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Fotografia: Leonardo Silva
Ilustração: Uma mão-cheia de edições.
Publicado a: 11/05/2026

Festival Profound Whatever: “Um som genuíno: livre e intencional…”

Fotografia: Leonardo Silva
Ilustração: Uma mão-cheia de edições.
Publicado a: 11/05/2026

O cartaz apresenta-os de forma honesta: “Festival de música sem regras”. Quando desafiamos João Clemente, porta-voz desse inquieto e ultra criativo colectivo que dá pelo nome de Profound Whatever, a resumir o festival que anualmente organizam numa frase simples ele sugere outra forma de entender essa vontade de fuga às normas e garante-nos que durante três dias, n’A Moagem, no Fundão, se vai escutar “um som genuíno: livre e intencional…”. As reticências são dele e sugerem que há muito mais a acontecer por ali nos próximos dias 14, 15 e 16 de Maio. E, olhando para o cartaz, não há como não acreditar nessa entusiasmante montanha de possibilidades.

A ideia de liberdade na música será, talvez, mais discutida do que praticada e mais difícil de colocar em palco do que à partida se poderá pensar. Deveremos, por isso mesmo, entender este festival — que é também um encontro de grandes mentes que pensam coisas similares sobre a forma como o som se pode (e deve…) (des)organizar — como parte de um ecossistema, demasiado subterrâneo talvez, que manifesta na experimentação e na livre improvisação uma clara vontade de abraçar o desconhecido, algo que resulta muitas vezes em música verdadeiramente entusiasmante e inclassificável. Não é, pois claro, um exclusivo da Profound Whatever e de norte a sul é possível identificar outras células criativas empenhadas na mesma busca, da Porta-Jazz e da Sonoscopia à Robalo ou Phonogram Unit, para citar apenas dois pares de exemplos (e há outros, certamente). Mas no interior profundo, nestas terras que vivem encostadas à Serra da Estrela, será justo atribuir-lhes uma singularidade que só lhes reforça a importância.

Eis o cartaz completo do que esta 5ª edição do Festival Profound Whatever oferece:



Como é que se explica o Profound Whatever a alguém que nunca ouviu falar do festival? É mais um conjunto de concertos… ou mais um estado de espírito?

O Festival Profound Whatever acontece na cidade do Fundão, n’A Moagem, e em 2026 terá já a sua 5ª edição. Os músicos são também público e a relação entre os elementos que têm participado nas diferentes edições é muito estreita (músicos, público, equipa técnica, equipa de produção) criando uma atmosfera muito familiar e desempoeirada. Ao longo de 3 dias pode ser escutado um leque muito abrangente de música aventureira e criativa.

O cartaz junta nomes bastante diferentes que vêm da improvisação, da composição, da eletrónica e ensaia cruzamentos vários. Como é que se constrói um alinhamento destes sem cair no caos total? Há um fio condutor que não seja imediatamente aparente?

A programação do festival assenta em 3 pilares: elementos do colectivo [quem está a criar tem de ter palco]; conexões entre elementos do colectivo e músicos externos [criação de grupos formados propositadamente para o Festival]; músicos e grupos que admiramos e gostaríamos de ouvir ao vivo. O Festival tem uma linha de programação que valoriza a música com um carácter irrepetível e momentâneo, mas não está fechado sobre isso. Um fio condutor que define a curadoria do festival é o seguinte: os concertos são sequenciados e organizados na perspectiva de alguém que vai assistir a todos os espetáculos, tentando criar um percurso surpreendente num alinhamento nada óbvio mas estimulante.

Este ano começam com um concerto inspirado numa pintura de Bruegel. De onde vem essa vontade de pôr a música em diálogo com outras artes? Propor essa relação com uma obra plástica tão específica altera a forma como o público escuta?

Para nós faz todo o sentido que a música que fazemos dialogue com outras artes, tudo o que fazemos tem como base a ligação e conexão com algo. Em edições passadas já fizemos essa ligação com cinema, com poesia e este ano decidimos avançar para este território. A grande motivação foi o facto de nunca o termos feito. Fizemos a proposta ao Gonçalo Baptista e ele rapidamente aceitou o desafio de pensar e criar uma obra para o concerto de abertura do festival, onde seria musicada ao vivo a projeção da pintura “Doze Provérbios” de Bruegel. Para o público vai ser, com toda a certeza, um momento particularmente estimulante pela ligação menos óbvia de som e imagem que representa esta escolha. Gostamos de incentivar o aspecto criativo de cada elemento do público na forma como reage e assimila as diferentes propostas apresentadas.

O festival acontece no Fundão, longe dos centros habituais. A que público se dirige? Público local, apenas? Ou também a quem não se preocupa com as distâncias, mas antes com a experiência?

Este festival dirige-se a um vasto leque de pessoas, maioritariamente interessadas por expressões mais aventureiras e criativas. Obviamente o público da região tem aqui um oásis, no que diz respeito a estas linguagens, mas ao longo dos anos temos recebido cada vez mais pessoas que percebem as características únicas do festival e que o consideram merecedor de uma deslocação de algumas horas. Este território merece um olhar e um ouvido atentos. Há muitos e bons estímulos aqui à beira da serra…

Sentem que o contexto — a paisagem, o ritmo do lugar — influencia o tipo de música que acontece ali?

Se assim não fosse, não valeria a pena realizar o festival. O facto de estarmos rodeados por montanhas e termos espaço tem um impacto directo na pulsão da música que aqui se faz. A rudeza, a beleza, a imponência dos elementos naturais e humanos — e por vezes o seu contrário — são identidades que existem e coexistem e, naturalmente, sobem, também a palco.

O Profound Whatever é também um coletivo artístico. O festival é uma extensão natural desse trabalho ou já ganhou vida própria?

O festival será sempre uma extensão do trabalho do colectivo. Se o festival foi criado há 5 anos, o colectivo tem a sua génese em 2005. Parte do que levou à criação do festival foi querermos ter uma plataforma que permitisse fazer mais conexões com outros músicos que admiramos e dar palco a muita música que criamos.

E como é que funciona essa dinâmica interna — há muito consenso ou também há fricção criativa?

As duas coisas coexistem perfeitamente. Zangamo-nos e fazemos as pazes como apenas a intimidade permite.

A música experimental pode intimidar quem a ela chega pela primeira vez. Vocês pensam nisso ou preferem não “traduzir” demasiado a experiência?

Percebemos muito bem as inquietações sobre “música experimental”, “música improvisada”, etc… também nós as temos, por vezes. Tentamos ao máximo comunicar este tipo de linguagens da forma o mais directa possível. Desconstruir organicamente numa atitude desinibida, espontânea e natural. Em última instância é apenas música.

Cinco edições depois, o que é que já não é igual? O festival está mais definido ou continua em mutação?

Para nomes seguros e fórmulas testadas já existem muitos e bons festivais. As apostas que fazemos são baseadas no que nos está acessível, no que admiramos e no que queremos ouvir. O risco, nesse sentido, é pequeno, pois quem vem tocar e assistir ao Festival sabe muito bem o que estamos a fazer e porque motivo vem. Todos os anos testamos novos formatos no festival, seja a exploração de espaços alternativos para as apresentações, seja a curadoria de concertos de carácter multidisciplinar, seja a conjugação de músicos que não se conhecem, etc. algumas destas experiências nunca mais se repetem, outras passam a fazer parte da fórmula do festival.


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