Batida: “A normalidade é a maior violência”

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTOS] Humberto Mouco / Bruno Simão 

Na passada terça-feira, dia 4 de Fevereiro, Pedro Coquenão, mais conhecido como Batida, mudou-se para a Casa Independente e deu início a uma residência artística que se vai prolongar até ao último dia do mês vigente.

Esta noite, às 23 horas, uma das partes importantes desta “invasão” do edifício, a musical, dá o pontapé-de-saída oficial com o autor de Dois a rodear-se de Luaty Beirão (aka Ikonoklasta), Piny, André e Gonçalo Cabral, Sani e Paulo Sabino para apresentar um “um incómodo necessário“. Todas as informações sobre horários e preços podem ser encontradas aqui.

No entanto, há muito mais para ver e ouvir: a exposição Neon Colonialismo, que tem lugar na Casa Independente e na galeria da Junta de Freguesia de Arroios, e a Rádio Normal, que poderá ser ouvida nas redondezas do prédio, completam o tridente que se propõe a desafiar ideias pré-concebidas ou normalizadas sobre uma miríade de assuntos que vão da “farsa da democracia” em que vivemos até ao sampling. Ou dizer, sem subterfúgios, que “o colonialismo foi um grande erro e o colonialismo é um grande erro. E nós ainda não assumimos isto”.

Sentado num “sofá muito fixe” numa das salas do terceiro piso do espaço localizado no Largo do Intendente, o multifacetado artista dissertou, em modo livre mas completamente lúcido, sobre o Alojamento Artístico Local, a liberdade de se ser o que se quiser e, entre outras coisas, a violência da normalidade.



[Alojamento Artístico Local: o que significa?]

“O nome é uma provocação à condição de alojamento local na cidade, não só em Lisboa, mas no país inteiro. Nada contra, como não tenho nada contra o cianeto, como não tenho nada contra montes de coisas. Até água, adoro água, no entanto, quando é demais, um gajo afoga-se. E eu adoro água [risos].

É um início de conversa para podermos falar sobre o que nós quisermos. Em vez de estarmos falar só sobre um sítio fancy no centro da cidade ou de um museu, que já se percebe logo o que é que é, esta casa tem uma ambiguidade na sua forma de estar… Para já chama-se Casa, depois é Independente. É independente no sentido em que não depende de dinheiros públicos e vive sobre ela própria, portanto cultiva aqui uma série de coisas que às vezes não são as mais óbvias ou mais comerciáveis, mas ainda assim ela existe, ela consegue persistir, resistir e até ser viável financeiramente. E isso é muito bom. É uma prova de que a cultura pode não precisar desses apoios todos. Mas é preciso muito trabalho, alguma sorte também, a localização geográfica e um favorecimento histórico dos últimos anos que fez com que a Casa funcionasse. Aliás, se estivesse noutro lugar, ia ser muito mais complicado. E esta casa tenta também reclamar um bocado essa ideia das pessoas dos subúrbios poderem ocupá-la e eu gosto de começar logo por lançar isto como um sítio, que pode ser um alojamento, ou seja, que é uma casa que pode ser vivida. Antes era uma sala para beber copos, agora durante este mês vai ser uma sala para eu estar a trabalhar.

O Alojamento é o nome para começar a conversa e para se perceber que isto poderia ser encarado como uma residência artística temporária, mas não é: é eu chegar aqui e ocupar um bocado o prédio todo porque me foi dada essa carta branca. Já andávamos a falar há imenso tempo e eu sempre quis fazer qualquer coisa que fosse um bocadinho mais substancial do que vir cá fazer uma noite e ir-me embora. Nada contra, mas isso é sempre muito limitativo. Não tens tempo para mexer sequer colunas de um lado para o outro. E dado o tipo de culturas de onde eu venho e as coisas que gosto de fazer, às vezes parece impossível pores em prática uma cultura qualquer que venha de uma coisa de soundsystem ou uma cena mais punk em que queiras partir tudo. Depois não tens tempo para emendar.

