Corria o ano de 1987 e um navio de bandeira japonesa, que dava pelo nome de Solana Star, aproximava-se da costa brasileira. Identificado pelas autoridades, os tripulantes optaram por evitar ser apanhados com a carga que transportavam a bordo: milhares de latas repletas de canábis de alta qualidade, que começou a desaguar nas praias do Rio de Janeiro.
O episódio faz lembrar a trágica (e igualmente caricata) história do barco repleto de cocaína na ilha açoriana de São Miguel, mas na cidade carioca os acontecimentos foram infinitamente menos avassaladores. Pelo contrário, o interior de cada lata acabou por se tornar uma boa memória: como eram plantas de qualidade, a expressão “da lata” tornou-se gíria local para qualquer coisa que seja de boa categoria.
Foi também a este termo que, em meados dos anos 90, se agarrou a cantora Fernanda Abreu, originalmente da banda pop rock Blitz mas que entretanto tinha iniciado um percurso a solo direccionado para uma pop ligada à música de dança. Da Lata tornou-se o título do seu terceiro disco, um álbum influente e popular que catapultou definitivamente a sua carreira, hoje considerado precursor por aliar uma abordagem electrónica e influenciada pelo hip hop a um registo pop, com muitas nuances musicais brasileiras pelo meio, do samba ao funk.
A “lata” também foi escolhida por reflectir as temáticas das canções, que faziam um retrato de um Rio de Janeiro e de um Brasil com muitas desigualdades e contradições, lugares deslumbrantes, e de muita festa, mas também marcados por pobreza e violência. Era um disco feito com consciência de classe, de celebração do borogodó local mas também de crítica social, com os ouvidos postos no mundo mas com uma vincada identidade brasileira.
30 anos depois, Fernanda Abreu está a celebrar o marco e as comemorações chegam a Portugal esta semana, no âmbito do MIMO Festival, em Guimarães. Já esta quarta-feira, 1 de Julho, será exibido o documentário sobre o álbum, realizado por Paulo Severo, que pode ser visto a partir das 21h30 no Largo Condessa do Juncal. Na sexta-feira, dia 3, Fernanda Abreu apresenta o espectáculo dos 30 anos de Da Lata no palco do Campo de São Mamede – Castelo de Guimarães. Em entrevista ao Rimas e Batidas, a artista de 64 anos, eternamente conhecida como “Garota Sangue Bom”, reflecte sobre os 30 anos deste disco e a forma como os escolheu assinalar.
Quando o aniversário redondo dos 30 anos do Da Lata se começou a aproximar, pensou logo que seria uma boa ideia fazer esta tour especial de celebração e também gravar um documentário?
Eu estava no réveillon, na Passagem de Ano de 2024 para 2025, quando o meu amigo e realizador do documentário, Paulo Severo, me falou: “Fernanda, este ano o álbum Da Lata faz 30 anos. Você não acha que está na hora de a gente fazer alguma comemoração? Porque eu tenho 40 horas de registos que fiz na época”. Na altura, ele gravou dentro do estúdio, no Rio de Janeiro e em Londres. Também gravou os making-of dos videoclipes, a estreia do show no Canecão, a sessão da foto da capa com o Walter Carvalho, que é um grande fotógrafo e cineasta brasileiro… Então disse-lhe: “Ah, eu acho ótimo”. E fui ouvir o disco, porque não tenho o hábito de escutar os meus discos. Deixa ouvir o Da Lata para ver como é que ele está, como é que ele soa hoje em dia, 30 anos depois. E fiquei surpreendida, porque achei que não ficou datado. Nem os assuntos das letras, nem os arranjos, até mesmo o áudio, a mistura, a masterização… Tudo me pareceu muito actual. Então botámos a mão na massa. Como foi a minha primeira incursão no audiovisual, e não tinha a expertise de trabalhar com nenhuma produtora, fui procurar algumas e acabei fechando uma co-produção com a TvZero. Nessa procura, eles diziam-me: “é impossível você fazer um documentário começando e terminando esse ano, que é o que você quer para celebrar os 30 anos”. Mas gente, tem que ser, porque a efeméride é esse ano.
Fazia sentido sair em 2025.
