Fatigado: “O Tou Fixe dá mais ênfase às melodias e apela mais ao lado sentimental”

[ENTREVISTA] Rui Miguel Abreu [FOTO] Direitos Reservados

Três anos depois de ir até uma Sanzala, Fatigado diz-nos que está “fixe” com um projecto composto por oito faixas em que embrulha kizomba, kuduro, funaná, r&b e vaporwave com o laço da música electrónica. Ou, como diz o próprio, se tivesse de colocar o álbum numa prateleira duma loja de discos, seria naquele que diria “neo-retro-batucada”.

O novo disco, tal como o primeiro, tem o selo da sempre pertinente Golden Mist, editora que lançou projectos de Marie Dior, RAP/RAP/RAP, Blastah, Shcuro, Endgame ou Old Manual. Tou Fixe marca o primeiro lançamento em dois anos — o último tinha sido Rede Anti-social de DJ Veneno666.

Quisemos saber mais sobre o produtor de Albufeira e fizemos chegar 12 questões à sua caixa de correio electrónico. Podem conferir as respostas fazendo o scroll para baixo:



Olá, João, podes começar por te apresentar? Que idade tens, de onde és, qual a tua história de vida?

Tenho 27 anos, sou de Albufeira e foi aqui que cresci, numa cidade 100% dedicada e vendida ao turismo onde o estímulo cultural é escasso ou praticamente inexistente, mas que por algum motivo está cheia de malta criativa que depois acaba por rumar a outras bandas.

Sempre fui um fã de música e mais ou menos com 14 ou 15 anos comecei a aventurar-me no hip hop, primeiro em battles de freestyle que fazíamos em casa de um amigo e mais tarde com a gravação de uns quantos sons que acabaram por ficar perdidos algures no Myspace.

Em 2012 fui para a universidade em Lisboa e ao fim de um mês ou dois já sabia que não era ali que queria estar, então voltei para Albufeira e foi nessa altura, em que não sabia bem o que é que queria fazer, e cheio de tempo livre, que instalei o Ableton e comecei a aventurar-me na produção. Ao fim de um ano, já com a certeza de que era este o caminho, decidi ir para Berlim estudar produção e assim começar a jornada no mundo da música.

O teu primeiro registo, Sanzala, já data de 2017. Como é que olhas para esse teu primeiro lançamento aqui do alto de 2020?

Olho para o Sanzala como uma espécie de pai orgulhoso. Não só por ter sido compreendido pela maioria do pessoal que o ouviu, mas por ter conseguido aproximar a música que eu ouvia quando era mais novo com a música e com o ambiente em que eu estava inserido na altura em que o produzi.

O processo foi tão espontâneo que pensei que fosse o único trabalho como Fatigado porque as faixas simplesmente saíam de cada vez que abria o computador e como artista senti que talvez não tivesse mais nada a dizer sobre o género depois de terminado o projecto. Era aquilo que eu tinha a dizer na altura e por isso olho para o Sanzala como quem olha para um álbum antigo de fotografias.

O teu novo lançamento marca também o rearranque da Golden Mist. Como é que chegaste até esta editora e como é que olhas para o restante catálogo?

Cheguei até à Golden Mist através do Gonçalo (Lake Haze). Nós conhecemo-nos na Internet por volta de 2015 por causa de outros projectos musicais que temos e desde então que somos bons amigos. A dada altura mostrei-lhe as malhas que tinha como Fatigado e ele sugeriu-me lançá-las pela Golden Mist e foi assim que surgiu o Sanzala. Olhando para o catálogo dá para perceber a quantidade e qualidade de música que é feita em Portugal e que muitas vezes passa despercebida. Editoras como a Golden Mist são uma parte importante deste nicho. Os recursos não são muitos e são plataformas como esta que dão visibilidade a pessoal que, como eu, faz música nos seus estúdios caseiros e que lhes dá a oportunidade de materializar trabalhos que de outra forma acabariam por ficar numa página de SoundCloud ou mesmo espalhados pelo ambiente de trabalho.

Fala-nos de Tou Fixe: isto é uma compilação de material disperso feito depois de Sanzala ou foi mesmo algo pensado para se alinhar como um novo álbum?

