Black Bombaim com Jonathan Saldanha, Luís Fernandes & Pedro Augusto: “Fomos uma espécie de cobaias dos produtores”

[ENTREVISTA] Rui Miguel Abreu [FOTO] Direitos Reservados

“A partir de uma ideia musical apurada ao longo de vários anos de estrada, os Black Bombaim desenvolveram uma sonoridade cada vez mais única. A relação entre os três instrumentos, a sonoridade e a personalidade forte na execução de cada um deles confere-lhes essa identidade. Para mim, é essa alquimia entre o Ricardo, o Tojó e o Senra que torna a música deles tão especial. Mais do que o conteúdo formal e musical”. Foi assim que Luís Fernandes, membro dos peixe : avião, director artístico do gnration e do festival Semibreve e um dos três colaboradores do novo projecto dos Black Bombaim, descreveu entusiasticamente a banda barcelense.

E continuou, virando-se para a sua própria experiência: “Tendo, no passado, colaborado com eles em diferentes ocasiões e sendo um entusiasta da sua música, fiquei feliz por voltar a ter essa oportunidade. O facto dos moldes desta colaboração serem tão particulares tornou o desafio ainda mais interessante. Senti que teria de cumprir a difícil tarefa de respeitar a identidade da banda e, paralelamente, transformá-la de acordo com uma visão musical minha. A base para todo o processo foi transportar o som dos Black Bombaim, literalmente, para um domínio auto-referencial no qual foi usado como matéria-prima para esculpir uma nova música, inspirada nas metodologias e técnicas da música eletroacústica. O processo passou por gravar múltiplas camadas de instrumentação da banda, camadas essas que serviram de base para a reconstrução da música deles. Usamos técnicas de música generativa aplicadas a um sistema de síntese modular. Fornecemos os elementos e as regras para que a música fosse construída pelas máquinas. Foi um processo bastante contra-natura para a banda, mas que, quero acreditar, lhes abriu novas perspectivas.”

Jonathan Saldanha (HHY & The Macumbas) e Pedro Augusto (Ghuna X) completam o trio que se juntou a Tojó Rodrigues, Ricardo Miranda e Paulo “Senra” Gonçalves neste disco desenvolvido no âmbito do Criatório, concurso promovido pela Câmara Municipal do Porto.

Estivemos à conversa com o baixista dos Black Bombaim sobre tradição rock, as colaborações constantes ou os apoios a quem desafia as normas.



A ideia de “banda” no rock sempre assentou na criação de hábitos e de fórmulas, no entanto os Black Bombaim parecem tão preocupados em construir uma obra quanto em questionar essa ideia tradicionalmente associada à banda de rock. Sentem isso? A tradição é inimiga da inventividade?

Nem sempre, mas ficar demasiado agarrado à tradição pode levar a uma monotonia de que nós, depois de andarmos nisto há já algum tempo, queremos fugir. Começamos como qualquer outra banda de rock — power-trio de guitarras ao alto e som forte — mas esse caminho já o trilhámos e adorámos fazê-lo. No entanto, na altura de criar música nova, procuramos isso mesmo, algo novo. A tradição está lá, mas procuramos sempre apimentar o prato com alguma especiaria nova.

Os Black Bombaim foram sempre ávidos colaboradores — La La La Ressonance, Rodrigo Amado, Peter Brotzmann. Será essa, precisamente, uma forma de perturbar o conforto das fórmulas ou apenas um desejo de se confrontarem com o desconhecido?

Ambas as coisas! É ao colaborar com diferentes pessoas que trazemos algo de novo à mistura, e maior parte das vezes saímos da nossa zona de conforto ao criar música, e isso é extremamente estimulante.

Como surgiu este desafio para a residência que teve lugar entre finais de 2017 e inícios de 2018 e de que resulta agora o novo álbum? O que é que foi diferente neste desafio dos que resultaram em trabalhos anteriores?

Este projecto partiu de conversas que tivemos com o Joaquim Durães (Lovers & Lollypops) sobre o que iríamos fazer a seguir: se faríamos um álbum novo ou uma pausa nas edições. Decidimos que ao editar algo novo, teria que ser realmente especial e uma volta completa ao nosso formato, porque voltar ao que já fizemos anteriormente estava fora de questão. Então daí surgiu a ideia “maluca” de convidar três produtores com quem já tínhamos trabalhado para fazer um novo álbum. Neste caso, em vez de ser uma espécie de jam ou eles tocarem por cima de composições nossas, os produtores tomariam as rédeas. Fomos uma espécie de cobaias das suas ideias.

