isso era algo demasiado elementar e que não precisava realmente de dominar essa linguagem. Mas comecei a perceber que existe um poder enorme em compreender como um refrão funciona, como a música deve conduzir até ele, como construir tensão emocional dentro de uma canção. E isso não significa abandonar o lado avant-garde. Não existem regras obrigatórias. Mas compreender a função dessas estruturas é extremamente poderoso. Grande parte deste novo disco nasce também da minha vida actual. Tenho um filho com quase dois anos. E há ainda tudo aquilo que está a acontecer no mundo. Às vezes demora muito tempo até conseguires realmente processar certas emoções. E não podes forçar isso. É como morder um kiwi que ainda não amadureceu. Queres muito que esteja pronto, mas simplesmente ainda não está. E depois, quando finalmente amadurece, as ideias começam a cair da árvore umas atrás das outras. Hoje em dia já aceitei mais os altos e baixos desse processo criativo.

Que compositores e artistas sentes que te ensinaram mais sobre essa delicada arte de escrever grandes canções?

As primeiras músicas que realmente me marcaram foram os discos do Bob Marley & The Wailers. Cresci a ouvir aquilo desde bebé. Portanto essa influência está muito profunda em mim. Depois, obviamente, muitos dos meus artistas favoritos de hip hop. O hip hop trabalha muito fortemente a estrutura clássica da canção, mesmo quando não pensamos nisso conscientemente. Verso, refrão, verso, refrão, ponte – tudo isso está muito presente. E falo de gente como Outkast, Wu-Tang Clan… mesmo quando a música é agressiva ou muito crua, essa arquitetura continua lá. Também Bob Dylan. Ouvi muito a música dele quando era miúdo e sempre gostei dessa capacidade que ele tem de fazer canções que parecem não funcionar como canções pop tradicionais, quando no fundo continuam a ser exatamente isso. Cresci também rodeado de folk, reggae e dub. E durante muito tempo ignorei que toda essa música trabalha profundamente a forma da canção. Só mais tarde comecei realmente a perceber isso. Acho que o novo álbum vai reflectir essas coisas todas em que tenho andado a pensar, toda essa minha experiência.


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