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Fotografia: Queila Fernandes
Publicado a: 30/04/2026

Ti Manxe é o segundo disco do projecto.

Fidju Kitxora: “Percebi que tínhamos de ser mais honestos para não estarmos reféns da cultura do entretenimento”

Fotografia: Queila Fernandes
Publicado a: 30/04/2026

Depois de Racodja (2024), o álbum de estreia que ardeu em lume brando até explodir nos palcos de Norte a Sul do país — e não só — Fidju Kitxora regressa com o segundo disco. Ti Manxe, expressão em crioulo cabo-verdiano que significa “até amanhecer”, é o título do álbum de sete faixas que foi editado esta quarta-feira, 29 de Abril.

É um disco que mantém uma pujante fisicalidade e energia, que bebe abundantemente de gravações de campo feitas em diferentes ilhas de Cabo Verde, e que expande o projecto noutras direcções sonoras. Juninho Ibituruna, Henrique Silva e Danilo Lopes, colaboradores na formação ao vivo, entram em diferentes faixas, havendo ainda participações de Tó Trips e António Tavares.

Ti Manxe é marcado por uma série de tensões e ressacas, emocionais ou de substâncias, que são evocadas pelas gravações de campo mas que pulsam na própria música. A hospitalidade cabo-verdiana famosamente conhecida como morabeza mistura-se com a hostilidade, escutam-se estados de exaustão e excessos, corpos que à boleia do grogue ou de drogas atravessam a madrugada e sobrevivem até ao nascer do sol. 

Mais do que nunca, Fidju Kitxora faz das contradições, das dissonâncias e das ambiguidades a sua matéria-prima, sobretudo quando o olhar se torna mais nativo e permite desconstruir as dinâmicas deste arquipélago idílico preservado na memória coletiva da diáspora como o campo da Sodade. Em entrevista ao Rimas e Batidas, Fidju Kitxora escrutina o novo disco e desvenda o futuro do projecto.



Qual foi o ponto de partida para este novo disco? Trabalhaste com várias gravações de campo, elas já foram recolhidas a pensar neste disco? Ou também há aqui coisas de viagens anteriores?

Eu tenho uma base de dados desde a primeira vez que estive em Cabo Verde — estamos a falar desde 2021 — e é uma base de dados que eu vou aumentando, porque sempre que vou a Cabo Verde gravo. Depois tenho uma certa demora a fazer a sistematização, ou seja, a documentar cada áudio que gravo. Tenho um caderno em que tenho tudo escrito: as descrições, o número, o acontecimento, a qualidade, se tem algum valor artístico ou não, se é uma gravação de paisagem sonora, se é musical, se é radiofónica, enfim. Faço isto há muitos anos, mas tenho feito muito em Cabo Verde e estou sempre num processo muito atrasado. Ou seja, ainda estou a escutar coisas de há um ano. Então, algumas destas gravações ainda são da primeira vez que estive em Cabo Verde e outras são mais de agora. A dada altura comecei a cruzar tanto o espaço — porque estamos a falar de diferentes contextos geográficos, de retratos de pelo menos três ilhas — como o tempo. Fui misturando muito e depois tive a oportunidade, porque fiquei dois meses em São Nicolau, de avançar com a parte de edição lá. Já tinha mais ou menos o core das músicas definido, incluindo algumas que depois retirei, mas a parte de edição e de arranjos fiz em São Nicolau, então já houve ali uma sobreposição. Porque já não foi aquela coisa clássica que eu fazia, de recolher e depois ir para o meu estúdio em Portugal mergulhar num espaço já mais memorial, não é?

Sim, agora fizeste-o enquanto estavas lá, em Cabo Verde, envolto no próprio ambiente que estavas a captar.

Exactamente. Então era interessante, porque eu, sei lá, estava a fazer a edição de uma música, a construí-la, a melhorar os arranjos, e depois exportava, metia no telemóvel e se calhar tirava o fim-de-semana para ir fazer umas caminhadas e acampar e depois metia as músicas para sentir se havia ali uma sensação imagética, que eu acho que, à partida, as gravações de campo e o sampling já propõem… Mas se aquilo conseguia potenciar um bocado o lugar onde estava, não é? Era interessante sentir isso, foi uma experiência muito sinestésica… Porque era a música, os cheiros, o vento, o sol, a paisagem… Foi um trabalho que gostei muito de ter feito dessa maneira e que se calhar me levou a ter um comportamento mais de mergulho, porque realmente tornou-se um contexto muito intenso, que era estar a produzir e a vivenciar ao mesmo tempo aquilo que eu queria retratar, ou seja, estar a produzir aquilo que eu estava a viver. A retratar de uma forma mais expressiva. Gostei muito desse processo, no fundo senti que foi uma residência [artística].

