Crónicas de um HipHopcondríaco #33: noves fora nada

[TEXTO] Manuel Rodrigues [ILUSTRAÇÃO] Riça

Lembro-me bem do local e contexto em que ouvi Kanye West pela primeira vez. Estava na paragem de autocarros de Almancil à espera de transporte para mais um dia de aulas na Escola Secundária de Loulé. Eram sempre muito enriquecedores os meus trajectos casa-escola. Por norma, esta era a altura em que a malta partilhava as descobertas da noite — ou do fim de semana — anterior. Trocavam-se artistas, excertos de músicas, dicas interessantes e construíam-se por vezes rimas novas em torno do material existente: sendo os instrumentais em questão fortes, ensaiavam-se versos baseados nos flows exercitados pelos rappers. Eram momentos de extrema fertilidade criativa no interior do carburante transporte público. Não só as viagens se tornavam mais curtas como se edificavam importantes ideias para o trabalho de casa. Dos instrumentais que se ouviam, nascia uma inspirada mão cheia de loops de bombo e tarola; das rimas que se consumiam, preenchiam-se cadernos de versos carregados de influências nacionais e internacionais.

Foi numa dessas viagens que me cruzei pela primeira vez com “Jesus Walks”, a minha estreia com o génio de Chicago. Fora-me apresentado pelo meu amigo Igor como algo diferente de tudo aquilo que andávamos a ouvir na altura. E era, sem dúvida alguma. Não necessariamente do ponto de vista estético ou técnico mas sim de conteúdo. Um tipo a rimar sobre a sua fé de uma forma desenfreada e desligada dos cânones das vivências de rua e do background gangster? Raríssimo. Uma música que se aproximava muito mais de uma oratória religiosa do que de um hino de bairro? Muito improvável. Uma fórmula que vingaria muito mais depressa no altar ou na nave de uma igreja do que no interior das quatros paredes de um clube hip hop? Impensável. Ouvir um rapper do alto do seu púlpito a pregar um sermão de devoção a Cristo era algo de uma frescura ímpar e elevado nível de sinceridade. Impossível não venerar os versos “so here go my single dog radio needs this/ they say you can rap about anything except for Jesus/ that means guns, sex, lies, video tapes/ but if I talk about God my record won’t get played”.

Kanye West sempre teve uma capacidade única de impressionar. E isso aconteceu por diversas vezes. Não só em “Jesus Walks”, single do álbum de estreia The College Dropout, mas também em “Diamonds from Sierra Leone”, emblema de Late Registration que versa sobre a questão da guerra civil na Serra Leoa e as crianças que são obrigadas a trabalhar em minas para extrair os diamantes de sangue que financiam essa mesma guerra. Voltou a fazê-lo em Graduation, quando samplou o êxito “Harder, Better, Faster, Stronger” dos Daft Punk, deixando tudo rendido às suas qualidades enquanto produtor e à capacidade de propor ao hip hop novos trajectos e interpretações, algo que se repetiria em My Beautiful Dark Twisted Fantasy com a releitura do clássico “21st Century Schizoid Man”, dos King Crimson. 808s & Heartbreak, por exemplo, foi uma verdadeira pedrada no charco. Houve quem tivesse elogiado o recurso ao auto-tune como gesto de bravura e vontade de transformar uma ferramenta de trabalho em instrumento musical, mas houve também quem o tenha criticado por este ser por muitas vezes visto como uma espécie de atalho preguiçoso para vocalistas. E não acaba aqui. Yeezus é uma obra de arte que navega no sentido oposto da pop convencional, albergue sombrio dos avassaladores hinos “Black Skinhead” e “New Slaves”; The Life of Pablo sugere-nos uma mudança na nossa percepção de obra finalizada e selada, mostrando-nos que um álbum pode ser mutante, flexível e moldável à própria vontade, arrependimento e ambição do artista. O curto e mal amado Ye também teve o seu peso na carreira de West por ser um documento criado no rescaldo da controversa entrevista com Charlamagne Tha God e da revelação pública do seu apoio a Donald Trump, além, claro, de toda a condição psíquica inerente — a vontade de ouvir o que Kanye West teria para “dizer” depois disto tudo foi um combustível para a audição deste que é o seu penúltimo disco.

De uma forma ou de outra, com opiniões por vezes convergentes e outras vezes antípodas, Kanye West sempre conseguiu ser um agitador de mentes, destabilizador por natureza. Seria de esperar que o seu recentemente editado álbum seguisse o mesmo caminho. Infelizmente, JESUS IS KING, não é mais do que um fosso criativo, um trabalho pouco inspirado do qual se torna quase impossível espremer uma gota. A produção é pobre, sem os destaques que outrora nos obrigavam a curvar o corpo numa vénia em jeito de adoração profética, seguidas de frases como “este gajo é mesmo um génio”; as letras são paupérrimas, sem os versos que em tempos nos convidavam a análises profundas do conteúdo e das ideias transmitidas, normalmente sucedidas de expressões como “como é que este tipo se foi lembrar disto?”. JESUS IS KING é um perfeito vazio, uma repetição de zeros que levanta a questão: será que algum dia Kanye West nos vai voltar a impressionar? O último parágrafo da crítica publicada pela Pitchfork resume de forma magistral este sentimento: “os álbuns de Kanye costumavam ampliar as nossas perspectivas e imaginação. Agora iluminam os contornos do seu mundo cada vez mais encolhido”.

E eu que só queria voltar a entrar naquele autocarro e ficar novamente boquiaberto com a magnificência do profeta. Jesus já foi rei, esperemos que um dia o volte a ser.


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