Mas diziam que era impossível conseguir todas as licenças autorais, de fotos e de imagens e das pessoas que vão participar. A gente trabalhou incansavelmente e conseguimos gravar 34 entrevistas, que foram as pessoas que trabalharam comigo há 30 anos: a Deborah Colker, coreógrafa, o Walter Carvalho, fotógrafo, o Luiz Stein, designer, os músicos, arranjadores, os produtores do disco, como o Liminha e o Will Mowat, pessoas da editora daquela época, directores artísticos e tal. O Paulo Severo começou a fazer a montagem, trabalhámos incansavelmente e conseguimos fazer o documentário. Então tive a ideia de fazer um livro também, porque como eu tinha muita coisa em casa, e o [meu] fan club também tinha muito material… Fotos, flyers, postais, artigos, o figurino que eu guardei durante 30 anos… E, para deixar o livro mais actualizado, pedi para algumas pessoas escreverem sobre o Da Lata. Então temos textos de 1995 e textos de 2025. E acabei fazendo uma nova produção de fotos para 2025. E depois liguei para a Universal Music, porque é a parceira do meu pequeno selo, Garota Sangue Bom, e eles disseram para fazermos o vinil, porque na época só lançámos em CD, que estava em voga. Como tenho uma relação profunda e próxima com a cena electrónica aqui no Brasil — das pistas, dos bailes, dos DJs — convidei duas meninas, mulheres DJs de São Paulo [From House to Disco e Anna-My], para fazer um remix da música “Garota Sangue Bom”, que era a única desse álbum que não tinha tido nenhum remix. Então, ficámos com quatro produtos: o filme, o livro, o vinil e o remix. Foi super bem aceite. Em relação ao filme, este ano estou a privilegiar os festivais, só vou licenciar para o streaming no ano que vem. Já estivemos em vários festivais, fomos para Paris, Orlando, agora estamos em São Paulo, depois é Ouro Preto e vamos para o MIMO em Guimarães. É uma alegria muito grande saber que essa primeira incursão no audiovisual deu tão certo, as pessoas estão gostando de entender esse universo todo Da Lata.
E sobre o espectáculo?
Eu nem tinha pensado em montar o show, estava viajando com uma outra tournée. Mas há um festival aqui no Brasil chamado Queremos, onde o público faz as suas demandas, de artistas que eles querem que venham para o Brasil. E uns dos artistas escolhidos foram os Soul II Soul, uma banda inglesa dos anos 90, que fez muito sucesso na época. E, por acaso, foi um dos produtores dos Soul II Soul que produziu o Da Lata e eu misturei o álbum no estúdio deles, em Londres. Então achámos que seria uma excelente oportunidade fazer uma noite dupla, um show da Fernanda Abreu com um show dos Soul II Soul. Tive mais esse desafio, de montar um show do Da Lata com uma nova coreografia, cenografia, iluminação, figurino, banda, repertório… Estreámos em Abril, no Rio e em São Paulo. Depois fizemos Fortaleza, vamos fazer Curitiba e Recife. E saímos agora em tournée, que é o que vou mostrar no dia 3 de Julho em Guimarães.
A Fernanda estava a explicar que não costuma ouvir os seus discos, mas agora, naturalmente, esteve um ano inteiro ou mais focada neste disco. Como é que hoje olha para ele? Dizia que não o considerou datado, que se mantém actual, mas certamente que hoje tem outras perspectivas sobre ele, até em termos do impacto que teve, do significado que teve naquela época do Brasil e do Rio de Janeiro.
Sim, acho que foi um disco que fez diferença para a música dançante brasileira. Eu era dos Blitz, uma banda de pop rock nos anos 80 que fez muito sucesso. Foi a banda que deu o pontapé inicial, no pós-ditadura, para uma juventude que estava fazendo música naquela época. Aí vimos um boom de bandas, como Os Paralamas do Sucesso, Legião Urbana, Kid Abelha, Barão Vermelho, Titãs, Ultraje a Rigor… O Brasil foi tomado, naquela década de 80, por uma juventude que estava ávida de fazer uma música contemporânea, pós-ditadura, e os Blitz deram o pontapé inicial para as gravadoras acreditarem que aquilo podia ser comercial e vendável, que dava lucro e tal. No final dos anos 80, os Blitz terminaram, e em 1990 lancei o meu primeiro disco, que era muito diferente do que estava acontecendo aqui no Brasil. Hoje é considerado um primeiro disco de música pop dançante brasileira, que foi o SLA Radical Dance Disco Club. Veio com uma produção tecnológica, com sequenciadores, naquela época com disquetes, não havia nem aquele momento de gravação de Pro Tools e tal. Era tudo uma gravação analógica, mas já com samples, já com uma linguagem muito diferente do pop rock dos anos 80. Então, foi um disco considerado precursor. Por incrível que pareça, ele hoje voltou à moda nessa cena dos DJs. Eu tenho feito shows… Por exemplo, acabei de voltar dos Estados Unidos, e levaram-me para dois shows de uma galera da cena electrónica americana. No ano passado fui fazer um casamento no interior de França, em Avignon, onde os noivos queriam que eu tocasse só o primeiro disco, esse SLA Radical Dance Disco Club. É um disco que caiu na boca do povo dos DJs, da noite, da pista. Depois lancei o meu segundo disco, em 1992, que tinha o “Rio 40 Graus”, que foi um sucesso no Brasil. Mas eu acho que o Da Lata foi um divisor de águas.