Mas fizeste esse processo de propósito já a pensar neste segundo disco?

Eu sentia que queria propor mais gravações de campo. Por um lado era uma resposta mais imediata àquilo que já é o propósito de eu querer usar vozes no meu trabalho. Acho que elas tornam a coisa muito mais honesta, muito menos mastigada por aquilo que é uma cultura musical que tem todas as referências de Cabo Verde ou da diáspora, ou seja, todo um cruzamento ou uma composição ou um lugar estético muito definido. A gravação de campo é algo muito cru, são conversas ou barulhos, são coisas que dão uma certa… são mais transparentes. E, depois, o ponto de partida passou por aquilo que era o momento que eu vivenciei, quando fiz as gravações, e os contextos começaram a fazer sentido posteriormente. Primeiro, o que me fazia mais sentido era o aspecto tímbrico, rítmico, alguma coisa da fonética, do som da palavra, não necessariamente o conteúdo. E só depois é que comecei a perceber que os conteúdos que estava a articular, se calhar havia ali um sentido, porque eram retratos um bocadinho densos. Uns sobre álcool, outros sobre drogas, outros sobre discussões conjugais, e comecei a perceber que havia ali um aspecto em que eu estava a querer mergulhar que não é tão visível. Porque os retratos que fazemos de Cabo Verde, em termos musicais, são mais nostálgicos, mais refinados. Não se vai falar de certas coisas, porque o retrato que existe de Cabo Verde, para quem está na diáspora, é um retrato mais clean, não é? É um retrato de saudade, mais romantizado. E esta proposta foi entrar em contacto mais com, se calhar, o comportamento da malta do rap, em que existe um discurso muito mais imediato sobre a realidade, mesmo que também seja refinado e adequado a uma estética. Mas quis propor algo que fosse muito mais transparente.

Que retratasse essa crueza por dentro, não é? De estares lá, a observar, a absorver e a traduzir isso para música.

Sim, porque passados estes anos fui perdendo uma certa inocência, deste lugar muito idílico que logicamente eu ainda tenho, porque não moro lá, mas já começo a saber sobre certas questões, já começo a perceber que existem dinâmicas sociais graves em Cabo Verde. Se calhar o meu lado etnográfico começa também, com a sua curiosidade, a perceber o que está por detrás de um certo tipo de coisas. Porque a cada 15 ou 20 dias lá, ou um mês, entras noutro layer e começas a perceber: Ok, está a passar-se aqui alguma coisa. Isto não é morabeza, há tretas aqui a acontecer. Tornas-te conectado porque entras numa rede de amizades, crias parcialidades. Começas-te a posicionar, a discutir sobre, a sentir que pertences ali, então tens uma opinião a dar. Eu digo isto na brincadeira, mas o que vejo muito na malta turista, e que eu me considero também, de certa maneira, é a coisa do síndrome do nativo… Passadas três ou quatro semanas, crias amizades, algumas rotinas e já te sentes nativo, começas a mandar postas de pescada [risos]. Então é um bocado o resultado disso, começo também a ter um comportamento crítico sobre as coisas.

Até porque tens muito mais contexto, claro. E o título do Ti Manxe, esta ideia de “até amanhecer”… Tu abordas aqui coisas mais densas e pesadas, como disseste, que muitas vezes estão associadas à ideia de noite. Mas porquê este título?

