Cada vez que vejo um vídeo de Gisela Mabel tocando, me impressiono. A conexão que ela tem com as teclas nos faz sentir a paixão que ela tem de compartilhar sua música. Impossível não ser impactado. No Ageas CoolJazz deste ano, vai ser possível testemunhar isso ao vivo, no mesmo dia (22 de Julho) em que toca também Diana Krall, uma artista que, curiosamente, está ligada ao início do trajeto de Mabel nos trilhos do jazz, como poderão perceber mais abaixo.
Depois de conversas informais e uma crítica do disco Álbum de Retratos, tive a oportunidade de conversar com ela por videochamada para falar sobre trajetória, inspiração e dos caminhos que fez para conquistar seu espaço. Tudo isso é possível ser lido nesta conversa que faz parte da celebração do Rimas e Batidas pelo Dia Internacional do Jazz.
Quando e como você se apaixonou pelo piano?
Olha, foi um encontro que eu não estava nada à espera. Quando era miúda eu queria ser… aqueles sonhos de criança… o meu sonho era ser bailarina. Eu não estava nada à espera. Eu cresci em Olhão, que é no Algarve, e houve uma altura da minha vida, com 10 anos, em que a minha família mudou-se para uma outra casa e nessa casa a senhoria estava a separar-se do marido, acho eu, e deixou lá uma data de mobília para nós. E nessa mobília tinha lá um piano. Então foi tipo um encontro nada propositado, nada pensado. Na altura, lembro-me que a minha mãe não queria que eu mexesse no piano, porque tinha medo que eu fosse estragar ou desafinar. Olha, era um piano que estava podre e desafinado, com as teclas amarelas. Coitado, estava mesmo a precisar de salvação. E mesmo assim, aquilo era proibido. “Ah, é proibido? Então, eu quero aprender.” Quis ter o “certificado” para poder usá-lo. E foi assim que eu comecei a aprender piano. Já eu andava no conservatório para aí dois anos, continuava a estudar assim num pianinho pequenino. Mesmo assim, ainda não tinha o “certificado” para poder usar os pianos grandes. [risadas]
É aquela história dos pais proibirem as coisas para as crianças e o proibido chama ainda mais atenção delas.
É, o fruto proibido é o mais apetecido, tal e qual.
E depois disso você foi estudar piano, de fato?
Fui. Entrei para o conservatório lá do Olhão… Nunca foi uma coisa que eu visse como algo que eu queria fazer no futuro. Mas foi uma coisa que eu rapidamente percebi: eu tenho uma paixão enorme por isto. E pronto, apesar de ter aquela paixão, também tinha facilidade. Era muito fácil eu compreender a linguagem. Ao longo dos anos, a paixão foi crescendo, crescendo, crescendo, crescendo… até ao dia de hoje.
Observando de longe, principalmente pelos vídeos, sinto que quando está ao piano, você se conecta a ele. Ambos se unem e se transformam em um. Qual foi o momento que você decidiu: “Vou fazer isso da minha vida?”
Para mim aquilo já era uma coisa muito natural. Era um amigo. E então, depois da escola normal, o 12º ano, entrei para a faculdade. Fui estudar Serviço Social. Porque, opá, na altura, sabes aquela coisa que existe na sociedade e até mesmo os próprios pais, quando dizem: “A música não. As artes não.” Tu tens que ir estudar uma coisa que te dê um futuro mais concreto. Percebes? E eu fui muito nessa onda. E quando acabei o meu curso de Serviço Social, eu decidi que não seguiria. Eu disse: “Já fiz tudo o que vocês queriam, eu já fiz tudo o que a sociedade queria, agora chegou o momento de eu fazer aquilo que o meu coração pede.” E foi aí que eu me vi livre de todas as amarras e vim para Lisboa continuar o estudo, porque nunca foi uma coisa que eu largasse completamente, mas queria vir para cá e estudar outras coisas… eu comecei a estudar jazz, por exemplo.
Mas o piano também é um instrumento que você tem que estar estudando constantemente porque é um instrumento, digamos, complexo…
Sim, é, mas eu até não via as coisas muito por aí, porque até à altura, quando andava na faculdade, nunca pensei que… não era muito certo que eu queria fazer aquilo profissionalmente, então utilizava o piano só como fonte de conforto próprio, sabes? De, às vezes, precisar de libertar tensão, precisar de conversar comigo própria, utilizava muito o piano nesse sentido. Quando comecei a encarar que, ok, realmente é isto que eu quero fazer profissionalmente, sim. Aí há uma disciplina no estudo pianístico e na técnica que nós precisamos ter para conseguirmos “falar”. Mas também considero que eu não sou uma pessoa… Imagina, quando andava no conservatório, sempre me disseram assim: “Se tu queres ser alguém no piano, tens de estudar oito horas por dia.” E eu nunca fui essa pessoa. Porque eu vou quando eu acho que preciso de ir, percebes?