Material disperso em termos cronológicos porque é assim que geralmente faço a minha música mas coeso no que toca à intenção e com a consciência de que serviriam o seu propósito. Já tinha o tom do segundo release de Fatigado definido e entretanto chegou a quarentena que veio de certa forma dar mais contexto à coisa. Decidi chamá-lo Tou Fixe porque, apesar de tudo, é assim que me sinto.

Quais dirias que são as diferenças entre o novo Tou Fixe e o Sanzala?

Para quem ouve, as diferenças são óbvias, o Sanzala é um álbum mais cru de batidas agressivas e distorcidas enquanto o Tou Fixe dá mais ênfase às melodias e apela mais ao lado sentimental. Para quem o produziu, a diferença está no motivo. O Sanzala foi feito na altura em que vivia em Berlim e estava rodeado de cimento, muita música experimental e mau tempo. O Tou Fixe foi feito numa altura diferente, com o intuito de ser mais introspectivo, inspirado por outro tipo de som e com uma preocupação técnica diferente.

Operas, obviamente, no terreno em que a música electrónica se cruza com um balanço decididamente africano. Como é que descreves ou classificas a tua música?

Classificar a minha música é sempre complicado, normalmente tento sempre deixar isso para os outros. No dia em que a souber descrever, vou poder finalmente explicar aos meus pais que tipo de música é que faço. Se tivesse que a pôr numa loja de discos, punha-a na categoria de neo-retro-batucada.

A tua história pessoal — pais nascidos em Angola… — tem certamente impacto na tua orientação musical. Cresceste a ouvir música africana? Como é que as tuas memórias musicais se manifestam naquilo que fazes agora?

Sim, sem dúvida que acaba por me influenciar. Eu cresci no bairro da Quinta da Palmeira e uma grande parte das pessoas que lá viviam vinham também de Angola e de outras ex-colónias, então, não só na minha casa como na casa dos meus amigos, essa banda sonora acabava por ser uma constante. Depois mais tarde, quando comecei a ter acesso à Internet, acabo por descobrir nomes como DJ Znobia, Tony Amado, Bruno M, Sebem, Costuleta e os DJ’s Do Ghetto. Essas acabam por ser talvez as influências mais directas.

Estás atento ao que fazem selos como a Enchufada, Príncipe, etc? Sentes que a tua música se enquadra numa cena mais vasta?

Sim, no geral tento estar sempre a par daquilo que se faz por cá e, no que toca à música, não diria mais vasta porque a vejo debaixo do mesmo guarda-chuva, mas percebo quem a ache diferente.

Estas edições na Golden Mist são as únicas manifestações concretas da tua carreira musical ou fazes mais alguma coisa? Além de produtor, és também DJ?

Para além de Fatigado, tenho outros dois EPs lançados como Foreign e mais uns quantos projectos que estão aqui no computador à espera de ver a luz do dia. Para além disso, o ano passado criei a minha editora Deaf From Silence para ter uma plataforma para esses mesmos projectos mas acima de tudo para lançar música de pessoal que conheço com muito talento. Também sou DJ e o plano é tocar com mais regularidade.

Podes dar-nos algumas luzes sobre o lado mais técnico da tua produção? Quais são as tuas ferramentas de produção?

O processo em si é simples e geralmente não tenho nada planeado. Sento-me no estúdio e brinco com as máquinas até encontrar algo que me agrade. As que tenho usado mais ultimamente são um Digitakt (drum machine/sampler), um Digitone (sintetizador FM) e um Korg Minilogue (sintetizador analógico). Gravo os instrumentos e depois processo tudo no Ableton Live, mas no geral gosto de usar de tudo, desde hardware a software.

Ouvindo a tua música um nome como Irrequieto não seria mais adequado do que Fatigado? De onde é que vem essa designação?

O nome Fatigado veio do tipo de som que fazia quando comecei o projecto. Para além de ser um som de BPMs altos, as batidas eram distorcidas, saturadas e tinham má qualidade. Aquilo que tinha de energético tinha também de cansado, daí o nome Fatigado.

Próximos passos? Há mais música alinhada para o futuro próximo?

Ainda não tenho nada em concreto mas o plano é manter-me activo e ser mais regular no que toca a lançar música — e não só como Fatigado. Já tenho algumas coisas mais ou menos planeadas para sair até ao fim do ano então estou empenhado nisso mesmo.


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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