Porque a dada altura comecei a sentir uma energia do disco que podia estar a propor isso. Ou seja, algo que tivesse uma energia mais a escalar. Num momento mais eufórico, depois um outro momento mais depressivo… Pelo menos em termos de energia física do disco. E depois aquilo que se retrata ali envolve sempre muito a folia, a boémia, a festa, não é? A primeira música, que é o nome do álbum, aquilo é uma festa na aldeia do meu avô, em que a maioria dos que estão ali a cantar são os meus primos. Estão a tocar até de manhã, e a beber grogue, e a tocar e a beber, e a beber e a tocar… É um ambiente super bonito, leve e de brincadeira. Mas depois, sei lá, na penúltima música, há dois miúdos a dizer que já não dão na coca. E um deles brinca a dizer que ele não dá na coca, a coca é que dá nele. E a última música foi uma situação num casamento. Eu estava a dormir em Tra Xapeu, que é um bairro assim um bocado pesado em Santiago mas tenho lá um grande amigo e fico sempre em casa dele, e de repente tens uma multidão que estava num casamento, que sai desse recinto e começa a apedrejar tudo e todos, num bairro que ainda por cima não tem iluminação, e todos revoltados, de madrugada, e foram homens, mulheres, crianças… Uma pessoa espreitou à janela, as pessoas disseram “foi ele” e começaram a apedrejar. Eu liguei o gravador e gravei aquela situação bué agressiva, e aquilo já é um término… O que sinto dessa música, com o Tó [Trips] e o Henrique [Silva], é que começa com essa situação bué tensa, e depois a guitarra do Tó desfaz tudo para um amanhecer. De repente o sol nasce e voltamos novamente a um lugar pacífico, de reestruturação social, de escalar novamente a energia para um amanhecer. Então senti que esse título era isso, retratava um dia. O disco retrata um dia num ambiente de folia, num ambiente de excessos, num ambiente de conflito, de tensões, de alegrias, de pressões, de violência, e eu acho que as gravações de campo dão contexto.

Já que mencionaste as histórias e as gravações por trás desses temas, queres falar dos restantes? 

A “Egoismo” é uma gravação numa aldeia em São Nicolau, com um senhor a embirrar com uma porta… Sei lá, o gajo estava a embirrar e depois começou a dizer que Cabo Verde estava uma merda [risos], estava assim todo revoltado. E eu gostei porque, ao mesmo tempo, de repente chegou um gajo que se estava a rir e que estava nos antípodas dele. Ele chegou, disse o nome dele e riu-se, não estava a perceber o que se estava ali a passar. E se calhar essa pessoa é ranzinza, por natureza. Enfim, eu gostei daquilo. Depois, a “Pobreza” tem aquele sample do Bitori que é altamente reconhecível para qualquer amante da cultura cabo-verdiana. São aquelas três notas e a pessoa já sabe o que se passa, não é? E depois convidei o António Tavares, que por acaso participou no concerto que demos agora no Porto, e fiz-lhe essa proposta: “Olha, já que a música original do Bitori fala sobre pobreza, diz algo sobre pobreza”. Então ele construiu ali um poema através dessa provocação que fiz, e ficou muito fixe porque ele tem essa atitude muito explosiva. Acho que ele entrou muito bem na música. A “Maguadu” tem um casal, estava eu e dois amigos em Ribera Bote, um bairro no Mindelo, estamos ali a conviver e de repente há uma situação, um comportamento afirmativo do marido que pergunta à mulher: “Onde é que tu vais?” E ela diz que vai não sei onde. “Então dá-me as chaves.” Ela tinha respondido de uma forma um bocado grosseira, mas ele provavelmente nem levou a mal, só que há uma terceira pessoa a ouvir aquilo que questiona assim de forma um bocado machista: “Eh pá, mas tu falas assim com o teu marido?” E depois é que ele se posicionou e disse “Não, quem manda aqui sou eu”. E ela respondeu: “Ah, mandas o quê? O que é que tu mandas?” E ele respondeu a brincar: “Sou eu que mando, sou eu que mando”. Enfim, foi uma situação cómica, que ao mesmo tempo retrata um bocado o nível de machismo que existe, mas também o desapego que existe em relação a esses papéis… Ou seja, existe o machismo, mas também o desapego e a brincadeira, a desconstrução desses papéis que estão vincados. Talvez porque há um nível de promiscuidade que permite que depois haja essa desconstrução.

Que normaliza certas desconstruções e o distanciamento em relação a esses papéis tradicionais, não é? 

