Entre a música, a representação (tanto nos palcos como nos ecrãs), o stand-up comedy e a moda, o carismático Gonçalo Ícaro parece ser a encarnação contemporânea de um artista renascentista — e até vem da Veneza portuguesa, como tantas vezes é descrita a cidade de Aveiro.
Enquanto músico, ICARO apresentou-se há três anos como protagonista de uma música urbana autoral, com um apelo pop, movida a beats e que vai beber abundantemente ao hip hop — ou não tivesse ele começado no trap, com uma linguagem de rua, antes de aprimorar um estilo mais próprio, elegante e por vezes (auto)satírico, incontornavelmente inteligente, que versa com frequência sobre desalentos amorosos, que ainda assim nos arrastam para a pista de dança.
A palavra, uma das vertentes mais importantes desta música e do talento de ICARO, é bem moldada pelo brio do rap e, ao mesmo tempo, por uma certa portugalidade — as referências de cultura pop (ou popular) nacionais, a desconstrução de expressões idiomáticas, os trocadilhos com a língua lusa.
O EP Desculpa Qualquer Coisa, editado em 2025, foi um trabalho de estreia que o afirmou como uma das vozes mais refrescantes e entusiasmantes da música portuguesa actual e que já teve seguimento com “Queq Sabes D’Love”, “Ela é Essa” (feita a convite de bapcat, produtor de Coimbra que tem tido um impacto considerável com a sua série bapcave sessions) e a nova “Não Disseste Nada”.
Sobretudo nos últimos meses, o burburinho em torno de ICARO tem-se intensificado, com o músico a acumular uma diversa base de fãs que vai crescendo em números nas plataformas digitais e nos showcases que foi fazendo. Esta sexta-feira, 5 de Junho, porém, faz o muito aguardado inédito: apresenta-se em nome próprio na Casa Capitão, em Lisboa, num espectáculo onde promete juntar as suas diferentes valências artísticas, trazendo uma componente teatral e humorística para o palco que só promete reforçar as músicas. Ainda há bilhetes à venda por 12€. Até lá, em entrevista com o Rimas e Batidas, ICARO antecipa o espectáculo, reflecte sobre o momento (e a sua história) e explica como “Não Disseste Nada” nasceu.
Queres explicar como é que este single nasce? Em que momento, em que contexto, como é que ele aparece?
Este single nasce porque o [Filipe] Survival ouviu o “Linda”, do projecto Desculpa Qualquer Coisa, e o que ele me disse foi que gostou da liberdade que eu tenho com as palavras e da coragem que eu tenho de as usar para não denegrir, nem ofender ninguém, mas sim, por exemplo, usar a linguagem brega a favor da musa — em vez de contra. Disse-me para eu passar lá no estúdio para fazermos qualquer coisita e fizemos duas. Uma é a “Não Disseste Nada”, a outra é a “Fuck Saudade”, que ainda há-de ser uma realidade, não é para já, até porque é um género diferente. Mas a “Não Disseste Nada” foi gravada em três horas. Deixámos o Desculpa Qualquer Coisa repousar, eu tinha acabado de fazer a “Queq Sabes D’Love” e sabia que ainda ia ao bapcat. Então foi uma questão de calendário, a “Não Disseste Nada” já estava feita há algum tempo e [agora] foi associar aos Santos [Populares]. Eu sentia necessidade de lançar música e esta, se não fosse agora, no Inverno não teria este impacto. A gestão de calendário fez com que a “Não Disseste Nada” esteja a ser um assalto aos Santos, estou a achar um piadão.
E escreveste a letra em apenas três horas? Não tinhas nada preparado?
