Kanye West // JESUS IS KING

[TEXTO] Beatriz Negreiros 

Mais de um ano depois da sua prometida chegada, o nono projecto a solo de Kanye WestJESUS IS KING, foi finalmente lançado esta sexta-feira. Deus pode ser grande, de acordo com as palavras de um homem transformado por Cristo; mas West já não o consegue ser há muito tempo, por muito que queiramos acreditar nele. 

Viajar no tempo até 2004 e explicar a um fã de The College Dropout quem é Kanye Omari West hoje em dia seria motivo de dor de cabeça para ambas as partes. Quando, nos primeiros anos da década passada, o ambicioso produtor e rapper de Chicago revelou uma perspectiva nova sobre o que é fazer-se hip hop quando nunca se trocou balas ou se vendeu droga, o mundo interessou-se por um miúdo cromo que falava apenas sobre o que sabia. Mais tarde, chegariam novas surpresas: os monstruosos hinos de Graduation (2007), a sensibilidade de 808s & Heartbreak (2008), e um disco que viria a transformar a década que então se iniciava, o requinte epopeico de My Beautiful Dark Twisted Fantasy (2010). Seria o ponto de viragem: o momento no qual Kanye West desapareceria para dentro de si mesmo, metamorfoseando-se num bicho horripilante cheio de contradições espinhosas e cada vez mais difíceis de compreender.

Em 2019, está complicado perceber quem é Kanye West e o que quer. De lá para cá, chegou-nos o ambicioso mas caótico Yeezus (2013), no qual o artista caiu a pique nas suas ilusões de grandeza, e The Life of Pablo (2016), um espelho multifacetado de uma mente embaralhada que demorou a fixar-se na sua forma final, e que, mesmo assim, soa sempre a inacabado. Mas, olhando para trás, seria talvez o seu último álbum “a sério”. Desde 2016 que é quase impossível perceber o que é que Kanye West quer de facto fazer com a sua música.

Actualmente, West só existe verdadeiramente atrás da mesa — por exemplo, a produzir alguns dos melhores pequenos álbuns do ano passado, como Kids See Ghosts (a meias com Kid Cudi) ou Daytona (ao lado de Pusha T), todos chutados para o mundo na sequência de um prolífico período de isolamento artístico nas montanhas de Wyoming. Foi no vale de Idaho que nasceu também ye (2018), álbum que antecede JESUS IS KING. Em menos de meia hora (como seria o caso para todos os projectos que viriam), Kanye West demonstra que já não existe. Entreguem-lhe uma mão-cheia de discos para samplar e ainda consegue brindar-nos com instrumentais suculentos; mas metam-lhe um microfone na mão e o homem não sabe o que fazer. 

Se ye nos mostra um Kanye West errático que dispara tiros em todas as direcções a ver se por acaso algum acerta no sítio, JESUS IS KING, que finalmente nos chegou às mãos esta sexta-feira, dia 25 de Outubro (após inúmeros atrasos) aparenta desvendar uma solução para o mistério. Olhamos agora não para um Kanye West que, há menos de um ano, proclamava orgulhosamente “I’m a sick fuck / I like a quick fuck”, mas sim para um Kanye West renascido, que se reencontrou consigo ao mesmo tempo que se reencontrou com a sua espiritualidade. É verdade: Kanye West agora é de Jesus, e quer fazer-nos acreditar na sua entrega apaixonada ao Senhor e à igreja com toda a força, num disco dedicado a Deus em que não há lugar para palavrões ou humor sardónico. Mas JESUS IS KING, um disco que se disfarça de esclarecimento, dá-nos ainda menos pistas sobre quem é ou quem se tornou Kanye West do que a anarquia bombástica de Ye.  



Os fãs aguardavam pacientemente que o nono projecto do rapper de Chicago aparecesse, mas estava complicado. Primeiro, veio o anúncio de um novo álbum, apenas três meses depois do lançamento de ye, na altura baptizado de Yandhi, disco esse que nunca chegou no devido mês de Setembro. Com o virar do ano novo, as preocupações de West pareciam outras; no primeiro domingo de 2019 iniciou uma série de performances, Sunday Service, e pequenos vislumbres capturados por telemóveis de familiares e amigos mostravam um West diante do teclado num delírio religioso, rodeado de coros gospel que transformavam músicas passadas em hinos de igreja ao ar livre. O anúncio de um álbum nessa orientação deixou água na boca, que viria a secar a cada data de lançamento passada. 

É curioso que um novo lançamento de Kanye West seja um acontecimento tão marcante, que faça estremecer as redes sociais com dissecações de todos os segundos de nova música, quando JESUS IS KING tem tão pouco para se estudar. Tal como prometido, é um álbum profundamente entregue à causa religiosa, cada canção aclamando o corpo de Cristo mais furiosamente do que a anterior, cada verso pedido de emprestado à Bíblia Sagrada. Dizer que é um álbum de gospel é, sem dúvida, certeiro: é algo que nos apercebemos logo nos primeiros momentos da faixa de abertura “Every Hour” (uma canção de adoração fervorosamente cantada pelas vozes do Sunday Service Choir, que ajudam West a entregar a mensagem divina por diversas vezes ao longo do novo álbum). No entanto, à medida que o foco se desvia das harmonias entusiásticas do coro e cai sobre as palavras de West, sentimos menos que ouvimos um padre experiente e mais que escutamos um miúdo que gostou muito da sua primeira aula de catequese. As considerações de West sobre o seu reencontro com a fé são desperdiçadas em frases vazias que repetem vezes e vezes sem conta os mesmos sentimentos ocos sobre o que é dedicar uma vida a Deus.