Acho que sim. Depois, a “Tud pa Bô” também tem um comportamento assim muito afirmativo de uma pessoa ao telefone, a falar com a mulher, a dizer-lhe que ele é dono de si mesmo, que tem consciência daquilo que faz quando os amigos o convidam, que ninguém lhe põe bebida na boca, ele é que põe e ele é que sabe, e se bebe é porque quer, há uma expressão que ele diz que é algo como “para relaxar a memória”. É para relaxar, para estar bem com ele próprio, só quer tomar um drink, e que não faz mal nenhum, porque ele também precisa. E ele está com este discurso para convencer a mulher de que ele tem noção da coisa e tal, e que não precisa que ela faça juízos de valor à frente dos outros. Ou seja, é um gajo que sentiu o ego um bocado ferido quando, se calhar, a mulher mandou uma boca quando ele estava com os amigos. Do resto já te falei, há aquela da “Ka Ta Uza”, com esses dois miúdos em que um diz que não usa cocaína e o outro diz “Pois não, a cocaína é que te usa a ti”. E eu gostei muito do comportamento rítmico da palavra “cocaína”, foi o motor para eu começar essa música. E isso foi a grande cena para mim. Percebi que a palavra tornou-se o meu motor para originar músicas. Pego numa conversa qualquer e há ali uma palavra ou alguma coisa que eu sinto que tem tudo o que eu quero: tem o ritmo, o timbre, o andamento, e depois faço um loop e aquilo é o coração da música. Se calhar até vou desfazê-lo e nem vou usar, mas o ponto de iniciação foi essa musicalidade da palavra ou da conversa que ouvi. Se calhar nem é nada de mais, neste caso era “cocaína”, mas se calhar a forma como eles disseram, achei-a muito musical… Então comecei a fazer isso e está a levar-me para um lugar que é querer trabalhar realmente, como digo já há alguns anos, com malta do rap. Porque sinto que há um lugar de inspiração que vem desse comportamento rítmico e musical da palavra e de quem trabalha a palavra, como é o caso dos oradores. Podem ser rappers, podem ser poetas ou simplesmente pessoas, como é o caso dessa música. 

E falavas há pouco do António Tavares, como é que os restantes convidados entram no disco?

Neste disco eu precisava de fazer uma espécie de reconhecimento das pessoas que alimentaram, especialmente em termos performáticos, este projecto. No caso, o Juninho [Ibituruna] e o Henrique, que foram pessoas que se dispuseram, que também contribuíram para aquilo que foi uma construção em termos de palco. Apesar de o estúdio ser o meu ambiente, ao vivo foi sempre muito necessário a presença de músicos que também tivessem, além daquilo que fossem as minhas direcções ou sugestões, uma posição, até porque ao vivo há sempre a possibilidade do espontâneo, não é? Então, o Juninho, o Henrique e o Danilo foram pessoas que me inspiraram muito no que se passou ao vivo. Passaram-se coisas que depois levei para casa e pensei sobre elas e propus. No caso, por exemplo, da “Morabeza”, o Henrique estava a fazer aquela guitarra num soundcheck e eu gravei-a no meu computador. E aquilo depois originou essa música. É só um loop curto, mas eu achei que estava incrível. O Tó [Trips] é uma pessoa que eu já conheço há alguns anos. Sou muito amigo da Raquel [Castro], a companheira dele, e estava sempre com aquela ideia: tenho de fazer algo com o Tó porque sinto que ele tem uma poética, um lado melancólico, profundo, soturno, sei lá, tem coisas com que me identifico. Não necessariamente com o Fidju, mas se calhar com outros projectos e alter-egos que tenho, mas também quero incluir isso em Fidju. Quando comecei a desenhar aquela música, estava em Cabo Verde, mas só uma semana, porque depois ia para Groningen com a malta para o Eurosonic, e depois voltava novamente a Cabo Verde. Então, pensei aproveitar uns dias em Portugal para estar com o Tó, para fazermos umas jams, sei lá, para curtir. E ficámos horas, horas, horas, horas a tocar, a curtir e a tocar. E pensei: quero que ele esteja dentro deste disco, porque sinto que vamos ter aqui uma vivência no futuro… Eu tenho sempre essa mania nos meus projectos, de que a última música é o gancho para o próximo disco. Então senti que era importante ter o Tó, porque sinto que há um espaço mais etéreo e experimental e que seria interessante expandir o projecto para esse lugar. Que não seja somente o lugar da energia e da fisicalidade, que eu adoro, mas que também haja um lugar mais da contemplação, da introspecção, do peso, da densidade, que eu acho que é um lugar em que estamos agora todos. Pá, eu sinto que está toda a gente num pré-burnout, e sinto que há que ter uma certa honestidade e não ficarmos só neste… Eu acho que em Fidju a malta não começou a conhecer o projecto pelo disco, foi o desenho que fizemos ao vivo. E é um lugar bonito, porque é de celebração, mas ao mesmo tempo existem aspectos em que se calhar temos de ser mais honestos para não estarmos meramente reféns da cultura do entretenimento. “Eh pá, olha a malta do funaná, bora aí dançar”. Não, eu acho que há outras coisas que têm que ser exploradas. E este lugar que ficou retratado na música do Tó e do Henrique, especialmente porque é uma antítese, porque nomeei-a “Morabeza”, mas aquilo é a antítese, é uma situação de tensão e de violência, não é? Mas é um lugar honesto, é um lugar que também está a acontecer e não é que a gente tenha que o viver, mas acho que é bom termos consciência que também existem esses lugares. E que estão próximos, que não estão só a acontecer no Irão ou nos Estados Unidos ou na Cova da Moura… Estão bastante próximos e se tivermos honestidade para fazer retratos ou conversar sobre, se calhar estamos mais perto de ter um comportamento para melhorar as coisas, nem que seja numa microescala, onde realmente conseguimos. E, no meu caso, é dentro daquilo que eu sei fazer, que é música. Então percebi que tinha de ser honesto e fazer esses retratos. E, no caso do Tó, foi também trazer a poética dele, que é um bocado melancólica e também é atlântica, então conecta-se com Cabo Verde. Há ali uma coisa um bocado triste, ou que não é bem triste, mas que nos põe a contemplar.

