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Ilustração: Riça

Do hip hop para qualquer lado: Crónicas de um HipHopcondríaco é da autoria de Manuel Rodrigues.

Crónicas de um HipHopcondríaco #35: Antíteses

Ilustração: Riça
Estava em Berlim quando me aterrou no colo a notícia da vinda de Kendrick Lamar a Portugal. Encontrava-me, para ser mais preciso, no hall de entrada do Topographie des Terrors, um museu localizado em Niederkirchnerstrasse, erguido nas ruínas de um antigo quartel general das SS e da Gestapo, provavelmente uma das visitas mais perturbantes que já presenciei, a par, claro, da exposição itinerante de Aushwitz em Madrid (a frase “não faz muito tempo, não muito longe”, no sentido de manter a memória viva para que tais atrocidades não se repitam, é das mais fortes que alguma vez vi inscrita num panfleto de publicidade a um programa de interesse cultural). Em Berlim, preparava-me para iniciar o percurso pela história do holocausto quando o meu amigo Rui me fez chegar à caixa de mensagens a notícia: Kendrick Lamar no NOS Alive 2020, dia 8 de Julho. Terá sido das poucas vezes na minha vida em que experienciei dois sentimentos opostos no mesmo instante e com a mesma intensidade. Se tudo correr bem e se assim se proporcionar, esta será a terceira vez que assisto a um concerto de Kendrick Lamar. A primeira na sua estreia em Lisboa, no âmbito do festival Super Bock Super Rock 2016; a segunda em Paris, no U Arena, em contexto do Paris Summer Jam 2018. Ambas perfeitas, ambas inesquecíveis. Contudo, já dizia o velho ditado popular, não existe amor como o primeiro. Neste caso, não existe encontro como o primeiro. Paris até pode ter trazido a palco faixas de DAMN. e canções como “goosebumps” e “All The Stars”, partilhadas na versão de estúdio com Travis Scott e SZA, respectivamente, algo que naturalmente não acontecera em Lisboa. Poderá também gabar-se de uma mistura sonora superior e de uma maior coesão entre instrumentos e voz, elevando assim a inteligibilidade para níveis que não foi possível testemunhar na Altice Arena – além, claro, da própria destreza de Kung Fu Kenny no exercício ao vivo (os dois anos de separação permitiram-lhe, como é de fácil compreensão, aprimorar a sua técnica no campo da rima). Contudo, volto a frisar, não existe amor como o primeiro. De volta a 2016. Era a noite dedicada ao hip hop – enésimo capítulo da cansativa vontade de segregar os géneros musicais ao invés de se construírem dias heterogéneos. Já tinha assistido aos espectáculos de Mike El Nite (excelente actuação no Palco Antena 3, perante uma plateia bem composta que ocupou a escadaria exterior da Arena ribeirinha; falhei Slow J no mesmo espaço, minutos antes, para minha infelicidade), Capicua (vitória da líder da Guerrilha Cor-de-Rosa no espaço montado debaixo da imponente pala de Siza Vieira) e Orelha Negra (palavras para quê? Ainda está para chegar o dia em que este quinteto fantástico desilude ao vivo). Tudo perfeito, portanto. De La Soul terão sido os grandes sacrificados da noite. Não prestei grande atenção ao concerto, para ser franco (colmataria essa falha em 2019, assistindo serenamente à prestação embutida no evento Gods of Rap, em Glasgow, que trouxe também DJ Premier, Public Enemy e Wu-Tang Clan). O meu foco já não conseguia desviar-se da grande estrela da noite (aqueles que me conhecem e que vão seguindo esta crónica sabem da minha devoção por este jovem prodígio de Compton). Pouco faltava para a entrada de K-Dot em cena. A Arena lisboeta fervilhava de forma díspar – afinal de contas, este também era o rescaldo de uma vitória da Selecção Nacional no Campeonato Europeu de Futebol de 2016. Ouviam-se cânticos, a celebração era imensa em todos os sectores e quadrantes da sala oval (e em todo o território nacional, diga-se de justiça). Lembro-me perfeitamente do momento zero do espectáculo. Tema instrumental para acertar as agulhas da banda e retocar alguns pormenores a nível de mistura e tiro de partida ao som de “Untitled 7”, canção da compilação untitled unmastered.. O tema, que tem como propósito um convite à levitação, foi eficaz na sua missão. No espaço de segundos, o pavilhão todo correspondeu ao pedido do anfitrião e elevou-se, flutuando sobre as rimas e instrumentais emanados do palco. Eu, que a dada altura devo ter saltado mais do que um jogador da NBA em frenético treino de encestamento (peço desde já desculpa pelos dois ou três derrames de cerveja que provavelmente terão atingido terceiros…), não parei sequer para respirar, de tal forma que nem consegui sacar o telemóvel do bolso para tirar uma fotografia que seja, prova que preferi viver o momento ao invés de perder tempo a registá-lo. No final, depois do banho de música por parte de Lamar e da onda gigante de afecto vinda do público (certamente se recordarão do momento em que o rapper retirou o in-ear do ouvido para sentir o espaço em ebulição), outros banhos obrigaram-me a comprar uma t-shirt nova na zona do merchandising. Tinha sido um concerto bem celebrado e muito bem aproveitado. À saída, um misto entre alegria por ter marcado presença em tal acontecimento e tristeza pelo vazio que normalmente se sente quando algo de muito bom chega ao fim. Terá sido das poucas vezes na minha vida em que experienciei dois sentimentos opostos no mesmo instante e com a mesma intensidade.

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