Em que sentido?
Foi um disco onde acertei e afirmei de uma maneira muito mais consistente essa mistura de samba e funk com música electrónica, com hip hop, e que trouxe essa minha assinatura de uma maneira muito mais consistente. Aí, sim, tive o meu primeiro disco de ouro, viajei pelo Brasil inteiro, foi quando lancei a minha carreira no exterior, especialmente na Europa. A partir do Da Lata, lancei todos os meus discos na Europa e fiz muitos shows. Então, para a minha carreira, foi realmente um divisor de águas. Ouvindo esse disco, percebo que ele hoje ainda é actual, porque tem, na génese dos seus arranjos, naquela mistura que fiz de samba com um boom electrónico, com scratch, com cuíca, fui juntando alguns timbres e samples… E especialmente os assuntos, porque mostrava um Rio de Janeiro com as suas desigualdades, com os seus paradoxos, com a sua beleza e caos, e a gente continua nessa situação. Se você pegar a letra da “Rio 40 Graus”, que foi escrita em 1992, ela é um retrato fiel do que é hoje o Rio de Janeiro. De uma certa maneira, é interessante, porque traz imagens do Rio, mas, por outro lado, a gente se preocupa, porque essa diminuição da desigualdade que a gente tanto quer no Brasil… Ela ainda não se deu. Ainda temos uma classe política e económica cheia de privilégios e que não os quer largar. Não acho que seja só no Brasil, é no mundo todo. Há umas semanas tivemos a notícia de que o Elon Musk foi considerado o primeiro trilionário do planeta Terra. Ele tem uma fortuna que é o mesmo que têm 4 biliões de pessoas do planeta. É quase um tecnofeudalismo, de quando tínhamos um rei que tinha tudo e uma população sem quase nada. É um movimento muito ligado às big tech, que dominaram totalmente o planeta. E isso está ligado à ascensão da extrema-direita, em muitos países, porque há uma manipulação virtual nas redes sociais… Então, acho que esse disco ainda fala com as pessoas hoje. Ele ainda tem o que dizer.
E lembra-se de considerar de imediato que a expressão “da lata” seria ideal para o título de um disco? Porque ela vem de uma história muito específica e curiosa, mas acabou por ganhar uma vida própria.
Sim, naquela época, em 1987, tivemos um episódio completamente surreal aqui no Brasil. Um navio chamado Solana Star, de contrabando, que carregava milhares de latas de maconha, foi detectado pela marinha brasileira. Então, eles lançaram ao mar essas latas todas para se livrarem do flagrante [delito]. Essas latas apareceram no litoral do Rio de Janeiro e numa parte de São Paulo. Todo o mundo foi para a praia pegar essas latas, porque tinham uma maconha de excelente qualidade. E acabou virando gíria no Rio de Janeiro. Tudo o que era legal, de boa qualidade, era da lata: “esse filme é da lata, vamos ver esse show que é da lata”. Mas não foi só por causa dessa história, que é engraçada e inusitada. Nesse universo da lata, eu também quis colocar algumas referências. Os radialistas, antigamente, quando falavam no seu microfone prateado, eles diziam “na lata” quando se referiam a dizer directamente, sem muita enrolação. E também, mas especialmente, em relação ao batuque. Muitas vezes, a galera pobre da favela, quando não tem um instrumento para tocar, de couro ou um pandeiro que é caro, começa a batucar numa frigideira ou numa panela. Também tem a história das lavadeiras que usam a lata d’água na cabeça, que transportam a água para lavar as roupas das madames. Então, é uma referência que simboliza um Brasil desigual. A lata como um material que não é nobre: não é prata, não é ouro, é um material reciclado. De certa maneira, é um símbolo do brasileiro que consegue sobreviver, apesar dos obstáculos todos. Do povo que não tem tanta condição financeira e continua acordando todos os dias de manhã e, ao mesmo tempo, não sei como, com um sorriso no rosto. Muito com essa ideia da reciclagem da vida, da possibilidade de transformar essa condição difícil de vida numa vida melhor. A gente brinca que vai da lata do lixo ao luxo da lata, que também tem um pouco a ver com o Carnaval, com as escolas de samba, com você reciclar materiais e fazer aquelas fantasias, que, muitas vezes, são fantasias que não são luxuosas, não têm cravejados de brilhante. É na inventividade, na criatividade. Então, tentei trazer esse veneno da lata, que era o nosso swing, o nosso borogodó, a nossa maneira brasileira de tentar sobreviver às adversidades.