Portanto, o que tens é este guarda-chuva ou guarda-sol enorme com um nome que é o Alojamento Artístico Local que tem que ver com, de certa forma, ocupar a casa e ocupar o que é que viver numa casa. Tenho o carro à porta, tenho as paredes da casa logo com algumas coisas, mexo em tudo o que é arte, luz, o cheiro, tudo. Mexo em tudo o que são espaços que às vezes são tidos como secundários e de transição, como a escada ou a casa-de-banho. A mim, esses espaços interessam-me tanto ou mais do que os outros porque são pouco iluminados, como os subúrbios. Interessa-me mais filmar a minha praceta no Casal de São Brás do que se calhar ir filmar bairros de lata, porque não vivi num. Mas poderia filmar. Sei que é mais exótico e pode ter mais impacto e posso filmar se for lá ter com um amigo meu, como tinha vários que viviam lá. Todos os espaços são importantes. Então, tanto me interessa mostrar o bairro de lata que existia nos anos 80, como me interessam agora os subúrbios que são feitos de um anonimato, de carne para canhão e de pessoas que já nem votam e que se desinteressaram de tudo. Algumas podem, perigosamente, ver algum brilho em cretinos que dizem uma frase ou outra assim mais forte, mas há também certamente outras coisas a crescer e eu tenho fé nessas zonas menos iluminadas e cuidadas porque acho que pode estar aí um bocado da solução, uma vez que quem está no poder e quem é visível e quem está a mexer não tem feito um trabalho que seja incrivelmente bom, nem sequer muito bom, tem feito um trabalho ok em algumas áreas. E estamos aqui: há luz, gás e electricidade, mas há muita coisa que não funciona a nível mental.

Esta casa não é um sítio que te obriga a fazer alguma coisa. Podes vir aqui e não dançar a noite inteira. Podes vir aqui e ver um musical. Podes vir aqui e só ver as peças. Podes vir aqui só tirar selfies para o teu Instagram. Como podes vir cá ver o que é que um outro artista está a fazer, tirar notas e ir para casa fazer exactamente o oposto. No fundo é isso: tu, ao fazeres o contraponto, estás sempre a dar às pessoas a hipótese de elas fazerem outro contraponto. E como artista, mais do que seres activista, é seres mais um gajo que provoque reactivismo, provoque reacções. Mais do que estares só a fazer perguntas ou só a dar respostas, é um bocadinho fazeres isso tudo e olha seja o que Deus quiser. Mas eu faço-o como uma abelha caga mel e uma aranha faz teias, portanto não é uma grande coisa. É uma coisa que um gajo tem que fazer.”


[O luxo que é viver em Lisboa em 2020]

“De repente comecei a imaginar essa ideia de um artista ocupar um sítio para estar lá a criar no centro de Lisboa. E parece um luxo. Já não parece aquela residência artística em Montemor, onde estás lá isolado e estás mesmo a trabalhar e não há mais nada para fazer. Aqui tu podes estar mesmo a trabalhar, mas estás no centro de Lisboa, num largo altamente cosmopolita. Um artista poder viver no centro de Lisboa só mesmo num contexto artístico. É quase como o James Brown, para entrar em certos sítios nos anos 60, só mesmo indo para o palco. Não podia estar no sítio, mas podia estar no palco. E aqui ponho-me no papel de artista, e sim, para viver em Lisboa, só mesmo para actuar. Mas isto não é só obviamente para artistas, é para qualquer pessoa, até porque artistas há muitos, há os artistas que são conhecidos e mediáticos e depois há as pessoas que fazem arte e que não têm que ser conhecidos. Não querem, não trabalham para isso e fazem só daquilo que é a sua arte o seu trabalho. Muitas das vezes obrigadas a ser um hobby porque o nosso investimento em cultura continua a ser muito fraco. Há, de facto, uma série de actividades artísticas que se calhar não precisam nem devem ter apoio porque vivem para elas próprias, com uma componente de entretenimento. Mas há certas coisas que não subsistem se nós não quisermos que elas existam. É como ter plantas em casa. Se um gajo não as regar, elas morrem. Mas porque é que um gajo quer ter plantas em casa? Epá, não sei, é fixe haver natureza, é fixe haver diversidade de formas de vida, não ser só cimento e gajos aqui dentro. E a cidade deveria ser isso também, uma coisa mais plural. E essa pluralidade foi posta em causa pela finança e por estas regras todas. O salário é baixo, a renda é alta, os preços das coisas também subiram muito nos últimos anos, a crise trouxe-nos muitas ideias, mas também nos deu a entender o que é que nós valíamos. E não valemos tanto como a gente pensava, porque os empréstimos foram todos por água abaixo, os bancos foram por água abaixo. Houve assaltos a bancos que eu nunca tinha visto em filmes. Eu quando era puto via assaltos a bancos e era sempre aquela coisa de ‘ah, gamaram um milhão de dólares’. Wow, era uma grande coisa, depois uns anos mais tarde já era dois milhões ou o diamante que valia não sei quê. Agora rouba-se cinco biliões de um banco na tua cara — e ninguém entrou no banco nem nada — e tu ficas um bocado abananado. Então mas espera aí, acabaram de roubar não sei quantos biliões e nós vamos pagar? Epá, que cena.”


[A necessidade de saber receber e o candongueiro enquanto veículo de divulgação]

“Há coisas que se podem fazer em casa e que eu faço desde miúdo, como por exemplo, comprar focos para meter no quarto e dar-lhe ali um ambiente ou comprar um altifalante para poder ter finalmente um deck de cassetes stereo, esse tipo de cenas como eu tinha. Eu customizava o meu quarto e depois também tinha uma cabine para o DJ, que não estava encostada à parede, estava a meio do quarto, que era para eu poder pôr música para a pista, que era o espaço entre a cama e a secretária onde a minha irmã dançava. 