West nunca foi particularmente bom com as palavras: a sua longa carreira deu-nos produções magníficas, sim, mas sempre obrigatoriamente acompanhadas por analogias e trocadilhos desastrados. Mas nunca escreveu tão mal como em faixas como “Closed On Sunday”, na qual a morosa guitarra acústica é imediatamente envenenada por letras inexplicáveis, tais como: “closed on Sunday/ You my Chick-fil-A/ You’re my number one/ With the lemonade (talvez o mais curioso facto acerca da pior canção de Jesus Is King seja o boicote por parte de alguns críticos musicais a todo o disco devido à referência de West à polémica cadeia de restaurantes norte-americana, que tem vindo a expor retórica empresarial vincadamente anti-homossexual). De facto, a nível lírico, JESUS IS KING é de longe o pior disco de West, um feito admirável para o homem que há um ano nos dizia: “I love your titties/ ’cause they prove I can focus on two things at once”. A diferença aqui é que as palavras de West já não têm sequer um único pingo de ironia que nos faça acreditar que se está a fazer de parvo de propósito; em JESUS IS KING, a caneta só escreve verdades muito sérias, o que talvez seja ainda pior. 

Mas, mesmo assim, há qualquer coisa que brilha longe no meio da mediocridade que assalta a maior parte das produções de JESUS IS KING. É uma espécie de diamante em bruto, à espera de ser esfregado até à clarividência num estúdio durante mais alguns meses de trabalho. “Everything We Need”, tema recuperado do extinto Yandhi, emprega os vocais fogosos de Ty Dolla $ign e Ant Clemons para revelar um dos melhores refrões do disco, pecando apenas pela sua curta duração. Pelo contrário, “Water”, um tema já explorado por West e pelo seu coro em Sunday Sessions passadas, estende-se durante demasiado tempo — apesar de ter menos de três minutos — rapidamente transformando o instrumental pachorrento numa seca tremenda (ironicamente). 

“God Is” teria tudo para ser um dos temas mais desastrosos de todo o álbum: empopado mais uma vez pelos coros de igreja pujantes, West despe-se de qualquer disfarce estético para expulsar dentro de si todos os demónios, quebrando a voz numa rouquidão cantada que parece causada pela possessão do seu espírito por algo fora de si. No entanto, acaba por ser uma das poucas faixas de JESUS IS KING na qual a falta de jeito de West para as palavras é mais enternecedora do que embaraçosa, resultando na faixa mais honesta de todo o álbum. 

De facto, os melhores momentos de JESUS IS KING acabam por ficar reservados para aqueles que aguentaram a missa até ao final. Após a emotiva “God Is”, segue-se a reflexão de “Hands On”, na qual um Kanye progressivamente mais articulado chama para a linha da frente os teclados submersos e a voz sumarenta de Fred Hammond. “Use This Gospel”, a penúltima faixa do álbum, desvenda a surpresa da reunião dos Clipse — Pusha T e No Malice não se encontravam na mesma música desde 2013, e o verso deste último é o melhor trecho de palavras de todos os vinte e sete minutos de JESUS IS KING. Ah, e também há espaço para um solo do saxofonista mais odiado de toda a América, Kenny G, que resulta muito melhor do que teria direito.

Com “Jesus Is Lord”, West fecha mais um confuso capítulo na sua discografia com esplendorosos sopros e uma aclamação divina que, apesar de sincera, já vem repetida pela enésima vez, sabendo a muito pouco. As palavras perdem o seu significado: nem os instrumentais, que continuam inspirados, as conseguem elevar ao patamar de serem consideradas alguma coisa senão pequenos vazios escritos à pressa de provar algo. 

Em JESUS IS KING, West parece tentar a todo o custo demonstrar ao mundo que sabe fazer gospel. O mais curioso é que já o fez. Em 2016, no seu último disco que merece esse nome, abriu as hostes com um dos maiores gigantes da sua discografia, “Ultralight Beam”. West conduz Chance The Rapper, Kirk Franklin, Kelly Price e o coro circundante num exercício de fé colossal, que, a cada golpe desfeito pela batida imensa, aproxima até o mais ateu a Cristo. West sabe fazer bem gospel. Mas isso já sabíamos. JESUS IS KING prova que também o sabe fazer mal. Tal como ye, o novo disco deixa-nos com mais perguntas que respostas — como é frequente alguém sentir-se após uma reflexão espiritual deste género. Apenas o futuro saberá se um dia West voltará a si e a nós de uma maneira que consigamos compreender. Há que ter fé.


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