Mas também vai na questão que você falou de pegar as coisas muito facilmente, pelo menos o piano, de aprender a tocar e pegar as nuances muito mais fácil. Então, pode ser uma questão isso.
Acho que sim.
E o jazz, quando ele entra na sua vida?
Olha, o jazz entrou muito antes de eu vir para Lisboa, quando eu acabei o curso. Eu lembro-me perfeitamente que no conservatório tínhamos audições, aquelas audições de final de ano, que nos apresentávamos para os pais e tudo mais. E uma vez uma mãe chegou ao pé de mim e disse-me assim: “Olha, tu devias ir ouvir Diana Krall. Olho para ti e sinto uma Diana Krall.” E eu nunca tinha ouvido falar de jazz, não sabia sequer o que aquilo era. Mas aquilo ficou-me na cabeça. Entretanto, houve uma outra situação em que fui a um festival de música em que eu participava e ele era direcionado ao jazz. E eu lembro perfeitamente, e nunca mais me esqueço, que quando eu me sentei numa cadeira de auditório e ouvi… ao piano estava o Mário Laginha, e tinha a Maria João, a cantora, a cantar o tema “Beatriz”, do Chico Buarque, sabes? Fiquei apaixonada, apaixonada. Foi uma semana muito dedicada ao jazz. Foi a primeira vez que eu tive os primeiros contactos com os standards de jazz e depois, quando acabei o curso, eu vim atrás da professora que tinha estado comigo nesse festival. Foi assim que comecei, mas digo já que fiquei um bocado desiludida na altura.
Porquê essa desilusão?
Sabes que eu tinha na cabeça que o jazz, pelo menos em comparação com o clássico, nos dava aqui uma outra forma de ver a música, outra forma de sentir as coisas e outra forma de liberdade. E eu cheguei à escola e deparei-me com um cenário completamente oposto àquilo que eu imaginei, sabes? É a tal institucionalização do jazz. Eu deparei-me com… parece que a música se resumia a quem fazia as harmonias mais complexas, a quem tocava mais notas num determinado segundo, e aquilo para mim não fazia sentido. Para ser sincera, eu achava aquilo muito vazio, percebes? E fiquei muito desiludida. Pensei: “Se isto é jazz, eu não quero.” Claro que hoje tenho outra concepção sobre, mas naquela altura eu nem acabei o curso. Eu disse-lhe: “Vou abandonar, porque se é isto, eu não quero.”
Essa é uma questão de vários jazzistas que converso. Alguns nem mesmo se consideram pertencentes ao jazz por não ter essa complexidade na forma de tocar, que muitos pedem. Esse virtuosismo, entendimento e estudo, muitas vezes afasta tanto o músico quanto também os ouvintes, porque coloca o jazz numa escala inalcançável tanto na execução como na escuta. Você teve essa mesma visão tendo essa proximidade?
Eu comecei a ir às jams e basicamente, para te ser sincera, eu sentia uma luta de egos. E pensei: “Não é fixe, não sinto uma vibe fixe.” Até porque aquilo tem formas muito rígidas… Claro que não sou da opinião, por exemplo, na improvisação, de que as coisas não têm que ter regras. A vida existe em regras e é um equilíbrio. Mas eu também sou da opinião de que nós não falamos para mostrar que sabemos a gramática. Nós usamos a gramática para falar. E é isso que eu sentia. Agora já entendo de outra forma, mas foi isso que eu senti na altura.
Era uma coisa de fazer música para músicos, e não para as pessoas em geral. Falar com determinadas pessoas, especificamente com aquelas, e não para todo mundo. Falar uma língua específica. Pensando nisso também, você tem um estilo próprio de tocar e de fazer jazz. Como que o definiu, fugindo daqueles estereótipos?
