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O discurso de Endgame está polvilhado de referências que chegam de um universo extra-musical e por isso mesmo soam exóticas, mas ainda assim estranhamente precisas: Issey Miyake como uma influência, o luxo da Maybach como contraponto para um plugin, o material kevlar como metáfora para descrever um flow. É compreensível que Endgame se veja obrigado a recorrer a imagens extra-musicais para descrever a sua própria música. Este é, de facto, um som do futuro, com poucas referências imediatamente reconhecíveis. Só que acontece agora. E debaixo dos nossos narizes, nem de propósito: Endgame EP sai na portuguesa Golden Mist, etiqueta que importa seguir com toda a atenção.

O som de Endgame tem ligações a Lisboa: é óbvio que o produtor inglês anda a ouvir as malhas que emanam do novo labirinto digital português e que tem acusado o toque das propostas da Príncipe, por exemplo. E isso é uma coordenada mais do que assumida pelo produtor. Os ritmos da kizomba e do tarraxo servem-lhe de ponto de partida, bem como uma ideia muito própria de dancehall. Só que Endgame parece subtrair a Terra (como planeta…) à equação dessas sonoridades e prefere a suspensão em gravidade zero. Zero poeira debaixo da sola dos ténis e em vez disso apenas o reflexo de néon azul sobre alumínio polido: ouça-se o final de “Luxury Riddim” por exemplo, para se entender a imagem apresentada antes.

O EP de estreia de Endgame inclui seis faixas, todas afiadas como lâminas, com o ar de terem sido produzidas num qualquer laboratório da NASA durante as madrugadas, quando menos cientistas se encontram por lá e se pode aproveitar o sistema de som para outro tipo de experiências. Há algo de profundamente sedutor no som de Endgame, que bem poderia servir de banda sonora a um próximo filme de Nicolas Winding Refn se este decidisse rodar uma história de gangsters numa estância de luxo algures num paraíso tropical. Esta música não tem arestas, não tem ruído, não tem uma única mancha: tudo é transparente, polido, de encaixe perfeito. E isso é alien, soa estranho, como quando se olha para uma imagem e se percebe imediatamente que há algo de errado, embora sejamos incapazes de dizer imediatamente o quê. E é bem provável que o que aqui soa errado seja a data: estamos em 2015 a ouvir música de 2025.

 

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