Londres orou aos Gods of Rap numa celebração da história do hip hop de Nova Iorque

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTOS] Luke Dyson

Surpreendentemente — ou talvez não… — o público que acorreu a Wembley, à SSE Arena, para assistir à noite inaugural da digressão Gods of Rap que junta os De La Soul, Public Enemy e Wu-Tang Clan não foi todo forçado a deixar filhos em casa. Na verdade, havia de tudo: alguns pais já entrados o suficiente para poderem levar os filhos já adultos, ou quase, ao concerto, millenials que ainda nem sequer tinham nascido quando os álbuns celebrados nesta digressão foram originalmente lançados e, sobretudo, trintões, muitos trintões. A t-shirt era, pois claro, peça de roupa fundamental na indumentária escolhida por boa parte da audiência. Vitória esmagadora para as t-shirts dos Wu, sobretudo entre os mais novos — afinal de contas “Wu is for the children” — e entre as mulheres — não parecia haver, a julgar pelas t-shirts pelo menos — fãs dos De La ou do grupo de Chuck D, com praticamente todas a declararem-se devotas do templo de Wu-Tang. Curioso…

Já dentro da arena, podia finalmente contactar-se com a banca de merchandising, com os caps a serem exclusivamente dominados pelo W, e as t-shirts a celebrarem a ocasião com várias combinações do logo da digressão Gods of Rap. Muitos clientes, como seria de esperar, a quererem levar para casa uma recordação desta peregrinação tão especial.

E às 19 em ponto, uma hora depois da abertura de portas, DJ Premier dava início à missa.

Host imparável, que comanda com igual autoridade os pratos e o microfone, Preemo sabia bem ao que vinha. Posicionado do lado esquerdo do palco, ladeado pelos ecrãs gigantes que exibiam o seu logo, com o braço de um Technics a deixar muito claro qual o mister em que se distingue este artesão, o DJ e produtor começou por desfiar um longo novelo de clássicos, com bombas como “Nas is Like” a deixarem o público, que por esta altura ainda não preenchia sequer metade do pavilhão, em ponto de rebuçado. E quando as primeiras notas de “Paid in Full” se fizeram ouvir, Preemo pediu vénia para Eric B & Rakim — se era de Gods of Rap que tratava esta eucaristia, Rakim Allah não podia faltar… — enquanto apelava ao povo “sing the bassline, c’mon sing the bassline”. “Sound of da police” de KRS One foi de, igual forma, cantada a uma só voz…

Logo após a actuação dos De La Soul (e já lá iremos), Preemo regressou uma vez mais para preparar caminho para os Public Enemy (idem aspas…) e ainda se apresentou uma última vez para aquecer a multidão que entretanto já preenchia todos os lugares da arena (sensivelmente do mesmo tamanho que a nossa Altice…) e que aguardava a chegada do enxame.

Depois dos homens de 3 Feet High…, e aproveitando a sintonia de vibrações com a Native Tongues, Premier homenageou Phife Dawg e tocou A Tribe Called Quest. Ouvir Lou Reed ali samplado em “Can I Kick It” lembrou-me, aliás, que a última vez que estive em Wembley foi em 1993, para assistir a um dos concertos do breve regresso às lides dos Velvet Underground, a banda de culto que o homem de Transformer criou na segunda metade dos anos 60, na mesma Nova Iorque que serviu de berço ao hip hop. Podem achar que não, mas isto está mesmo tudo ligado.

DJ Premier mostrou-se perfeitamente consciente do que se estava ali a celebrar — “this is the sound of real hip hop”, exclamou a dada altura —, mas não deixou de relembrar heróis tombados: além de Phife, também Prodigy foi evocado, com “Shook Ones” a abanar, definitivamente, os muitos milhares ali presentes, além, claro, de Big L, de Guru e dos Gang Starr, que mereceram uma secção especial no seu último set. E, enquanto staff da produção lhe ia pedindo que se estendesse um pouco mais porque devia haver algum atraso por parte dos Wu-Tang, Preemo teve até tempo para jogar um jogo com a audiência a que chamou “sing along with hip hop” pedindo ao público, já ao rubro, que juntasse a sua voz a clássicos de Nas, Das Efx, Fugees, Snoop Dogg, Fresh Prince ou Naughty By Nature.

Preemo é um host incrível que sabe mexer com as emoções do público e que coloca a música à frente dos skills, que indubitavelmente possui, preferindo mostrar ser um DJ moldado pela atmosfera e pela pressão típica dos clubes de Nova Iorque. Tem, obviamente, um lugar invejável na história. Dificilmente se poderia pensar em alguém mais apropriado para pontuar esta celebração. Nota máxima para o DJ.

O mesmo não se poderá exactamente dizer dos De La Soul. O grupo que tinha a ingrata missão de inaugurar esta visita ao Monte Olimpo dos Gods of Rap meteu na cabeça que os pratos fortes do banquete ainda estavam para chegar e chegou ao palco com um toque de birra na atitude. Trugoy voltou a meter-se com os fotógrafos — “I know you’re just doing your job, but just for this one put your cameras down” — tal como já tinha feito em Lisboa, mandaram bocas a Justin Bieber e Britney Spears, como reacção à profusão de caras de gente jovem no público, e quase se esqueceram que a premissa do concerto deveria ser a viagem, tal como sugerido aliás pelos visuais exibidos nos ecrãs gigantes, por 3 Feet High and Rising, o seu álbum de estreia que muito recentemente completou 30 anos. Preferiram tocar outro material, começando pelo que soou a algo novo, passando por Stakes is High, que valeu pequena homenagem a J Dilla, e só passando pelo trabalho inaugural — ouviu-se “Me, Myself and I” — mesmo a encerrar a sua apresentação… No final da noite, flyers distribuídos à porta apontavam para uma festa num clube com Maseo como DJ, o que relembra que para estes veteranos esta, como qualquer outra aliás, é um “grind date” e que esta é a sua profissão e que, antes de tudo o resto, eles estão aqui porque têm mesas que precisam de ter comida em cima e famílias que precisam de ser cuidadas. Entendido. Ainda assim, podiam ter tocado mais de 3 Feet High…