E é essa honestidade de que falas que casa na perfeição com a crueza que tu descrevias no início sobre o disco e estas gravações de campo que inspiraram as músicas, não é? Está tudo ligado.

Sim, este é novamente um trabalho em que tive a necessidade de não o tornar uma só unidade. Pelo menos em termos estéticos. Há diferentes possibilidades. No outro, há ali um vértice que eu ainda não promovi, mas que é uma coisa que quero, que é uma música mais J. Dilla vibes. É uma cena em que realmente quero investir, uma cena mais conectada com o hip hop. Mas ao mesmo tempo, no disco anterior havia o vértice de uma cena mais experimental, então este também teve. E acho que a ideia é sempre demonstrar que há expansão. Há sempre possibilidade de expansão e não necessariamente de ficar refém de uma fórmula. Senti que não tinha de repetir o disco passado, que tinha que ir para o lugar onde estou. Acho que é mais isso. Não era também forçar, vou fazer uma coisa nova só porque quero demonstrar. Não, o lugar onde estou é este.

Que também é um duplo lugar, não é? Ou seja, o lugar emocional e mental onde te encontras, mas também os lugares onde literalmente estavas, onde fizeste estas gravações, que te levaram a construir estes temas.

E agora estou a investir mais nisso. Ou seja, quero passar mais tempo em Cabo Verde, que é um lugar que me traz muito de volta, especialmente São Nicolau. É um lugar muito pacato, não tem lá nada, não é um lugar como Santiago ou São Vicente, que têm uma movimentação cultural, uma circulação. Estamos a falar de um lugar inóspito, cada vez mais humanamente desértico. Só tem montanhas e aldeias, mas eu tenho muita família lá. É um lugar que está parado, é muito difícil de lá chegar em termos de transportes. Então aquilo está parado nos anos 80. Tu sentes, estás na rua e parece que estás em 1985. 

Ao mesmo tempo, para quem vem da Europa… Isso pode ser refrescante. Mas obviamente que é egoísta pensar assim.

Sim, eu concordo. Por exemplo, o que se passou este ano? Eu cheguei à ilha do Sal para apanhar o barco e não havia. Consegui apanhar uma avioneta, das últimas, porque depois também já não havia, porque havia bruma seca. Não havia barcos porque um estava estragado e o mar estava super violento. Então, não houve barcos, nem nada, quase durante um mês. Houve pessoas emigrantes que não foram passar as suas férias. E houve muitos turistas que não foram para São Nicolau, que já é um lugar a que as pessoas não vão. E para mim é a ilha mais bonita de Cabo Verde. Eu só não conheço duas, Maio e Boa Vista. Mas para mim é a ilha mais incrível porque tem um bocadinho de todas as outras. Só que é muito difícil lá chegar. Para ires a São Nicolau, tens que ter pelo menos uns 15 dias de férias. Porque caso haja uma situação como esta do barco, já te lixaste. Porque não tens possibilidade de sair da ilha, ou porque não há aviões ou porque não há barcos. E foi o que aconteceu desta vez. No meu caso, eu estava tranquilo porque tinha tempo e porque já tinha conseguido um lugar na avioneta para São Vicente. Mas há um lado egoísta porque estás num lugar em que não vês turistas nenhuns. De repente vejo lá uns franceses a fazerem trekking no meio do nada e já há ali um comportamento… Lá está, o síndrome do nativo, que diz: “Vêm para cá, não sei o quê”. Logicamente, eu faço logo uma reflexão e percebo: olha o que é que eu estou a ser? Há uma expressão que aprendi no Mali que é “por mais que um tronco fique a boiar na água, jamais se transformará num jacaré”. E eu não sou dali, tenho que ter sempre essa consciência. E isso é importante nem que seja para saber como me propor perante um lugar que eu também sinto que é familiar. Um sítio no qual mergulho totalmente. 