O que pensaram da possibilidade de trabalharem com o Luís, o Jonathan e o Pedro? O que é que já conheciam de cada um deles, o que pensaram que cada um deles poderia acrescentar aos caminhos que os Black Bombaim já tinham até aqui trilhado?

Já tínhamos trabalhado com eles no passado e de diversas formas. O Pedro masterizou o nosso primeiro LP Saturdays and Space Travels e juntamente com o Jonathan como convidados no Titans sob o pseudónimo Ghuna X & HHY. O Luís participou como convidado no Far Out e nosso companheiro no Black Bombaim & La La La Ressonance. A escolha dos três pareceu-nos lógica porque, além de de sermos fãs dos seus trabalhos, eles também conhecem a banda e essa química já existente torna as coisas mais fluídas, mesmo sendo um trabalho pragmático e de muito planeamento.

Como se processou o trabalho com cada um deles? O que é que diriam que distinguiu cada um dos encontros?

Todos os encontros foram bastante distintos, quer pela abordagem de cada um, quer pelos locais onde levamos a cabo as residências. O Jonathan levou-nos para a câmara de reverberação da Faculdade de Engenharia do Porto, onde lá dentro o reverb podia chegar a algo como 15s. Isso fez com que abrandássemos imenso o andamento para se sentir o som avassalador que ecoava dentro daquele bloco de betão. O Pedro quis explorar o conceito de repetição, causando o efeito hipnótico que sentimos ao tocar por cima de uma espécie de loop de percussão, com variações mínimas ao longo de 14 minutos. Levámos um setup bastante simples para o Círculo Católico de Operários do Porto e desenvolvemos o tema lá durante uns dias. O Luís quis explorar conceitos de eletroacústica e desfigurou a nossa música. Gravámos um tema digamos “normal” e ele pegou em excertos e processou-os pelo sintetizador modular. Por incrível que parece ao escutar o tema, não há nada mais a tocar que uma guitarra, um baixo e bateria. Foi apresentado no Palácio dos Correios na Avenida dos Aliados em quadrofonia, com as pessoas sentadas em roda à volta do “palco”.

O álbum soa, curiosamente ou talvez não, muito coeso, o que é um elogio ao vosso carácter, obviamente. Por alguma razão esperava algo mais contrastante… Não sei se isto é bem uma pergunta, mas pede, de qualquer maneira, o vosso comentário.

Na verdade não sabia o que esperar. Cheguei a ter o sentimento que seriam três actos completamente ao lado uns dos outros e que podiam não funcionar em conjunto no disco, mas no final realmente está forte e coeso. Acho que mesmo que cada um dos temas tenha abordagens e conceitos diferentes, a base fundamental e primordial do que são os Black Bombaim está lá a marcar presença vincada, e isso nota-se na coesão que falas.

Como é que se vai traduzir em palco esta música? Vão estar com cada um dos produtores/provocadores com que trabalharam?

Para já não temos planos concretos de apresentar este disco ao vivo, pois é uma tarefa extremamente difícil de concretizar, como por exemplo replicar uma câmara de reverberação num palco convencional. Mas estamos a estudar hipóteses de tornar isto possível.

Esta música mais exploratória, mais aventureira se quiserem, que não se encaixa em playlists de rádios, que não angaria likes e views, tem uma dinâmica de existência muito própria e acaba por depender de um certo tipo de apoios para subsistir. Não sei se a residência que fizeram e que conduziu ao disco se pode encaixar aí, mas pedia-vos um comentário mais directo ao ecossistema de salas que apoiam este tipo de criação mais livre e de estruturas que estão em sintonia com a arte mais avançada. Portugal acolhe bem quem desafia normas e inventa novos caminhos na música?

Todo este projecto apenas foi possível com a bolsa de apoio à cultura Criatório, promovida anualmente pela Câmara Municipal do Porto. Seria extremamente complicado executar estas residências sem apoio. Existe um número razoável de pessoas ou instituições que têm abertura e visão para apoiar aventuras desta natureza, mas o financiamento é sempre um tema complicado em Portugal, para o que quer que seja. Cabe a quem está no comando ter a noção de que estas iniciativas são essenciais para abrir horizontes e explorar novos caminhos, e não limitar ou sufocar as boas mentes criativas que temos por cá.


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