Só tinha a ideia do “não vás de cavalo para burro, nem faças de mim burro”. Naquela sessão o objectivo era: tudo o que vou escrever hoje vai ser a última vez que vou falar para a minha musa, porque tenho de me dar ao desmame, isto já não é saudável para mim. E escrevi essas duas músicas, a “Não Disseste Nada” e a “Fuck Saudade”, que já tinha vindo a construir. E a “Não Disseste Nada” foi: o que é que eu de facto quero dizer? É que não te queria distrair, não te queria incomodar, pensei que se não te dissesse nada estava a fazer a minha parte. Pensei que tu não te sentias tão culpada, então não disse nada, mas tu também não disseste nada e, pronto, acabei por morrer burro, mesmo não querendo. Mas sim, foi tudo escrito no dia. Já existia o mote, que nos leva também à parte do beat em que tentamos imitar os cascos do cavalo, que é logo ao início. Pegámos num sample de cascos de cavalo, metemos um sintetizador naquilo e demos uma voltinha para que não soasse tão térreo e fácil de entender…
Dirias então, tendo em conta que estavas nesse desmame, que esta canção e a “Fuck Saudade” são uma fase transitória para aquilo que virá a seguir, seja lá o que for? Ou seja, fazem a ponte entre o Desculpa Qualquer Coisa e o futuro?
Completamente. O futuro está previsto, há um projecto fechado. Não quero já dar nomes, mas posso dizer que é um projecto boémio elegante. Ou seja, no próximo projecto, o grande objectivo é conseguirmos falar da mulher, de noite, de vícios, conseguirmos falar do pecado sem nunca o cometer. E tentar falar da mulher sem objectificar, sem sexualizar — é um projecto que se pode dizer feminista.
Na entrevista que deste ao Alexandre Guimarães na Antena 3, dizias que achavas curioso que as pessoas ouvissem os teus desalentos emocionais e os levassem para o lado da boémia. Isso também te influenciou para fazeres este novo projecto, que pelos vistos terá essa natureza nocturna e festiva?
Completamente. Noto claramente isso, que as pessoas abraçaram como um escape. E claro que se tornou boémio. A maioria dos homens que não se conseguiram desconstruir até hoje, só se conseguem desconstruir quando estão livres. Quando as pessoas estão bêbadas, dançam mais, predispõem-se mais a dizer coisas, e há certas coisas que digo no Desculpa Qualquer Coisa, e que vou dizendo, que sinto que é preciso alguma coragem. Como artista não tanto, porque estou-me um bocado a cagar quando escrevo. Não penso mesmo no outro. Penso mais no outro na parte da musicalidade, porque quero que tu dances, mas não quero saber se sou polémico ou não, porque não sou político, não tenho qualquer responsabilidade a esse nível, é assim que me vejo, e portanto acho que este fenómeno dá-se muito porque, ponto um, estou-me a cagar, com todo o respeito; e ponto dois porque, como homem hetero desconstruído, tenho noção de quais são os tabus e o que há para trabalhar no homem e na sua vulnerabilidade em 2026. Acho que é isso que está a acontecer. Ou seja, de repente estão bandidos a ver o meu concerto, porque a minha música de certa forma é um escape para eles poderem sentir e dizerem coisas que se calhar na rua não podem. É como se a minha música pudesse ser esse porto de abrigo, e por isso é que é boémio, porque as pessoas dão-se ao luxo de a cantar quando estão a viver mais, não é? Não choram tanto, dançam mais, acho que é nesse sentido. O boémio veio-me ajudar a entender não o que quero para mim, que isso eu descobri no Desculpa Qualquer Coisa, mas o que gostava de oferecer ao meu público, às pessoas que me ouvem, esse ambiente bonito de irmos ao clube e toda a gente se sentir segura, porque, se consumimos este artista, é porque temos valores, é porque somos vulneráveis, é porque somos sensíveis, é porque temos capacidade de amar o outro, é porque tentamos alcançar o nosso reflexo socialmente.
E estavas a mencionar os bandidos, imagino que tenhas neste momento um público bem diverso.
Tanto etário como de background, sim.
Surpreendeu-te esse espectro largo que conseguiste apanhar?
Estou-me a surpreender. Não é que eu tivesse ideia do artista que queria ser, porque fui-me descobrindo ao longo do processo, mas está-me sempre a surpreender, sim. Não tive de moldar a minha escrita para bater no pop, não tive de moldar a minha musicalidade, tive até de me encontrar mais, “o que é que eu quero representar?”, e parece que tudo é safe. Eu sinto e quero acreditar que as pessoas acreditam no facto que estou só a ser eu, um gajo que come um bitoque, bebe um fino, fuma o seu cigarro, bate um bom papo e que no fim do dia só se quer encostar com a mulher. E acho que esta questão de ser tão terra-a-terra… Acho que o poeta é mais alto quanto mais terra-a-terra for, porque o maior gesto de amor é o pequeno. No fim do dia, as pessoas todas querem ser amadas, apreciadas, acarinhadas, e um projecto que fala de amor de tantas formas, porque eu falo do amor que tenho pela rua, pelos meus… Mesmo pessoas que cometem crimes, que têm uma vida que eu decidi não levar, mesmo esses eu amo e sei que eles me amam de volta. Então de repente há uma cultura de amor, porque é uma coisa que toda a gente sente. Aliás, posso dizer que vai surgir um som chamado “Nunca Foi Difícil”, em que o mote é que gostar nunca foi difícil. Se tiveres dúvidas, no fim do dia o impulso é para gostar.
E imagino que outra boa surpresa tenha sido o impacto do “Ela é Essa”, o tema que fizeste espontaneamente com o bapcat numa única sessão de estúdio.
Sim, até te posso dizer que ia começar a trabalhar numa loja nesse dia, 1 de Outubro, e decidi em vez disso ir ter com o bapcat. Acho que o Matrix é feito destas decisões. E tudo aconteceu a partir daí. Deitei o meu salário a perder para ir fazer música, mas foi a melhor coisa que fiz, porque se não fizesse isso com o bap, não tinha feito o videoclipe do “Manicómio” com o VSP AST e o Henrique Rocha, não me tinha associado a pessoas que já cultivava sonicamente. Parece que, a cada atitude áspera e corajosa que tomo… Tenho a certeza de que, se naquele dia fosse trabalhar e não tivesse ido ao bap, não estaríamos a ter esta conversa agora, se calhar tê-la-íamos futuramente… Quis libertar-me e aconteceu, foi uma demanda de mim para mim. Mas, sim, o bapcat é claramente um dos melhores e mais versáteis produtores da nova escola. E o “Ela é Essa” mostra não só a minha capacidade de escrever em cima da perna e sobre vários temas, em vários tipos de musicalidades, como mostra uma preparação artística por parte do bap para o que der e vier. Porque um gajo que chega ao estúdio e diz: ‘bora fazer um beat trap, meio rock, mas vamos mudá-lo para funk, e depois a meio vamos mudá-lo para flamenco só para fazer uma bridge… Um gajo ouvir isto e, invés de dizer “calma”, dizer “let’s go”, é porque é um gajo que está capaz. Eu também não sou capaz de trabalhar com pessoas que dizem “não sei, não sei”. Tenho a certeza de que há alguém que está cheio de fome e que vai ouvir esta ideia e pelo menos vai tentar e não vai dar essa resposta. Tentar é meio caminho para conseguir. E nunca conheci uma pessoa que tenha tentado a sério e que não tenha conseguido. Ou, melhor dizendo, não conheço uma pessoa que tenha tentado a sério e que, mesmo que não tenha conseguido, tenha morrido com a mesma consciência. Acho que quem se atira às paixões vai sempre ser recompensado. Também acredito bastante no universo: se te moves pelo bem, o bem vem.
Estavas a mencionar essas referências musicais todas que deste ao bapcat naquele dia. Normalmente sabes o que queres, em termos sonoros? Porque a tua música tem várias influências e por isso tens sempre a hipótese de explorar diferentes coisas, inclusive algumas que nós talvez ainda não tenhamos ouvido. Mas habitualmente sabes o que queres no estúdio?
Normalmente é aquilo que servir melhor o poema. No caso da “Queq Sabes D’Love”, como tinha aquela parte em espanhol, achei que uma bachata iria vestir bem o tema e foi o que aconteceu. No caso do bapcat, foi “vamos fazer uma coisa que ainda não tenha passado aqui pela plataforma, se não também não estou aqui a fazer nada”. Ele puxou de um funk que nem era bem a casa dele, mas a casa dele é desconstruir. E quando começamos a desconstruir, aparecem, de repente, aquelas claps de flamenco, depois parte ali para um drop meio rock, mas volta para o funk de uma forma super elegante, não é? O som é todo muito trash na sua estrutura, mas acaba por ser elegante na viagem, na forma como acaba. Fui escrevendo, comecei a ler os momentos, e era: o que é que vamos fazer agora? Isto era fixe se tentássemos agora pôr um bocado de flamenco. E o bap não pensa duas vezes, abre a sua caixinha de flamengo e começa a rebentar.
