Dead End lança EP pela Sound Museum: “Achei interessante usar o ruído como forma de fazer música”

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Direitos Reservados

Dead End lançou um pequeno EP pela Sound Museum, uma sub-label da Saturate Records. Disruptive / Sleep Cycle / Street Cred nasce de um estudo de reformulação sónica do produtor que tem explorado os caminhos mais ruidosos, mas sem fugir à essência da arte do beatmaking.

Foi no final de 2018 que Dead End assinalou a estreia por uma das net-labels que segue com mais afinco. Após uma abordagem via SoundCloud, a janela aberta permitiu-lhe enviar algum material para aprovação do selo, que resultou na inclusão de “Apex Predator” na Sound Museum Exhibition 2019, uma compilação com alguns dos melhores talentos da construção de batidas a operar com o foco virado para a Internet.

O projecto que editou no final da semana transacta pela mesma editora é um sinal de persistência na busca pelo sonho e surge de uma mutação sónica trabalhada em laboratório por Dead End, que procurou aproximar o seu registo ao do espectro abrangido pela Sound Museum — uma espécie de montra que dá a conhecer ao mundo os mais aplicados alunos da escola do sound design — mas sem nunca descurar naquilo que é a sua própria imagem de marca: as batidas acutilantes capazes de quebrar qualquer pescoço.

Em 2018, o produtor editou Cobweb, Gods & Kings e Left Hand Path, este último junto de M.A.F.. Em conversa com o Rimas e Batidas, deixou no ar a ideia de que a sua agenda editorial para 2019 será igualmente preenchida e falou sobre os três temas editados pela Sound Museum, bem como da sua próxima paragem ao vivo, no festival ID.



Lançaste o teu último trabalho pela Sound Museum, uma label que sei que admiras bastante. Como se deu a parceria? Foste tu quem lhes propôs a edição ou o convite surgiu da parte deles?

Há cerca de um ano enviei várias demos para a minha label favorita do SoundCloud, a Saturate Records. Um dia tive a sorte de gostarem de uma track. Essa faixa acabou por ser lançada pela Saturate e, a partir daí, fui estabelecendo uma relação de amizade com a malta da Saturate e, por consequência, com a Sound Museum, pois são associadas e os membros são praticamente os mesmos. Continuei a enviar material, eles iam gostando cada vez mais do meu trabalho. A Sound Museum estava a organizar uma compilação da label e usaram a faixa “Apex Predator”. Mais tarde, em conversa com o Tuomas, da Saturate, disse-lhe que estava a trabalhar em dois EPs para submeter às duas labels. Enviei este EP com três faixas, pois a Sound Museum tem como característica lançar EPs curtinhos. Eles deram logo a confirmação que queriam lançar e acabou por acontecer.

Soa-me talvez ao teu trabalho mais industrial e glitchy até à data, com ritmos pouco ortodoxos e inquietantes. Explica-me qual foi o processo que te levou até estes três temas.

Para este EP em específico não houve propriamente um conceito como quando lanço a minha música a solo. Eu, por norma, sou rápido a produzir e a concluir faixas, pois se me arrasto muito tempo começo a perder o feeling e a criar dúvidas na minha mente. Além do mais, andava numa fase em que estava a trabalhar arduamente no meu sound design e tudo o que eram sons noisy e industriais estavam muito presentes. Achei interessante usar o ruído como forma de fazer música. Produzi bastantes malhas até achar que estas três faziam sentido juntas, diferentes entre si mas fracturantes e disruptivas, e que acima de tudo fossem de encontro à sonoridade da label mas nunca fugindo às minhas características enquanto produtor.

Este é a tua primeira marca em 2019. O que se segue daqui para a frente? Já tens mais algum projecto no forno ou alguma parceria com mais alguma label em mente?

Estou, neste momento, a trabalhar arduamente num EP para a Saturate Records, esse sim terá um conceito mais trabalhado, além de estar a preparar também material visual para o acompanhar, pois se for aceite será o maior lançamento internacional da minha carreira até agora. Estou também a trabalhar num novo EP para a Moriko Masumi com a participação do Maria e do M.A.F.. Além disso tenho um projecto com o M.A.F. chamado Shallow e pensamos lançar música ainda este ano. Mais para a frente, gostava de submeter música para a Division, 20/20, Brainfeeder, Warp, Ninja Tune, etc. Pode ser que tenha sorte um dia destes, quem sabe.

No final de Março sobes ao palco do ID, um festival que prima pela liberdade e ausência de regras dentro dos espectros da música electrónica. O que nos podes adiantar sobre a tua actuação? Vai ser ao vivo/DJ set?

Vai ser um live set com o Ableton Live e a minha MPD, para haver algum espaço para improviso. Podem esperar ouvir muita música minha, released e unreleased, por isso já vão ouvir faixas que serão lançadas mais para a frente. Vai haver também música de artistas que eu aprecio e que vai desde os beats de hip hop à electrónica mais experimental. Venham acima de tudo com a mentalidade aberta e com vontade de abanar a cabeça, porque vai haver muito bass, muitos beats e muita música alternativa que é pouco ouvida e divulgada por cá.


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira