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Hip hop para clubes de strip: os graves do Miami Bass que chocaram o mundo

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTO] Direitos Reservados

De todos os géneros de música que cultivam ligações mais ou menos claras ao mundo do S.E.X.O., o Miami Bass (ou Booty Music ou Bass Music, conforme lhe queiram chamar…) é o que o faz de forma mais descarada. Talvez porque o género tenha dado os primeiros passos nos clubes de strip da capital da Flórida, talvez porque o calor húmido próprio daquele Estado convide as pessoas nos clubes a largarem as roupas ou, muito simplesmente, e nas palavras imortais dos Renegade Soundwave, talvez porque as mulheres respondem às baixas freqüências…

Seja como for, é longa a ligação do hip hop ao “bottom end”, que é como quem diz ao espectro de frequências mais baixas, aquelas que são menos ouvidas e mais sentidas no próprio corpo. Kool Herc, o pai fundador do hip hop, importou da sua Jamaica natal o hábito de construir os seus próprios sound systems, com woofers gigantes para que o boom da música se sentisse bem forte nos estômagos. Com essa experiência bem presente, Afrika Bambaataa – com a ajuda de Arthur Baker e de uma 808 – criou “Planet Rock” uma faixa que, sozinha, haveria de influenciar os clubes de house, techno, electro e, claro, os clubes de Miami.


 

https://www.youtube.com/watch?v=vlyDSx8gpZ0


 

Com muito do seu poder ligado à descoberta da Roland 808 (uma caixa de ritmos com um “kick drum” mítico…), “Planet Rock” cedo se aliou em Miami a faixas como “Clear” dos Cybotron de Juan Atkins. Estávamos em 1982/1983 e o mundo nunca mais seria o mesmo.

Esse som influenciou rapidamente o produtor “Pretty” Tony que vendo aí uma oportunidade, cedo começou a editar. “Look Out Weekend” por Debby Déb foi uma das suas primeiras produções, antes de editar os Freestylers, um grupo de Electro responsável pelo lançamento de outro sub-género, precisamente baptizado com o nome “Freestyle” (electro influenciado pela música latina dos clubes…).


 


 

Nesta época, Luke Skywalker (que haveria de fundar os 2 Live Crew…) era o gerente do Pac Jam (um daqueles clubes onde se dançava de patins…) onde muitos dos temas de Pretty Tony rodavam com insistência. Mas continuava a faltar-lhes qualquer coisa… Mr. Mixx, produtor e DJ dos então californianos 2 Live Crew, começou a mexer na 808 e descobriu que podia baixar ainda mais as freqüências… E a revolução começou! Luke começou por identificar um potencial nas produções de Mr Mixx e acabou por financiar o seu 12” Throw The D/Ghetto Bass, que seria bem mais recebido em Miami, obrigando o grupo então a imigrar para a Florida.


 

https://www.youtube.com/watch?v=aCOCwoALnUY


 

Aliando a música aos clubes de South Beach, onde praticamente ninguém se dava ao trabalho de trocar a roupa com que tinha passado o dia ao sol, o Miami Bass nasceu e criou fenómenos que cedo passaram as fronteiras da Florida. No final dos anos 80, e por um momento, quando os 2 Live Crew forçaram os censores a dar atenção a “As Nasty as They Wanna Be”, o mundo vibrou com os sub-graves exportados de Miami. E também soube unir-se para defender o direito de Luke celebrar os prazeres da carne de uma forma que muitos julgam primária. As batalhas foram ganhas, e o baixo de Miami infiltrou-se no mundo: “Shake Your Rump” dos Beastie Boys (que dedicaram um número inteiro da sua já defunta revista Grand Royal à Bass Music com um artigo de DJ Shadow sobre o género e tudo), “Rump Shaker” dos Wrexckx-N-Effect’s, Baby Got Back de Sir Mix a Lot, muito dancehall, algum drum n’ bass e 2 Step são hoje claros devedores das explorações ao coração das baixas freqüências efectuadas pelos pioneiros de Miami. E este género até encontrou na Alemanha um segundo mercado preferencial, com um circuito de festas, editoras, revistas e websites a suportarem a cena da “bass Music”.


 


Nomes como Dynamix II, Magic Mike, DJ Battlecat, The Mix Crew, MC Ade, Maggotron, Speakerhead ou Missy Mist servem como referências para quem queira usar a net para procurar mais informações sobre o assunto. Mas não é fácil, uma vez que o verdadeiro Miami Bass continua confinado aos clubes menos turísticos de Miami.

A Mo Wax de James Lavelle deu alguma atenção ao Miami Bass através da edição de trabalhos de DJ Assault e DJ Magic Mike, dois dos mestres do género. A Booty Music, essa, continua forte em Miami, agora sub-dividida em muitos géneros, uns mais próximos do Techno, outros ainda retendo a sua ligação ao Hip Hop, mas todos apostados em “baixar” cada vez mais a fasquia dos sub-graves. Enquanto mulheres devidamente despidas abanam literalmente os traseiros com este som…

Em anos mais recentes a cena Baile Funk dos morros do Rio de Janeiro expandiu claro, a influência do Miami Bass. Supostamente, uma viagem a Miami de Dj Marlboro e a compra de um conjunto de maxis locais serviu de fundação para todo um novo género que pode ser visto como o início do rastilho que explodiu na actual cena Global Bass. Mas tudo começou em Miami!

5 Clássicos das pistas bass de Miami


 

1. “Ghetto Bass” – 2 Live Crew


2. “Bass Rock Express” – MC Ade


3. “Supersonic” – J.J. Fad


4. “Cars That Go Boom” – L’Trimm


5. “Just Give The DJ a Break” – Dynamix II

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