O que também significa que tu tens estas referências todas, daquilo que podes ou não explorar consoante os versos.
Ali foi: eu não quero fazer o meu melhor som, quero fazer um som de catálogo. Que as pessoas ouçam e percebam: OK, este gajo sabe isto, sabe aquilo, é assim, é assado. Queria que se percebesse bem o artista que eu sou num só som. É a minha melhor carta de apresentação. Não considero que seja o meu melhor som, não é aquele de que mais gosto. Já tinha feito músicas num dia, como a “Não Disseste Nada”, mas essa não era um desafio, eu sempre fui para desfrutar. Aquele foi o primeiro dia em que fui obrigado a desfrutar do desafio. Essa pressão foi o que menos gostei, mas ao mesmo tempo fica a experiência, e que grande experiência, e olha o som que não saiu, e olha o que não está a gerar, não é?
E esse buzz tem acontecido sobretudo nos últimos meses, mas tu tens um background de vários anos até chegares aqui. Sentes que foi um caminho fundamental para amadureceres o teu projecto artístico e saberes agora o que é que queres? Estás a colher os frutos desses anos e a plantar mais sementes para aquilo que aí vem?
Sim, eu comecei com uma banda de garagem em 2016, os CAO. Depois começo a escrever para outras pessoas em 2019 e a lançar os meus sons em nome próprio, de maneira muito informal e laboratorial, entre 2019 e 2021. Depois fiz uma pausa sabática porque era necessário e o que acho é que, se tivesse batido antes, ou se tivesse alguma música a tornar-se viral antes, se a vida estivesse a mudar como está a mudar agora na altura… Ainda bem que não aconteceu, porque eu não teria capacidade emocional. Nem é bem a parte cognitiva, era mais não ter inteligência emocional, não ia perceber as prioridades como percebo hoje, não é que entenda tudo, mas acho que se as coisas estivessem a acontecer há cinco anos eu perdia o barco. Hoje sei o que quero dizer como artista, já não vou para uma entrevista a pensar o que é que quero dizer ou quem é que eu sou, não, vou para uma conversa em que não tenho dúvidas sobre a minha arte, o que eu sou, há aqui uma grande vitória com a idade que tenho. Porque há pessoas que estão a vida toda a descobrir e, embora não esteja completamente descoberto, sou uma pessoa que já se conhece muito bem a nível artístico. Tenho essa sorte, tudo me ajudou para que as coisas estejam hoje a acontecer de forma saudável, organizada… Existem sempre pontas soltas, mas isso é o normal.
Claro, e estamos sempre a transformar-nos.
Exacto, mas toda a estrutura tem a capacidade para perceber isso, reconhecer e actuar em justa causa, e é por isso que as coisas estão a correr tão bem. E eu espero mesmo que se note, é um grande objectivo: quero que as pessoas venham ao concerto, que oiçam a música e que se note que é um artista, digamos, saudável. Que é saudável ouvir este gajo, que não é tóxico. Também não quero que me vejam como um livro de autoajuda, não é isso, mas que ouvir este gajo seja divertido, confortável, com um show fixe. É uma música que nos pode pôr para baixo, mas tem sempre uma moral que nos leva para cima. Por muito que ele passe três minutos a pôr-nos no chão, nas últimas duas frases é para nos levantarmos.
Acho que se nota essa ética artística e no trabalho. Ao longo deste caminho, houve algum ponto de viragem específico que tenha acelerado o processo de perceberes o artista que és ou que queres ser? Ou foi algo muito gradual?