E que papel é que acha que o disco teve na música brasileira, quando olha para trás?
Acho que teve um papel fundamental. Até hoje, depois de muitos anos passados, as pessoas me consideram meio a mãe do pop dançante brasileiro e a madrinha do funk carioca, porque fui uma das primeiras pessoas que não era da favela, branca, classe média, zona sul, mas que abraçou o movimento funk enquanto um movimento autêntico, potente, das favelas cariocas, que depois já foi para o Brasil inteiro, hoje está dominando pelo mundo. Hoje temos a Anitta, que é a maior popstar brasileira, mas é importante a gente lembrar que esse funk teve esse caminho grande, desde 1987. O Brasil tem muitos sons diferentes, muitos géneros, mas nessa onda do pop dançante brasileiro, acho que foi um disco fundamental e continua sendo.
Como dizia há pouco, os anos 80 no Brasil foram muito marcados pela vaga rock. O Da Lata acaba por representar esse ponto de viragem, dos discos que foram feitos em meados dos anos 90 e no início dos 2000, e certamente que também foi influente para muitos dos artistas que vieram a seguir.
Com certeza. Nessa época, na segunda metade dos anos 90, você tem discos importantes: o do Lenine, Chico Science, Nação Zumbi, O Rappa, Planet Hemp, Jota Quest, Carlinhos Brown… Vieram com uma sonoridade que trouxe um pouco mais do Brasil para a linguagem musical. Nos anos 80, a gente tinha uma referência muito forte dos Estados Unidos e Inglaterra, as bandas de rock e tal. A partir dos anos 90, com a consolidação mesmo da nossa identidade brasileira, quando a gente se conseguiu livrar um pouco daquela história da ditadura e de toda a censura, acho que os jovens começaram a enxergar o Brasil de uma maneira um pouco mais positiva e começaram a ouvir um pouco mais a sonoridade que era o nosso samba, a nossa bossa nova, o nosso funk, sem tanto preconceito. O Da Lata foi um disco dessa leva.
Musicalmente, o Brasil virou-se mais para si próprio nessa fase. E, pelo menos nesses três primeiros discos, a Fernanda já estava conscientemente a fazer esse caminho ou foi uma coisa que também se foi apercebendo de que era natural em si, naquilo que queria fazer, na música que estava a criar?
Por eu ter na minha formação musical… É assim, eu não tenho pais nem familiares que trabalham com música. O meu pai era arquiteto, a minha mãe bibliotecária, o meu avô era juiz, a minha avó era normalista [professora]… Os meus avós portugueses que vieram para o Brasil, o meu avô era designer vitrinista, a minha avó trabalhava na caixa de uma loja. Eram pessoas simples, sem grana, mas muito cultas. Mas eu tive uma educação, especialmente com o meu pai, português, que veio para cá com 13 anos e casou com a minha mãe, que é carioca… Eles gostavam muito de música e de samba, especialmente. Eram grandes consumidores de música e tinham um grupo amador de samba com amigos. Um tocava violão, outro tocava cuíca, outro ganzá, outro tocava surdo. Eu e o meu irmão crescemos em volta daquele samba, daquela bossa nova, eles iam a todos os festivais de música no Brasil que eram importantes nos anos 60 e 70. Então, na minha casa, ouvíamos muita MPB, bossa nova, os baianos, o pessoal do Nordeste, o jazz que o meu irmão gostava muito… Ouvimos de tudo, talvez a única coisa que não tenhamos escutado muito foi o sertanejo. Era a música mais urbana que nos chegava ao Rio de Janeiro, até porque o Brasil era muito mais no litoral, a parte da produção cultural. Hoje a gente tem um Brasil que é do interior e que tem muito dinheiro do agro, o sertanejo ficou forte por conta disso também, mas a minha formação é mais urbana. Desde que eu saí dos Blitz e resolvi fazer o meu próprio som, acho que isso já veio no meu ADN, essa mistura do samba e do funk, do Rio de Janeiro e da soul, da música dançante. Eu, com 15 anos, ia às discotecas, porque era o boom das discotecas nos anos 70, então a disco music também entrou forte, o funk americano misturado com o Miami Bass, e também me apaixonei pelo hip hop, a primeira vez que ouvi foi em 1989 com o Grandmaster Flash. Tudo o que fui ouvindo entrou e, na hora de eu criar, veio de uma maneira espontânea.