Já Chuck D trouxe para Wembley a sua renovada visão dos Public Enemy, ladeado por dois membros da S1W (Security of the 1st World), os bailarinos que mantêm a performance ligada à história de combate afro-americana que remonta aos Panteras Negras, um hypeman e um talentoso DJ Lord, certeiro no scratch e com direito a slot próprio para brilhar sozinho a meio de concerto. Longe, portanto, do colectivo que criou It Takes a Nation of Millions to Hold Us Back, em 1988, o álbum que se celebra nesta digressão. Tal como aconteceu com os De La, também os Public Enemy se desviaram do guião para apresentarem temas como “Can’t Truss It”, “Welcome to the Terrordome”, “Fight The Power” ou “Harder Than You Think”, mas sendo mais generosos nos clássicos retirados do álbum em causa, com passagens estrondosas e bem oleadas por “Black Steel in The Hour of Chaos”, “Don’t Believe the Hype” ou, sobretudo, “Bring The Noise”, com o veterano Chuck D (que completará 59 anos no próximo Verão!!!) a deixar claro que continua com o seu arsenal de flows intacto. E com a verve política afiada: pediu um “middle finger” para Donald Trump e para o Brexit, mas a julgar pelo ar (bem sei que não se deve fazer tal coisa…) de muitos dos blokes presentes, provavelmente muitos seriam até defensores do “leave”. Paradoxos há em todo o lado, certo? Uma palavra mais para o louvável pormenor da menção de Nipsey Hussle ao lado de Biggie e Tupac por parte de um Chuck D que nunca escondeu que “Elvis nunca lhe disse um c@*#€#&#&”, mas que reconhece e celebra outro tipo de heróis tombados.

E os Wu-Tang? Os rapazes de 36 Chambers comportaram-se à altura do seu estatuto de cabeças de cartaz desta digressão e assinaram o mais longo dos concertos perante uma arena já preenchida como um ovo e de mãos no ar a fazer o símbolo do W. Ter aquele enxame em cima do palco resulta sempre algo caótico, mas isso faz parte do seu charme. O som, claro, nada ajudou, mas essa foi uma característica constante toda a noite, em parte certamente motivada pela localização de quem assina estas linhas dentro da massiva sala, em parte também causada pelas pobres características acústicas da própria arena, mas também, inevitavelmente, responsabilidade de quem operava a mesa: um pouco menos de graves, mais médios, talvez um pouco mais de compressão nas vozes tivesse ajudado tudo a soar mais nítido. Mas, hey…, eu não sou técnico, por isso não consigo sequer imaginar o que custará manter 8 microfones equilibrados… Adiante.

O enxame de abelhas assassinas passou praticamente o alinhamento todo de Enter The Wu-Tang (36 Chambers) em revista, com momentos previsivelmente escaldantes a confirmarem-se nas passagens por temas como “Wu Tang Clan Ain’t Nuthin ta F’Wit” ou “C.R.E.A.M.”, cantados a uma só voz por uma congregação absolutamente rendida ao sermão professado por Raekwon, Ghostface Killah, Inspectah Deck, Gza, Cappadonna e demais companheiros de armas. O carisma dos Wu é um fenómeno e uma das mais veementes provas da força do hip hop como cultura e compensa o facto, algo incompreensível se pensarmos bem, deste tipo de produções se limitar a adicionar à velha fórmula de apresentação num clube — microfones + DJ — uns quantos gráficos projectados em grandes ecrãs. Para uma audiência deste tamanho, em 2019, espera-se um pouco mais.

Por outro lado, ninguém ali parece ter saído defraudado. Os Wu desfiaram um longo novelo que chegou até “Gravel Pit”, que deu para uma necessária e merecida homenagem ao herói tombado Ol’ Dirty Bastard, com passagem simbólica e apoteótica por “Shimmy Shimmy Ya”, e para todas as lendas em palco terem o seu devido momento de brilho. Antes do concerto, um gigante ecrã de leds montado no estádio de Wembley anunciava a vinda dos Eagles e não há como não pensar que ver De La, PE e Wu em 2019 será como ter ido espreitar, sei lá, os The Who em 1993, quando um bilhete para os Nirvana faria provavelmente muito mais sentido para quem pudesse contar 20 e poucos anos à época. Mas, lá está, se eu não deixei escapar a oportunidade de ver os Velvet Underground ali, na mesma e velhinha Wembley Arena, em 1993, por circunstâncias para lá do meu controlo (malditas máquinas do tempo que nunca mais são inventadas…) me terem impedido de os apanhar no Max’s Kansas City em 1967, também não iria enjeitar a possibilidade de estar na mesma sala que os De La Soul e os Public Enemy e DJ Premier e boa parte dos Wu-Tang Clan em 2019 porque, afinal de contas, a Grande Maçã do arranque dos anos 90 parecia tão longínqua naquele tempo como hoje uma ida a Marte. Mas tudo parece possível agora, certo? Até a descida à terra dos Gods of Rap. Eu sei que sim. Aconteceu ontem, em Londres, e eu estava lá. Louvados sejam eles todos.


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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