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Festival acontece em Lisboa, na Fundação Calouste Gulbenkian, entre 31 de Julho e 9 de Agosto.

Jazz em Agosto anuncia cartaz deste ano com Joachin Kuhn, Rodrigo Amado & David Maranha, Pat Thomas ou SML

A 42.ª edição do Jazz em Agosto acontece em 2026 e confirma que o sempre aguardado evento é, de facto, um dos mais consistentes e exigentes palcos europeus para a criação jazzística contemporânea. O festival decorrerá entre 31 de julho e 9 de agosto, em Lisboa, mantendo intacta uma identidade programática que privilegia o risco, a diversidade estética e a permanente reinvenção de uma linguagem musical em transformação. Como sublinha a própria apresentação, trata-se de um evento que insiste em reafirmar “a actualidade criativa e original do jazz, música que não cessa de evoluir”.

Logo na abertura, estabelece-se um contraste simbólico que percorre toda a programação: de um lado, a presença tutelar do pianista alemão Joachim Kühn, figura maior da vanguarda europeia, responsável pelo concerto inaugural; do outro, no fecho, a energia de uma nova geração representada pelos SML, colectivo emergente de Los Angeles que aponta para futuros possíveis do jazz. Entre estes dois polos – o da experiência acumulada e o da experimentação em curso – desenha-se um programa entusiasmante que equilibra tradição e ruptura.

O concerto de abertura, no Grande Auditório (31 de Julho, 21h30), é um raro solo de Joachim Kühn, músico que desde os anos 1960 tem expandido o vocabulário do piano jazz através de uma linguagem que cruza heranças da música erudita europeia com a liberdade improvisatória. Mesmo após oito décadas (e mais qualquer coisa…) de vida, Kühn mantém uma abordagem intensamente dinâmica, marcada por estruturas complexas e uma expressividade que desafia qualquer ideia de contenção. A prova mais recente disso encontra-se em Échappée, trabalho que há um par de anos inscreveu no catálogo da reverenciada Intakt Records.

O primeiro fim de semana revela desde logo a pluralidade estética do festival. O duo português formado por David Maranha e Rodrigo Amado (1 de Agosto, Auditório 2, 18h30) propõe uma música densa e contínua, onde o órgão eléctrico cria uma base rugosa sobre a qual o saxofone explora múltiplas intensidades expressivas, num diálogo que reflecte inquietações do presente. No Expresso, sobre Wrecks, álbum que a dupla editou na Nariz Entupido, Rui Miguel Abreu escreveu que “juntos, Maranha e Amado conjuram forças de proporções tectónicas, gerando um som de ressonâncias cósmicas, avassalador, telúrico e cavernoso em que ecoa o estertor de um mundo destroçado – lá está… -, à beira do colapso político, económico, moral e civilizacional”. Já o quarteto Canyon (1 de Agosto, Anfiteatro ao Ar Livre, 21h30) reúne músicos de referência da cena nova-iorquina: o baterista Jerome Deupree, veterano do duo rock de culto Morphine; o violoncelista Lester St.Louis que ladeou a malograda Jamie Branch nos incríveis Fly or Die; o guitarrista Joe Morris que, ressalva o programa oficial citando a revista The Wire, é “um dos mais profundos improvisadores em atividade nos Estados Unidos”; e Sylvie Courvoisier, uma das mais celebradas pianistas deste plural presente. Uma formação que privilegia a improvisação colectiva, assente numa comunicação intensa e imprevisível.

No domingo, dia 2 de Agosto, o encontro entre Fred Moten e Brandon Lopez (Auditório 2, 18h30) introduz uma dimensão híbrida entre poesia e música, em que a palavra falada se articula com o contrabaixo numa reflexão crítica sobre questões sociais e políticas contemporâneas. Em contraste, os Shardik (Anfiteatro ao Ar Livre, 21h30) do guitarrista Matt Hollenberg, da violinista Sana Nagano, do baixista Nick Jost e do baterista Danny Sher apresentam um discurso fragmentado e energético, cruzando influências do metal, do free jazz e da música contemporânea, com uma forte carga expressiva e uma estética de confronto.