E quanto mais tempo lá passas, mais natural se torna também sentires que pertences àqueles lugares.

Sim, claro. Eu também vou para a aldeia. Há muitas aldeias abandonadas desde os anos 80. Vou para lá, pego num saco-cama e fico lá quase uma semana sem ver pessoas. Porque não passa lá ninguém. Estou lá a beber água de uma cisterna qualquer. A comer. E a achar que sou o Tarzan [risos]. Não, não acho nada, mas fico lá numa cena bué de mendigagem. Mas são situações que me põem numa conexão muito forte com o lugar onde estou. Porque estou totalmente sozinho — por exemplo, numa aldeia em que não há ninguém a não ser ruínas. E começo a entrar no plano da imaginação. A pensar em quem é que já aqui viveu. Durante, sei lá, três ou quatro séculos, viveram aqui pessoas. E agora, desde há 40 anos, não vive ninguém. Mas há aqui pegadas. E burros selvagens a passarem. Que são os únicos seres que ali encontro.

Mas fazes isto também por causa de Fidju Kitxora? Ou é algo completamente independente?

Sempre foi algo meu. Já há uns 15 anos que vou para certos lugares. Especialmente para lugares de deserto. Passei muito tempo em Timbuktu [no Mali] e no Sahara Ocidental. Ou seja, em contextos de deserto. Que não são turísticos. São lugares decadentes. Mas havia forma de chegar. Hoje em dia é impossível chegar a Timbuktu, porque há uma guerra civil e a Al-Qaeda. Enfim, eu ia para lá em 2010. Mas passo muitos momentos de introspecção e de reclusão. E, depois, inevitavelmente, vou-me conectar com comunidades que vivem nesses contextos, como a comunidade tuaregue. Ou certas populações em Cabo Verde. São comunidades isoladas que sobrevivem porque, de tempos a tempos, alguém com um burro vai buscar coisas à vila mais próxima. Ou porque têm uma agricultura subsistente. E São Nicolau é muito propício a isso. Ao deserto humano. A aldeias abandonadas. A muito pouca densidade populacional. Isso faz com que passes muito tempo sozinho. Para chegar à aldeia do meu avô, tenho de andar duas horas a pé, e ainda vivem lá 15 pessoas.

Como dizias há pouco, Fidju Kitxora ganhou muito com um ano recheado de performances e experiência de palco. Também sentes que, mesmo que subconscientemente, essa dimensão influenciou a forma como construiste o segundo disco? Mesmo que não tivesses a intenção de o tornar mais físico ou enérgico.

Eu acho que sim. Este novo álbum já é uma ressaca de um ano muito intenso. Foi inusitado. Em Janeiro do ano passado estávamos a tocar no Square Festival, sem datas nenhumas, e de repente tivemos um ano muito intenso. Mas também há a maturidade de toda a gente. Ou seja, o projecto faz agora dois anos. Mas eu tenho 43, não é? Já temos uma certa maturidade para lidar com uma coisa que foi um bocado inesperada. Mas acho que este disco reflecte um bocado essa ressaca. Tanto a ressaca da estrada, no sentido de querer fazer um retrato daquilo que foi, como uma certa densidade que coincidiu com algumas gravações de campo que também retratavam ressacas. Ressacas emocionais. Ou ressacas, sei lá, de substâncias. Então acho que houve uma conexão. Porque realmente foi um ano muito intenso. O [bailarino] Lukano, por exemplo, este ano, não está a participar connosco. Por diferentes razões, mas uma delas foi esta intensidade, que foi muito grande. O Henrique vai ser pai outra vez. Ele tem que desacelerar, não é? Então o Danilo está a entrar mais. Na realidade sempre foi a minha primeira opção, era o Danilo que eu imaginava. Mas depois o Henrique é um gajo talentoso, um multi-instrumentista que faz todo o sentido estar presente. E neste momento estamos a tocar com os dois. Que se lixe. Mas vai haver um momento em que o Henrique também tem que parar. Acho que isso reflecte-se um bocado na energia do próprio disco. Que vai entre a euforia e a depressão. Depressão no sentido de ser algo que desce, a energia a baixar e a acalmar…

E isso também coincide com o caminho que imaginas para o futuro de Fidju Kitxora, de algo mais etéreo e contemplativo. Mas imagino que a estrada se vá manter intensa.

