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Hip House: quando o rap inundava as pistas de dança

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTO] Direitos Reservados

 

Depois de por aqui já se terem dedicado olhares retrospectivos a sub-géneros do Hip Hop como o MIAMI BASS ou o ELECTRO, derivações que acabaram por se fundir com ou influenciar outros géneros, voltamos a mergulhar nos arquivos de Rui Miguel Abreu para recuperar e adaptar um texto de 2004 escrito a propósito de um momentâneo hit dos Jungle Brotherts – “Breathe Don’t Stop” – e assim lançar luz sobre um capítulo da arqueologia hip hop: o HIP HOUSE.

 


Nada escapa às malhas do revisionismo e às vezes até parece que alguém que puxa os cordelinhos da indústria musical está algures num gabinete com um calendário e um telefone, que usa para ir emitindo orientações a um qualquer batalhão de produtores. Senão, reparem: nos últimos anos o Disco Sound, primeiro, e o Electro, depois, foram duas das mais fortes influências de quem produz matéria prima para as pistas de dança, concentrando, respectivamente, as suas inspirações nos períodos de 78-82 e 82-86. Qual é a corrente que se segue? Ao que tudo indica, o Hip House…

O Hip House foi uma corrente fugaz que entre finais dos anos 80 e inícios dos 90 cruzou os mundos do Hip Hop e do House. Um olhar atento sobre os maxis dos principais artistas de Hip Hop dessa época – de Eric B & Rakim aos EPMD, passando pelos De La Soul e LL Cool J – revelará sempre uma Club Mix ou, mais descaradamente, uma Hip House Remix dos temas do momento. Foi a forma que o Hip Hop encontrou para penetrar nos clubes de House e que o House adoptou para se sintonizar com uma revolução que, no final da década de 80, já não podia ser ignorada.

Na verdade, as dinâmicas de aproximação entre os dois universos foram síncrones e mútuas: se ao hip hop interessava definitivamente entrar nas pistas de dança, ao house o rap foi sempre um recurso e uma inspiração – desde os primeiros passos de Jee Saunders até à explosão dos Bomb da Bass com “Beat Dis” que as contaminações aconteceram sempre de ambos os lados.

 



Claro que a face mais visível dessa tendência – os Technotronic ou os Snap – gerou hits de escala planetária, mas corrompeu as estratégias originais, condenando o género ao esquecimento e revestindo-o de uma aura decididamente “uncool”. Mas há uma nova geração de produtores a acordarem para as malhas originais do Hip House.

 


https://www.youtube.com/watch?v=Ul7QjZV3CT4


O tema de Mr On Vs The Jungle Brothers – que neste momento arrasa pistas por todo o mundo e cujo domínio se deverá estender até ao próximo Verão – pode ter começado vida como um bootleg criado por Mr On para aumentar o impacto do seu set. Mas a ideia começa a ganhar outra vida. Originalmente, esse bootleg cruzava o instrumental do grande clássico “Don’t Stop ‘Til You Get Enough” de Michael Jackson (tema que os portugueses Cool Hipnoise reviram ainda com Melo D) com um acapella de Q-Tip (membro dos lendários A Tribe Called Quest) de título “Breathe And Stop”. O facto de a combinação ter provocado tantos estragos em todo o lado motivou o interesse de várias editoras e, já com a Positiva por trás, Mr On decidiu levar a ideia um pouco mais longe, legalizando o sample de Michael Jackson e convidando os Jungle Brothers, lendas vivas do Hip Hop que sempre se mostraram disponíveis para cruzarem os seus flows com os mais recentes desenvolvimentos das pistas de dança. No seu segundo álbum, “Straight Out The Jungle”, o tema “I’ll House You” já indicava essa vontade. Mais tarde, colaborações com Aphrodite, do universo Drum n’ Bass, mantiveram essa vocação acesa. E agora: “Breathe Don’t Stop”.

O single da Positiva, além de contar com um excelente vídeo de animação, onde podemos ver os JB’s a imitarem os passos de dança de Michael Jackson, tem uma série de remisturas que, em definitivo, sacodem a poeira ao fantasma do Hip House tornando esse som um “must” nas pistas. A começar na musculada revisão de Milk & Sugar (o nome por trás do massivo “Let The Sunshine In”), passando pela remistura de Blakkat (outro produtor em grande, no momento) e terminando coma subtil revisão de Ali B.

Mas o Hip House – se bem que conta com um incrível ponta de lança no tema de Mr On com os Jungle Brothers – não se fica por aqui. Uma das melhores compilações que se pode encontrar neste momento (podem adquira-la no site www.turntablelab.com) tem por título (já devem ter adivinhado…) Hip House e traz assinatura de Dj Ayres and Cosmo Baker. Cola velhos clássicos de Hip House (como “Come Into My House” de Queen Latifah ou “Get on The Dancefloor” de Rob Base) com “bootlegs” instantâneos que cruzam, por exemplo, Missy Elliott com os Black Dog ou Ghostface Killah dos Wu Tang Klan com os Rhythm Masters, contribuindo assim para aproximar de forma contagiante os universos do Hip Hop e do House.
Com o Hip Hop e o R&B a tomarem conta de muitas pistas de dança nos Estados Unidos, o Hip House poderá muito bem ser o som que agradará a gregos e troianos. Será, certamente, o próximo revival a contagiar produtores sintonizados com as pistas um pouco por todo o lado.

 


[10 CLÁSSICOS HIP HOUSE]

01. Rob Base & DJ EZ Rok – “Get On The Dance Floor” (1988)

https://www.youtube.com/watch?v=bijjq_zFHis


02. Jungle Brothers –  “I’ll House You” (1988)


03. De La Soul – “Say No Go (Say No Dope – C.J. Mackintosh remix) (1989)


04. The D.O.C. – Portrait of a Masterpiece (C.J.’s Ed Dit It Remix) (1989)


05. EPMD – “I’m Housin” (UK Mix- Simon Harris Remix)

https://www.youtube.com/watch?v=OAXYYLdCrrk


06. Farley Jackmaster Funk & The Hip House Syndicate – “Free at Last” (1989)


07. Twin Hype – “For Those Who Like To Groove” 1989


08. Monie Love – “Grandpa’s Party” (The Love II Love remix by Soul II Soul) 1989


09. Queen Latifah – Come Into My House (Orbital’s Extended Vocal Club Remix) (1990)

https://www.youtube.com/watch?v=lxatQ-Aw_2s


10. Eric B & Rakim – Let The Rhythm Hit Em (45 King Club Mix) (1990)

https://www.youtube.com/watch?v=ZXlVbRgx4Yw

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