Durante a semana, o festival amplia o seu espectro. O Lisbon Underground Music Ensemble (LUME) (3 de Agosto, Anfiteatro ao Ar Livre, 21h30), dirigido por Marco Barroso, celebra duas décadas de actividade com uma abordagem singular à ideia de big band, combinando composição estruturada e liberdade interpretativa, incorporando referências que vão do jazz ao rock à música erudita contemporânea. O quarteto Bonbon Flamme (4 de Agosto, Anfiteatro ao Ar Livre, 21h30), por sua vez, explora uma paleta sonora marcada por contrastes sensoriais e culturais, resultando numa música simultaneamente caótica e meticulosamente construída. Nesta formação milita o guitarrista português Luís Lopes ao lado de Valentin Ceccaldi em violoncelo e sintetizador, Fulco Ottervanger em piano vertical, sintetizador e voz e Étienne Ziemniak na bateria.

A meio da semana, o colectivo The Sleep Of Reason Produces Monsters (5 de Agosto, Anfiteatro ao Ar Livre, 21h30), com Gabrielle Mitelli em trompete, electrónica e voz, Mette Rasmussen no saxofone alto, Mariam Rezaei no gira-discos e Lucas Konig na bateria, explora territórios de improvisação radical, integrando electrónica e manipulação sonora num discurso que dissolve fronteiras entre géneros. Segue-se a saxofonista tenor e flautista Anna Webber com o projecto Shimmer Wince (6 de Agosto, Anfiteatro ao Ar Livre, 21h30). Trata-se de uma das compositoras mais relevantes da actualidade, que, juntamente com Adam O’Farrill no trompete, Mariel Roberts no violoncelo, Elias Stemeseder no sintetizador e Lesley Mok na bateria, investiga sistemas de afinação e ressonância, criando uma música de grande densidade estrutural e expressiva.

Ainda antes do fim de semana, o baterista Ches Smith apresenta Clone Row (7 de Agosto, Anfiteatro ao Ar Livre, 21h30), projecto com a guitarrista Mary Halvorson, o também guitarrista Liberty Elmans e o contrabaixista Nick Dunston em que a composição assume um papel central, articulando guitarras, electrónica e percussão numa linguagem que combina complexidade formal com energia imediata. 

Já no arranque do segundo fim de semana, no sábado, dia 8 de Agosto, o enorme e muito reverenciado Pat Thomas – que neste festival já assinou memoráveis concertos com Ahmed, The Locals ou X-Ray Hex Tet – apresenta-se em formato solo (Auditório 2, 18h30), oferecendo um concerto que oscila entre introspecção e exploração que, paralelamente, pretende expor um equilíbrio sempre delicado entre tradição e experimentação, tal como foi possível escutar no notável Hikmah, de 2025.

O projecto Dream Up (8 de Agosto, Anfiteatro ao Ar Livre, 21h30), liderado pelo baterista Tomas Fujiwara e que conta ainda com Ches Smith no vibrafone e percussão, Kaoru Watanabe nos tambores Taiko e flautas japonesas e Kweku Sumbry no djembe, balafon e várias outras percussões, propõe uma abordagem global à percussão, reunindo instrumentos e tradições diversas numa linguagem rítmica expansiva. 

No último dia, domingo 9 de Agosto, o Chicago Underground Duo, (Auditório 2, 18h30) do trompetista Rob Mazurek e do baterista Chad Taylor, traz um diálogo entre electrónica, jazz e influências africanas, marcado por uma forte dimensão performativa e multimédia. Hyperglyph, lançado o ano passado pela International Anthem, não só interrompeu um silêncio editorial de mais de uma década como, de acordo com o programa oficial, apresentou “um festim de jazz em colisão com a linguagem desconstruída do pós-rock, um cardápio rítmico de tradição africana e a exuberância experimental da electrónica”.

O encerramento cabe aos SML, quinteto que também edita na International Anthem e em que encontramos a baixista Anna Butterss, o teclista Jeremiah Chiu, o saxofonista Josh Johnson, o baterista Booker Stardum e o guitarrista Gregory Uhlmann. Os SML têm vindo a afirmar-se como uma das propostas mais inovadoras da cena contemporânea, como tão bem se confirma no muito aplaudido álbum de 2025 How You Been. A sua música dissolve fronteiras entre géneros, explorando a electrónica, o jazz e outras linguagens num processo contínuo de transformação sonora, evocando, em certa medida, o espírito exploratório inaugurado por Miles Davis na sua fase eléctrica.

No seu conjunto, o Jazz em Agosto 2026 reafirma uma linha curatorial coerente e exigente, onde a diversidade estrutura a expressão de uma visão que privilegia a criação contemporânea em toda a sua complexidade. Entre mestres consagrados e vozes emergentes, entre o rigor acústico e a exuberância eléctrica/electrónica, o festival mantém-se como um espaço de escuta activa e de descoberta permanente, fiel a uma ética que coloca o jazz no centro das mutações culturais do presente.


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