Este ano, já temos uns quantos concertos importantes marcados em Portugal. O NOS Alive, o MED, o Bons Sons e outros…

Estão, praticamente, a fazer os poucos festivais que faltavam.

É um bocado isso. Claro que também estamos numa situação um bocado finita. Mas também estamos no primeiro ano de internacionalização. Então, na realidade, vamos tocar mais fora do que aqui. Vamos à Hungria, vamos à ilha da Reunião, ao Canadá, Itália, França, Bélgica, Espanha… Já estivemos em Cabo Verde e na Holanda.

E sentes que este projecto tem de facto esta dimensão bastante global, tendo em conta as portas que se têm vindo a abrir? Faz sentido pela música que é e com esta visão pós-diaspórica? Também por ser uma coisa que transcende fronteiras? Que dissipa essas linhas? 

Acho que sim. A receptividade lá fora demonstra isso, não é? Por um lado, há uma sensação de estranho e exótico, que é sempre atractivo. Nós sabemos que as pessoas se conectam nos concertos, que não é uma coisa distante. Independentemente de onde são, dá para sentir que as pessoas se sentem conectadas. Porque há alguma coisa ali que também lhes pertence. E a cultura cabo-verdiana é isso. Também ela bebe desses lugares. A gente foi tocar a Groningen, não é? É um contexto com uma comunidade cabo-verdiana imensa, onde muita produção musical foi feita. Há referências locais. Logicamente, aquilo que fazemos já é uma mastigação, uma recrioulização daquilo que já foi feito…

E a estreia recente em Cabo Verde, como foi? Acaba por ser um full circle, imagino, e a música tanto soa familiar como pode ser igualmente estranha.

Lembro-me quando o Scúru Fitchádu foi lá tocar e ele realmente estava com medo. Foi em 2022. Mas correu bué bem, a malta curtiu bué, houve uma reacção bonita. Entre um comportamento físico do punk e do funaná… Eram corpos desgovernados. Eu achei muito interessante. Eu estava lá a produzir um documentário com uma realizadora e ficámos a filmar, até tenho que lhe entregar essas gravações porque me esqueço sempre. Estávamos a filmar as pessoas porque elas estavam a dançar de forma muito peculiar. Estavam a dançar uma cena nova… E no nosso caso também foi muito interessante e fixe. Fechámos o AME [Atlantic Music Expo], fomos a última banda, estava muita gente e desenhámos um repertório em que houve esse cuidado de as pessoas sentirem que aquilo também fazia parte delas. As músicas escolhidas, o sampling, com toda a estranheza que é aquele trabalho, depois a forma como se trabalha as músicas… E as pessoas gostaram imenso e eu fiquei muito feliz por isso. Houve ali uma sensação de frescura. E recebemos mensagens a dizer que “foi incrível, foi bonito”. Parece que aquele lugar, Cabo Verde, precisa desta produção que vem da diáspora, desta malta que vem de fora, que também tem mais liberdade de expressão e é preciso dizê-lo, e é necessário que a malta vá mais vezes e demonstre que o que está a ser feito também é de lá, porque aquilo é a referência. De memória, de nostalgia, de ética, de cultura, o que seja. É uma coisa bonita. E também é importante que nós que sentimos afecto pela cultura cabo-verdiana, como é o meu caso, e especialmente para nós que estamos envolvidos com a arte, com a política ou os movimentos cívicos, é importante criarmos pontes cada vez mais visíveis. E que aproveitemos os aviões que hoje são mais baratos para criarmos rotinas e nutrirmos um lugar que precisa de nutrição intelectual, cultural, artística. Porque estamos a falar de ilhas que estão sempre à espera, não é? A ilha é um lugar que está sempre à espera de receber algo do horizonte. Quando é que chega aquele barco?


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