Eu acho que se nós recuarmos um bocadinho na história, o jazz nasce numa necessidade de sobrevivência de pessoas até que foram maltratadas e que procuravam a sua voz, procuravam a sua liberdade de expressão, e procuravam isso numa forma diferente de ritmo, numa forma de improvisação, que dignifica-se daquela forma, percebes? E eu, hoje em dia, vou muito a essa essência. Para mim, isso é que é importante. Agora, se a minha música se pode chamar jazz ou não, isso eu não sei, eu vou deixar isso para quem sabe. [risadas] Mas se eu pensar que a essência do jazz é essa, ok, estou incluída. Porque é isso que eu faço com a minha música e é esse espaço de honestidade que eu tenho comigo própria que eu tento puxar cá para fora. Agora, sei lá, há quem vá dizer que não é jazz. Claro que não é um jazz mais tradicional. Isto já é um crossover, já é uma mistura… eu acho que isto é uma influência de tudo aquilo que eu já fui vivendo, tanto a nível de aprendizagem do clássico, do jazz, da música brasileira também. Depois tem influência daquilo que eu também gosto de ouvir e sinto que faço parte. Não sei explicar o porquê, mas tudo isso resulta naquilo que eu deito cá para fora.
Quais são as suas referências hoje?
Olha, as minhas referências, as minhas referências… eu sinto que essa questão é sempre um bocadinho difícil de responder… porque hoje em dia, se formos pensar naquilo que me inspira e nas referências da vida que me inspiram, não te consigo dizer um nome. Consigo dizer que hoje em dia ainda tenho uma presença muito vincada de Chopin, que foi o primeiro compositor pelo qual eu me apaixonei. Há outros nomes que posso dar. Adoro Bernardo Sassetti, que é uma pessoa em que eu me inspiro bastante, mas na verdade as minhas referências são até pessoas que não têm que ver com música. Eu acho que a música é só o ponto do iceberg, é só aquilo que está visível, porque… considero que a música é só um veículo pela qual eu me expresso, percebes? A inspiração vem de pessoas, vem de histórias, vem de vidas, vem da minha própria vida. Um bocadinho disso.
O jazz é uma arte que está sempre evoluindo e se transformando. Mesmo se misturando com outros gêneros, a essência está ali ainda. Dá para ouvir algo mais moderno e falar que aquilo é jazz. De que forma você observa essa evolução fazendo parte dela também?
Bem, neste momento é tudo muito… Vou ser sincera, é tudo muito confuso para mim, porque não há linhas que separam. Tudo se mistura, e isso é bom. Tudo se mistura. Várias vozes se encontram e formam uma coisa. Há muita coisa que se perdeu, há muita coisa que se ganhou. Hoje em dia nós temos também um acesso a coisas que não tínhamos há não sei quantos anos atrás e isso facilita. Acho que se o jazz é um reflexo daquilo que temos vindo a ser, e se ele acompanha a nossa evolução também, é normal que hoje o jazz seja uma mistura de coisas, porque nós também somos isso. O jazz evolui connosco e nós evoluímos com ele.
É uma troca. Uma vai puxando a outra, porque faz parte também da essência. Considero que o jazz seja muito mais que música. É uma arte que está intrínseca em todos os momentos da nossa vida e nos acompanha também.
É isso, é daí achar que, por ser mais que música, ele está em constante movimentação, porque nós estamos em constante movimentação.
Atualmente as mulheres têm conseguido espaço, porque se a gente pegar os grandes standards, tem pouquíssimas mulheres, e principalmente tocando instrumentos. Mas hoje temos um número expressivo de mulheres como bandleaders, e você é uma delas. Demorou, mas felizmente está acontecendo. Tem observado isso também nos festivais que participa?
Já era sem tempo. Observo que estamos melhor do que estávamos há muitos anos atrás, mas também considero que ainda há muito caminho pela frente. Porque, no geral, mulheres na música… Imagina, quando ainda nos causa espanto vermos uma mulher atrás de uma mesa de mistura numa grande produção, atrás de luzes, ou a tocar bateria, ou qualquer coisa do género. Quando isso nos causa espanto é porque não é normal, percebes? E é sinal que ainda temos esse caminho pela frente, porque não é por falta de elas existirem. Nós entramos num estúdio, olhamos à nossa volta, conta-se pelos dedos das mãos as mulheres que estão lá presentes. Portanto, acho que sim, que ainda há trabalho pela frente. E quero acreditar e tenho esperança de que a cada dia que passa pode ser mais um passo na direção certa. Eu sou uma representatividade.