Quando uma das minhas figuras paternais morreu, o meu tio, comecei a ter noção de que a vida passa demasiado depressa e que havia coisas que eu queria representar. Portanto, tudo o que está a acontecer, mesmo o meu estilo, os sapatos que calço, uma ou outra marca que decido vestir, no início foi por causa daquela pessoa, foi um luto e o meu luto foi quase estético. Mudei completamente a minha forma de vestir, portanto também mudei a minha musicalidade. Eu era muito trapper, era muito mais rua, era o gajo de Nike, era esse tipo de artista e, quando a morte se deu, dei-me ao luxo de respirar um pouco mais a vida. Foi a partir da morte do meu tio que comecei a perceber que se calhar era preciso tomar mesmo uma decisão, tomar a coragem, fazer as coisas pelas quais sou apaixonado… Ele foi banqueiro, acabou por trabalhar para um jornal, tocava acordeão desde sempre, foi uma pessoa que não morreu burra. Então todas as referências que tenho da musicalidade do acordeão são da minha família, principalmente essa pessoa…
Sentes que essa mudança de estilo e de música, nessa altura, foi também uma forma de te aproximarmos dele? Ou já tinhas a vontade de explorar outras coisas mas estavas, de alguma forma, a reprimir e a negar essa vontade porque estavas imerso nessa cultura trap?
Eu era um miúdo muito difícil. Tinha o rei na barriga, era de uma zona em que tanto era respeitado pela malta do bairro como pela malta beta, porque estudava na escola dos betos, mas no fim do dia voltava para Esgueira. E foram estas baixas na minha vida que me fizeram acertar contas com esse meu posicionamento. Comecei a perceber que, para ser o maior de algum sítio, tu tens de o provar. E não é que eu esteja agora a tentar provar seja o que for, mas na altura estava, quando eu era uma espécie de trapper. As pessoas sabiam que eu chegava a uma roda e improvisava, fazia batalhas de rua… Na zona eu era esse gajo, mas também não lidava bem com isso, queria um bocado mais, não queria ser esse gajo.
E outra coisa que também é importante mencionar, tendo em conta as outras artes que tens vindo a explorar, porque pareces um verdadeiro renascentista, é que imagino que seja difícil conjugá-las, nem falo só do lado logístico e da disponibilidade, mas mesmo do foco e do propósito artístico… Dentro das várias coisas que fazes, da representação à comédia, a música sempre foi fundamental para ti?
Acho que todas elas têm um ponto em comum, que é a escrita, onde sou mais devoto. Quando faço guiões, quando escrevo letras para outros, quando escrevo poemas para mim, acho que é isso… sou muito devoto à escrita. Simplesmente acho que, se fosse um livro, muita gente não me lia. Eu poderia fazer essa tentativa, mas gostava que o veículo fosse mais rápido para a minha poesia e gosto deste lugar de, quando as pessoas cantam as minhas músicas, as pessoas estão a cantar a minha poesia, ou seja, é como se eu estivesse naquele momento a olhar-me ao espelho sonicamente. Mas eu não quero escolher entre nada, eu quero ser livre. O meu grande objectivo é não pensar em dinheiro, ser livre e amar incondicionalmente, sem ter sequer de pensar nisso.
Fazer as coisas diferentes de que gostas, claro.
Claro, mas se me dissesses: “Gonçalo, tens de escolher uma agora”… Eu dizia-te música. Porque já tive 10 ou 15 anos de teatro, representação, filmes, séries, stand-up comedy e as coisas aconteceram, os projectos estão lá, mas a vida não se abriu muito. Com a música, estou a viver as coisas que estão a acontecer, então, se tivesse que escolher, escolhia viver isto… Mas sempre a escrita.
E escrever para outros é algo que te dá mesmo prazer, de que gostas mesmo, além de obviamente também ser conveniente para te manteres sustentável?
Eu quero acreditar que a minha vida é escrever para mim, escrever os meus poemas, fazer as minhas coisas. Escrever para outro é uma fuga, como um jogo… Como se, na vida real, eu estivesse mesmo a jogar o jogo. Se representar o Beira-Mar, vamos ver se nos mantemos, se descemos, se ganhamos o campeonato, essas coisas… E, de repente, sento-me no sofá, tiro a camisola e jogo um FIFA. Esse FIFA é…
Escrever para outros.
Sim, com os códigos e as ideias dos outros, com o background dos outros. Eu sou um treinador-adjunto. Não dou conferências de imprensa, estou ali só para melhorar o projecto e fazer com que a equipa jogue. Não é sobre mim, eu estou na equipa técnica, mas nem por isso tenho esse protagonismo todo. Estou onde tenho de estar, é um bocado assim que vejo a coisa. E é um FIFA, mas eu levo a sério. Porque no FIFA também fico fodido quando perco. Vês-me a perder três jogos, vais ver a minha cara no jantar…
Portanto, vais continuar a jogar FIFA aqui e ali, imagino.
