Old Manual: EE, dance music e sonhos bizarros

[TEXTO] Inês Coutinho [FOTOS] Direitos Reservados

 

EE é o terceiro longa-duração de Old Manual, nome próprio Manuel Robim. Um dos membros fundadores da celebrada AVNL, este produtor português tem enriquecido o nosso panorama musical com as suas construções electrónicas 100% imprevisíveis.

Neste novo disco de 13 faixas, que acaba de sair pela sua AVNL, explora um cenário metade futurista, metade arquetipal, em que constrói uma manta de retalhos com referências da sua adolescência e de um futuro imaginado. Arpeggios e melodias sonhadoras contrastam com sons industriais esculpidos cuidadosamente, num hino à alta fidelidade sónica e à emoção que vive por si, sem precisar de se definir para saber que existe e quer avançar.

Para perceber melhor o que está por detrás deste álbum essencial resolvemos conversar online com o artista, uma entrevista em modo coloquial que reflecte o espírito descomprometido – mas ainda assim completamente devoto – de Manual Robim. Foi assim:

 

Quando eras tennager ouvias musica de dança?

Entre os 11 e os 13 ouvia Vengaboys, isso é musica de dança e eles tem altas malhas no The Party Album. Depois por volta dos 15 a minha irmã ofereceu-me o Kremlin 2, que eu queria muito. Ainda hoje ando com ele no carro, e serve de inspiração para muito do que eu faço. Queria mesmo era o Kremlin – On Top Of The World, que era o primeiro da série, porque tinha aquela do ATB [“9 P.M. (Till I Come)“], e tinha Storm e a “God Is a DJ” [Faithless], etc. Mas quando fiz anos já era altura de sair o 2 então ela deu-me esse.

E o 2 tinha quais?

O 2 tem cenas incríveis, “Xpander” do Sasha, um mix da Why Go, de Faithless, incrível, um Club Mix de ATB da “Sun Is Shining” do Bob Marley, a mítica “Get Get Down” do Paul Johnson, um mix brutal da “Music Is The Answer“, e por aí fora.

Preferes os early nineties ou os late nineties?

Depende de se está Sol ou se está a chover. Sinceramente, quando me apetece descobrir música e perder-me numa pesquisa infinita de discogs atras de discogs, vou pelos early nineties. Quando me apetece não pensar em nada vou para os late nighties.

O teu release da Golden Mist tinha ali uma enorme influência de ATB numa malha. Já falaste dele duas vezes,  faz sentido. Adoras? E já agora, fala-nos da tua relação com o trance.

Não adoro tudo o que há de ATB, há algumas coisas que acho francamente estranhas em álbuns, agora não me lembro ao certo o quê nem em quais, já não oiço há algum tempo. Mas adoro a influência que certas faixas, num determinado período da minha vida, há muitos anos, me deram para agora fazer música. Sinto-me legitimamente a realocar alguma coisa feita noutro contexto, a descontextualizar e a recontextualizar numa coisa com objectivos diferentes, até porque recentemente afirmei que não gosto de admitir que faço música de dança, mas que gosto de dançar toda a musica que faço.

Quanto a trance, é uma questão complicada. Gosto de ir buscar pormenores e ideias aplicadas no trance, no geral e em particular. Sejam passagens, sons, estruturas, ou mesmo a intenção rítimica de partes de músicas. No outro dia vinha no carro, calor imenso alentejano, e ouvi o álbum inteiro de Etnica, Nitrox, e senti-me ao mesmo tempo numa tenda no Boom – onde nunca estive – e num laboratório de análise musical – que provavelmente não existe. Ia a curtir e ao mesmo tempo a tentar perceber a ideia atrás daquilo tudo. Mas não é fácil para mim ouvir isso durante muito tempo seguido.

Sim, parece que a emoção ali contida não é sempre clara. E as tuas? Que tipo de emoções te fizeram escrever este álbum?

Queria transformar uma ideia abstracta numa coisa concreta, e acho que isso é o que qualquer pessoa quer, na verdade. Mas neste caso a minha ideia era tão abstracta que eu não fazia ideia o que estava a fazer. Tinha sons e imagens na cabeça, estava de férias no ano passado e com bastante tempo nas mãos e ideias giras. Não senti revolta ou alegria ou alguma coisa simples de descrever, eu próprio não sei bem o que segui para alem dum desejo louco em conseguir responder ao meu impulso de escrever uma peça completamente a rasgar o que eu havia feito até àquela altura. A meio meteu-se o Tropic Hall, na Golden Mist, que me ajudou a espaçar o EE – que na altura era para ser um EP com três músicas. Uns meses mais tarde houve uma noite que tive um sonho muito bizarro em que o Tiago [RAP/RAP/RAP] lançava um álbum chamado EE, com uma capa muito darkvibez e uma sonoridade indefinida, e que com esse álbum ele ia tocar ao Alive – acho que nunca lhe contei isto. Quando acordei pensei “Pronto, é isto, é esta a ideia que agora preciso de desenvolver, vai correr bem! Se ele foi ao Alive com aquilo, só pode ser bom.” Parece estúpido, se calhar ate é, mas teve imensa importância. Valorizo muito os meus instintos e subconsciente.