E neste processo, de estar a pensar e a reflectir sobre este disco e aquele momento na história, de fazer o documentário e de pensar no livro, também de preparar novamente o álbum para os palcos, mudou algo na sua perspectiva? Redescobriu algo específico?
Na verdade, surpreendi-me, porque quando fui chamar a banda para a gente começar a trabalhar no estúdio as músicas do Da Lata, pedi à editora as fitas originais, as multitracks, e tinha alguns timbres, alguns samples da voz da minha filha, que hoje tem 34 anos e é neurologista, mas na época tinha três anos de idade e eu coloco a vozinha dela lá no show… Fui pescando algumas coisas que eu achava que eram interessantes para a gente começar a tocar. Não fiz simplesmente um cover do que tinha há 30 anos. É claro que eu, como consumidora, quando vou ver o show de alguém de que gosto, adoro ouvir as músicas muito parecidas com o que escuto no disco. Se ia a um show do Michael Jackson, adoraria ouvir a “Billie Jean” que eu escuto no disco e não uma “Billie Jean” em formato de blues ou de sei lá do quê, entendeu? E se for amanhã no show do Bad Bunny, é igual. Então, tentei ao máximo ser fiel aos arranjos originais. Mas é claro que os músicos são outros. Eu sou outra. Fui tentando fazer o máximo parecido possível, mas muda um pouco. Abro [as músicas] para solos, para diferentes nuances. E como vou cantar nove músicas do Da Lata, ficaria um show pequeno. Então, trouxe algumas músicas de outros discos, sobretudo os discos que me fizeram fazer aquele disco. Músicas do primeiro e do segundo disco, até ao Raio X [o quarto álbum, editado em 1997]. Resolvi privilegiar aquele período dos anos 90 para criar essa atmosfera, mas mostrando que é super actual. Porque, por exemplo, faço uma música no show que se chama “Bloco Funk”, em que homenageio o início do funk carioca. Eu chamo de “velha guarda do funk”, porque aqui no Brasil a gente fala da “velha guarda do samba”. Então, fui misturando, mas acho que o show está bem representativo, tanto do álbum de 1995 como de uma sonoridade atual brasileira e carioca.
E também deve ter sido emocionante tocar algumas dessas canções pela primeira vez em muitos anos.
Ah, com certeza! Muitas músicas que eu não tocava há muitos anos. Para mim é quase uma novidade, uma coisa inédita, porque se passaram 30 anos. Está sendo incrível, até porque só estamos no início dessa tournée. A gente está muito entusiasmada.
Só para terminar, Fernanda, está a preparar música nova neste momento? Algum disco novo? Quais é que são os seus planos agora, depois desta grande comemoração, que lhe tem ocupado bastante tempo e exigido dedicação?
Os meus planos agora são para fazer um projecto novo, de músicas inéditas. Já comecei a escrever algumas coisas e tenho umas duas ou três músicas prontas. Mas ainda quero entender qual é o conceito que vou trazer. Porque eu trabalho muito assim, os meus discos são todos em cima de conceitos. Não são músicas aleatórias que vou juntando e depois arrumo um título para o disco. Não, é ao contrário. Quando entendo o conceito é que quero fazer um álbum. Mas lancei singles e fiz participações nos últimos tempos. Acabei de fazer uma, que vai sair em Setembro, em homenagem aos 90 anos do João Donato, convidaram-me e eu fiz uma versão muito interessante e bacana da música “Nasci Para Bailar”. Mas o meu próprio trabalho, o meu próprio álbum, eu preciso de ter um conceito um pouco mais fechado e que ainda estou buscando. Mas vai sair. Eu fico um pouco assustada com essa história da inteligência artificial. Porque muitas pessoas têm feito composições em cima do Suno. E é impressionante porque sai uma qualidade interessante, ele entrega-te guitarristas, teclistas, beatmakers, tudo com uma qualidade boa. Mas eu ainda acho que falta uma originalidade. Ainda me parece, às vezes, um pouco genérico. Porque como a inteligência artificial também trabalha se alimentando dessa coisa meio genérica de gêneros, então tem umas fórmulas…. Eu quero sair dessas fórmulas. Quero que, se possível, as pessoas que escutem o meu álbum digam: isso foi feito pela Fernanda mesmo. Não sou contra a inteligência artificial, de jeito nenhum. Todas as ferramentas tecnológicas podem ajudar a gente. Mas elas servem para ajudar o humano, não para substituí-lo.
E se calhar a melhor forma de contrapor os excessos da inteligência artificial é fazer um álbum muito humano.
Muito pessoal e humano.