Sim. Você é uma das representantes que está tomando a frente em várias questões, participando de vários festivais e lançando músicas e discos. Isso é importante porque mostra que as mulheres estão em movimento e é necessário que a indústria, que é comandada por homens, observe isso e tenha essa visão de que é necessário. Porque não adianta olhar ao nosso redor e ver poucos (ou quase nenhuns) negros, poucas mulheres, e achar que aquilo é normal.
Exato.
Porque, por isso que a indústria da música, na arte, a gente olha em volta e vê poucos iguais a nós (negros). E aí a gente fica contando em vários lugares, tem um, dois…
É, mas é que é no geral, mesmo. É no geral, seja na música, seja em qualquer vertente. Temos um bocadinho de parar, pensar e romper com essas barreiras.
Voltado para a sua música, você lançou o disco Álbum de Retratos em 2024. Tem planos para um próximo já?
Tenho. Eu já estou a compor o próximo álbum. Agora vai ficar aqui uma anotação, que pode ficar em bold. Falta dinheiro. Falta financiamento. Portanto, quem estiver a ler isto, se quiser ajudar, é bem-vindo. [risadas]
É aquele detalhe que sempre falta.
Epá, sim. Ainda não há data prevista para o lançamento, mas brevemente vão sair uns singles que já vão fazer parte desse álbum. Eu já comecei a compor, mas lá está, há toda uma coisa à volta que envolve dinheiro. Para mim é a parte mais complicada.
Eu acho que para todo tipo de projeto, principalmente artístico, o dinheiro sempre define muita coisa… Mas eu queria entender como é o seu processo de composição. Porque um cantautor, por exemplo, que compõe letras, compõe de um certo jeito. Agora, na música instrumental, como que surge a composição?
Olha, é muito difícil definir isso. É difícil materializar, porque há coisas que não sei explicar por palavras. Porque eu acho que se soubesse que explicar por palavras, sinceramente eu acho que escrevia as minhas músicas com letras. Mas eu não sei. Eu só sei que… às vezes defino vários caminhos onde eu posso seguir. Do género: há sítios que a música nos leva que muitas vezes nós desconhecemos. E eu componho muitas vezes com base naquilo que eu sinto nesse sítio, dentro de mim, e que eu desconheço. E depois aí, claro, que envolve técnica, há sonoridades que são mais tristes, há sonoridades que são mais esperançosas, outras mais melancólicas, e vou venindo assim, consoante aquilo que eu sinto naquele espaço. Às vezes tem a ver com onde é que eu quero estar, o que é que eu quero sentir. Então vou à procura de sons que me façam sentir aquilo. É tudo na base da emoção. Às vezes surgem imagens, e depois tento descrever aquelas imagens. Mas é tudo na base do que estou a sentir em relação a um determinado assunto, em relação a uma determinada pessoa, um determinado lugar. E depois vou construindo assim. Há sons que, se calhar, são mais tristes. “Ok, este lugar tem um bocadinho mais de tristeza.” Tudo vem da inspiração dos lugares, e dos momentos.
E sua música tem muito disso. Ainda não tive a oportunidade de te ver tocar pessoalmente, mas pelos vídeos dá para perceber que você toca com uma paixão. Assim, consegue transmitir aquele sentimento aos ouvintes. Para mim vem muito aquela cena do filme de animação Soul, em que o personagem Joe Gardner está tocando e é elevado para outro lugar. Tem essa mesma impressão quando está tocando?
Eu também sinto isso. Para mim, o que eu considero um concerto bom ou menos bom é se eu conseguir conectar-me com o piano. Às vezes não é fácil porque existem nervos, existem coisas que nos podem desconcentrar. Mas se eu estiver completamente conectada com ele, era aquilo que estavas a dizer: somos um só. Eu não sei explicar isso. Não me façam explicar isso porque eu não consigo… Porque, lá está, há coisas que não se explicam, apenas se sentem. Eu tenho que estar exatamente dentro da música. Aquilo tem que correr aqui pelos braços, corpo, toda eu. Sou uma extensão daquilo. E para mim um concerto corre-me bem quando eu estou dentro dessa bolha que tu falas. Porque eu crio ali uma bolha à volta.
Obviamente não dá para sentir da mesma forma, mas é possível compreender e ser impactado por aquilo. É incrível. Agora, se você fosse definir a sua música, o seu jazz, escolheria qual palavra?
“Verdade”! Porque é aquilo que eu sinto, é a minha forma mais natural de expressão, a mais primitiva até. Então não há verdade mais absoluta que esta.