 

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Tentei criar uma coisa que parecesse que tinha sido feita por um drone mal programado que estava a tentar fazer música depois de anos de abandono ao lado duma cabine de DJ qualquer, a ouvir vários estilos de musica.


O artwork do disco – também tem que ver com o sonho? Quem fez?

Isso também é uma daquelas coisas wtf que só posso justificar com “It was meant to be“. No sonho que tive, a capa do álbum e toda a sua imagética era escura, muito ruído, pouca luz, mas percebia-se o que se passava ali. Quando comecei a trabalhar a artwork, isto já acordado como é obvio, peguei numa imagem que tinha feito há muito tempo atrás, apenas porque gostava dela. Tinha um feeling qualquer em relação àquilo que está a ali, mas era uma imagem com um fundo cor-de-rosa claro, e uma forma acizentada estranha no centro, meio 3D, feita no Illustrator e Photoshop. Depois de meses sempre a trabalhar isso, sempre a mudar e a mudar, cada vez mais escura e mais indefinida, e já seriamente decidido que isso ia ser a capa, reparo que no centro da imagem existem umas linhas que parecem dizer “EE”, como hás-de reparar agora. Aquilo no centro diz “EE”. E eu peguei numa imagem cor-de-rosa com flares, com intenção de a “estragar”, de aplicar erosão digital artificial, sem nunca me aperceber que estava escrito ‘EE’ no centro. Raios partam os sonhos.

A parte sónica e de produção é super limpa e digital, parece uma espécie de hiper-realismo futurista. Foi de propósito?

Foi propositado, sim. Tentei criar uma coisa que parecesse que tinha sido feita por um drone mal programado que estava a tentar fazer música depois de anos de abandono ao lado duma cabine de DJ qualquer, a ouvir vários estilos de musica. Se calhar não tentei mesmo fazer isso, mas agora que penso podia perfeitamente ser. De qualquer forma, gosto do ambiente futurista e digital, maquinal e meio catastrófico. Uma espécie de anúncio do fim de uma era qualquer. Nesse aspecto inspiro-me em muita coisa, musical e visual.

Numa nota mais leve – se tivesses que mudar de nome artistico – e o nome do teu álbum – o que escolhias?

Los Old Manuals – EhEh.

É o teu primeiro longa duração?

É o meu terceiro. O meu primeiro, HD, saiu no dia 1 de Janeiro de 2013 pela AVNL. Já o segundo [リング] saiu em 21 Fevereiro 2014, pela Aural Sects. Esse é realmente longo, é na verdade uma edição que idealmente se divide em dois discos, duas partes.

Fundaste a AVNL com Marie Dior e RAP/RAP/RAP. Há algum plano para o vosso futuro ou a onda é ir deixando fluir?

Há alguns planos sim, mas ainda nada muito definido. Mas é verdade que nós gostamos que a coisa flua um bocado, muito do que conseguimos com a editora foi devido a esse nosso espirito descontraído e descomplexado de fazer aquilo que gostamos e nos apetece. Isso chamou um bocado a atenção de algumas pessoas e acabou por ser importante.


 


Estás em Portugal a passar o Verão mas vives em Londres há algum tempo. A cidade mudou a tua maneira de encarar a indústria musical ou mesmo de fazer música? 

Até agora não posso dizer que Londres tenha concretamente mudado a minha forma de ver algumas coisas, mas a verdade é que mudei um pouco, seja por Londres, pelo tempo passado, pelo trabalho que tive – uma rotina complicada como algumas vezes te disse e tu sabes – que não me permitia quase tempo nenhum para dedicar à música. Mas tudo valeu a pena, nem que seja porque essa carga toda me obrigou a construir um trabalho mais denso e mais pensado. Muitas vezes estava lá a servir clientes e a pensar em músicas, ideias, formas de abordar partes daquilo que viria a ser o EE, ou mesmo o 1.brightmanns. O proprio Tropic Hall é 100% a minha rotina em Londres, nada devido ao sair à noite, porque eu quase nunca saía, a não ser a ir para o trabalho às cinco da manhã. mas sim nos sons da máquina do café, da água a correr, do eco das salas e dos elevadores a subir e descer. Pode isto parecer inventado, mas se Londres me ajudou foi mesmo a perceber como tirar de tudo alguma coisa para fazer o que gosto.

Queres fazer alguma pergunta a ti mesmo?

(Risos) Hmmm, O que é que fizeste hoje, e de alguma forma isso te inspirou para futuros sonoros, Manuel?”

Hoje levantei-me tarde, almocei no chinês, fui à praia durante a tarde mas não tomei banho porque estava de boxers e fico desconfortável a conduzir com a roupa toda encharcada nas pernas, e sem toalha. Mais tarde fui jogar futebol, não me lembro se marquei golos mas eu gosto é de fintar, e de correr. A voltar para casa vinha a pensar como raio é que agora posso fazer um novo release que quebre um pouco com este, que vá novamente noutra direcção, e tenho estado a ouvir uma compilação da KAOS durante este Q&A para me inspirar a responder, a ficar com fome para jantar, e a dormir bem para ter sonhos estranhos e palermas mas bastante pertinentes.

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