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Fotografia: Adriano Ferreira Borges / gnration
Publicado a: 25/05/2026

Um duo tão improvável como fundamental.

Eve Risser & Naïny Diabaté no gnration: Anw Be Yonbolo — em ritual colectivo

Fotografia: Adriano Ferreira Borges / gnration
Publicado a: 25/05/2026

A lingua é bambara — praticada pelo povo mandinga, que outrora agrupava os territórios do Mali, Costa do Marfim, Guiné, Burkina Faso e Senegal. Que depois a cartografia política e colonial europeia recortou em fragmentos. A linguagem é local e universal — a música costura os retalhos e devolve-nos o sentido primordial. O encontro entre a pianista e compositora francesa Eve Risser — que procurou uma voz ancestral — e a griot maliana Naïny Diabaté, é um prodígio nestes tempos. Precisamente e porque juntas são Anw Be Yonbolo — que significa “estamos juntas”, porque juntos seremos mais capazes. 

Podemos não saber bambara — Risser prontamente tentou indagar isso numa das primeiras intervenções entre músicas. É por tal que o concerto se converte numa conversa músicada ou num recital comentado, como se queira melhor entender. Porque importa, e muito, saber do que se fala — ainda a tempo de escaparmos, mesmo que à tangente — que seja! “Je T’ai Dit Né Dou To O Dé Fé” como tema de arranque, porque há que começar a história pelo princípio. Um encontro entre a lingua colonial e a descolonizada. Eu disse-te que era griot — como que nos querem afirmar, para contar histórias. Simples, neste como em muitos outros temas, a palavra bambara anda em torno de um significado e da fonética associada. Se no piano (preparado) se começa por escutar um conjunto de tambores e percussão é porque Risser quer soar como um balafom. Fá-lo para convidar à palavra da griot Diabaté. “Se querem saber mais dos griots — vão ver na internet”, Risser é provocadora no sentido irónico. Tem essa veia de olhar o mundo actual sob a ameaça da tecnologia, tal como Nicole Mitchell nos adverte em The Mandorla Letters — deixando em questão “o que é o progresso?” Mas também é este o tempo que facilita encontros como este, que os torna possíveis e mais frequentes. Naïny vive em Bamako, nesse Mali de hoje, que luta pela sobrevivência humana, e numa urgência gritante e básica no quotidiano do que podemos imaginar. Ainda assim viajou, está junta também para fazer da voz griot um discurso festivo mas sem perda de denúncia. 

Risser está nesta causa — falou-nos, horas depois do concerto, como Naïny é uma voz pop-mandiga e que na comunidade maliana em Paris (onde Eve reside), junto dos taxistas, é sobejamante conhecida e prontamente posta a tocar no carro durante um serviço de passageiros. Era a voz que Risser procurava. Em “Moussolo Ana Fonike” há como que um chamamento às mulheres para a música, para os instrumentos — vozes e piano (preparado). Preparando-nos para um momento mais dramático e nada festivo — fúnebre até —, “todo o fascismo morrerá” sentencia em desejo firme Risser, antes de demonstrar as sonoridades das cordas a emular uma armadilha, sonoridade sinistra desafiada pelos e-bows, vibrando as cordas. No final, havia desse “Yela Ma Su” uma descarga, e Naïny solta um suspiro, um alívio. Como se encontrássemos esse desaparecimento do mal, a pedido. 

Ambas tomam parte de um orquestra maior em Kogoba Basigui, com 12 mulheres, e em “Terena” falam e tocam-nos como se dentro desse poderoso ensemble estivessem. Um chamamento mais às mulheres a tocar instrumentos. A voz da mulher (negra e caucasiana) em dueto e com final em fulgurante extensão vocal. Deu para ver quem tem mais poder de fogo na voz — Diabaté prolongou-a até além do piano. “Todas as pessoas deviam passar pela experiência de estar dentro de uma grande orquestra a tocar”, refere Risser. Para depois se voltarem para a parte lúdica e até circense que este Anw Be Yonbolo contémCom “Kononi Kasirá” acercam-se as aves, raras talvez — migrarão algumas do Mali à Europa, quiçá. Risser e Diabaté, esvoaçam vocalmente, entre sorrisos cúmplices. Chamam a atenção para quando os pássaros gritam — toadas surreais no piano e a dança convidativa de Naïny. “Em bambara nos entendemos”, deixa em comentário a pianista em função de tradutora, por e para miúdos — mas não há nem um. Seria para afirmar que este conhecimento entre lingua e linguagem, entre a voz e o seu piano é absolutamente empírico e que se transmite no sentir mais que num entender. E na senda dos animais partem para “Mintou” — nome de um cão de Bamako. Tema verdadeiramente melódico e directo, que convida à dança e à diversão. Diabaté, com as suas vestes tradicionais mandingas (estamos em crer) ensaia uns passo de dança e faz-nos querer dançar também. As cadeiras são lugares de desconforto, o corpo pede movimento. “E ao piano é um desafio engraçado, estamos presos no banco […]. Tento dançar sentada” como respondia em entrevista a Rui Miguel Abreu na antevisão da passagem, em data única, para este encontro em Braga. 

Eve Risser que vimos no último Jazz Ao Largo — naquela tarde memorável junto a Susana Santos Silva, num primeiro e fulgurante encontro entre elas — tem um piano transcendente. Mas um piano que prepara e descobre em torno de um centro sonoro. É uma pianista que na sua exploração não abdica da tonalidade, feita de frases em escalas maiores e menores, num sentido harmónico, que ascende ou desce. Vemos amiúde os pianos preparados a serem abordados nos campos do jazz em música atonal. Sabemos bem que poucos outros pianistas têm semelhante abordagem como Risser. Sabemos que um deles é o pernambucano Amaro Freitas. Acredite-se, tocava à mesma hora nesta mesma cidade, neste mesmo dia 22 de Maio. Ele há coisas…

“Makoroba” é um tema em homenagem — aos ancestrais. Enraizado na tradição griot, numa transmissão cultural baseada na oralidade. Risser brinca com “hommage–fromage”, homofonias evidentes, e fala-nos do deleite de Naïny nos queijos franceses — adora. Estes temas iremos encontrá-los a breve trecho em disco. A gravação está feita e será editado pela etiqueta BMC Records, associada ao Budapest Music Center. Ainda voltam para um encore (a francófonia fica aqui bem) para “Kaniba Otele” que é como quem nos diz em bambara — “aceita o teu destino”. Talvez mesmo o tema de maior profundidade, na voz, e nesse piano inolvidável e emotivo de Risser. 

Um efectivo ritual colectivo, e nem tanto pelos vários momentos em que o ritmo foi conduzido entre  palmas sincronizadas, antes mais pelo encontro de duas guerreiras culturais com poderes de esperança e transformação. E do seu encontro connosco. Uma demonstração vivida na fluidez, uma conexão bem para além das improváveis diferenças à partida.


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