Se as coisas estiverem a correr bem para o meu lado, se calhar já não me faz sentido escrever para esta pessoa, porque se calhar não acredito no projecto. Ou existe aquele amigo que eu acho que é incrível e que eu sempre quis ajudar, mas nunca tive capacidade financeira ou tempo e agora posso. É nesse sentido que eu quero que o meu FIFA melhore. Que eu consiga ajudar os meus e os projectos em que realmente acredito.
E sendo tu também um actor, na música há artistas que são particularmente transparentes e próximos de quem eles realmente são, mas também há outros que projectam certas personas. Como é que encaras isso, no teu caso, tendo em conta que és literalmente um estudioso da área da representação? A música é um ofício artístico em que estás mais livre, a seres tu próprio? Ou torna-se inevitável criares sempre uma certa persona?
No meu caso, tento que a minha persona seja o mais próximo possível da minha pessoa, que é para não estar a pensar muito na minha obra e só fazer. Se algumas barras são ficcionais, são. Tal como num bom filme, mesmo que seja sobre a vida do autor, há sempre coisas… Aquela camisola não era vermelha, mas eh pá, ficava bem aqui neste décor, vai ficar vermelha. Ou seja, este tipo de apontamentos eu vou mudando no guião. Mas o resto é tudo muito sincero, até porque quero aproveitar o FIFA de escrever para outros ou o fazer uma série para esta construção de personagem. Fora isso, gosto de ser eu, gosto que as pessoas sintam que a aura daquele artista é palpável, porque é sincera. Ou seja, que exista uma abundância de verdade, não de razão, porque não quero ter razão, mas quero ter verdade, que é bem mais difícil. No entanto, se me perguntares a nível de show, claro que aí é diferente…
Aproveitas o teu lado teatral.
Exactamente, aí faço questão, como será agora na Casa Capitão. Por muito que tenha feito showcases, por muito que tenha subido a palco com artistas, nunca é o meu ambiente. Eu adapto-me sempre ao sítio onde estou. E esta é a primeira vez em que tu podes entrar na minha casa. O que está em palco é uma coisa que me representa. As pessoas que estão em palco são pessoas que me representam. Ou seja, ali posso partir uma jarra. Na casa dos outros é que não. A minha persona de palco sou eu, mas está exacerbado. A partir do momento que o público pagou bilhete, tu sabes que eu vou dar tudo.
O que é que podes antecipar sobre o concerto na Casa Capitão?
Posso dizer que a portugalidade que está na minha música estará no concerto. A ideia de ataque aos Santos é mais pela portugalidade que eu possa representar. Não vou agora também estar a fazer uma festividade de Santos quando nem sequer sou de Lisboa. Também há que saber separar as águas. Mas posso dizer que será muito português. Ou seja, tens momentos de comédia, momentos plásticos, mas tens sempre uma portugalidade inerente. E a expressão que eu escolhi para este concerto é uma expressão muito portuguesa que não é saudável: o desenmerda-te. De repente parece que a portugalidade é a saudade, o fado… Eu acho que a portugalidade é o desenmerda-te, o “venha o Diabo e escolha”, esse tipo de expressões. E é o tal desenmerda-te que há muito neste concerto. Eu sou muito perfeccionista e tento fazer as coisas bacanas, mas estou sempre a tentar fazer rir com o inesperado. Aquela coisa de “eish, o gajo escolheu mesmo isto”. Porque tu num show podes ser infinito. E essa infinidade levou-me a criar um título que eu acho que é muito saudável para este novo início, esta nova fase. Apresenta esse lado boémio, brincalhão, e é esperar o inesperado. Nem eu estava à espera de tomar certas opções, só que o espetáculo foi-se montando e certas Eurekas foram aparecendo. Estou-te a entregar um momento de comédia e consigo fazer uma ponte óbvia para o som, mas quando estás a ouvir aquele momento, não percebes a ponte, só percebes quando o som chega. Então, além desse momento cómico, há depois a Eureka. Sinto-me meio um camaleão das artes. Então quero juntar o melhor de todos os mundos e, mesmo sendo camaleão, tentar entregar uma cor consistente.