Havia também toda uma cena de tentar criar um espacinho que fosse fixe para receber amigos. Foi assim que eu comecei a fazer rádio. Ao vir para esta casa pensei em fazer o mesmo. Como é que eu posso desde a porta começar a dar uma ideia de conforto e de ser um bom anfitrião? Ou, então, um convidado especial da casa que acrescenta à casa uma remistura. O que é que eu acrescentaria? Vou manter tudo o que ela já tem e vou acrescentar coisas. Cheguei ali à porta e pensei, ‘posso estacionar o meu carro à porta’. É um candongueiro que tem em si próprio mil significados associados à cultura da música. Nós cá não associamos muito o táxi à divulgação musical, hoje em dia associamos o táxi à Rádio Amália e o Uber à Smooth FM, por aí. Mas o táxi em Luanda era muito o sítio onde o gajo que acabava de produzir um beat ou uma música metia-os no CD, misturava com outras conhecidas ou não e dava ao taxista para ele andar a passar aquilo o dia inteiro, a ver se alguém comentava, pedia ou queria comprar. Aliás, ainda há dias perguntei ao MCK, ’em termos de kuduro, há aí alguma coisa nova?’ E esta foi a resposta dele: ‘tenho de apanhar um candongueiro para ver o que é que ‘tá a bater’. É assim que tu te apercebes o que é que está realmente a acontecer porque a rádio, como cá, às vezes ainda está um bocado atrasado, salvo os programas de autor. E o Spotify lá não bate. 

O carro simboliza a independência que a casa também tem. Logo à porta, antes de entrarmos em tudo, temos logo um candongueiro que simboliza um bocado essa ideia de, mesmo com um som de bosta, tu usas o candongueiro porque não tens outra hipótese ou então fazes assim como o MCK, que agora já tem o seu próprio carro, mas se quiser saber o que é que se passa… De outra maneira, na rádio, há sempre uma distância, há sempre um atraso, há sempre uma impossibilidade de erro e às vezes no erro estão coisas que tu vais gostar para o resto da vida. Músicas que não fazem sentido às vezes são as melhores. Músicas que têm um som muito mau para passar na rádio, mas tu adoras. N maquetes que ouvi ao longo da minha vida que gostei mais do que depois do som acabado. A entrada representa um bocado isso tudo e é só a porra de um carro parado.”



[A Rádio Normal e o desafiar a normalidade]

“Assumo que é uma tentativa de provocar com o que é que é ‘normal’. Nós estamos sempre obrigados a ser de alguma forma mais normais, até se quisermos mesmo os nossos pais — há uns ou outros que nos querem como nós quisermos –, mas há sempre uma tentativa quase de sobrevivência que obriga um pai a tentar pelo menos avisar o filho quando ele está a sair um bocado fora da norma. ‘Tu vais ser o que tu quiseres, mas essa tattoo na testa pode-te custar muitos empregos. Ou essa forma de vestir ou essa forma de falar ou essa forma de pensar. Essa profissão que escolheste…’ E, na realidade, o mundo não é feito de normalidade. É feito de aproximação, é feito das pessoas se encontrarem, mas quando tu te encontras num círculo, se toda a gente estiver a dizer o mesmo, é muito desinteressante. E o que é normal para mim aparentemente não é o normal vigente e comercial. O vigente industrial e comercial é uma coisa que tem que ser sempre igual, ter a mesma medida, o mesmo peso, as pessoas trabalham à mesma hora. O nosso próprio horário foi transformado por causa disso. Nós temos outras necessidades, outras formas de estar, e contrariamos a nossa própria natureza em função dessa normalidade. Então, eu acho que a normalidade é a maior violência que é exercida sobre nós. Essa ideia de existir uma coisa que é o normal. Acho que aceitarmos o mediano como uma alternativa se calhar é o melhor. Uma coisa que é mais a média do que acontece. Mas os hábitos são para ser transformados, a tradição é para ser transformada, o normal é uma palavra logo muito opinativa e que condiciona muito. Se disseres tradicional, está vincado a uma história e um gajo pode sempre mudá-la; o normal parece que é uma coisa que tu tens que contrapor. O que o meu coração e a minha cabeça dizem é: se falas em normal, eu quero logo contrariar isso. Como é que eu posso fazer isso? Fazendo o oposto de tudo o que é normal.

Achas normal que a rádio ainda diga horas? É preciso a rádio dizer horas? Antigamente tu não tinhas relógio e dava jeito às vezes, porque até havia carros que nem relógio tinham. Mas o carro já tem relógio há bué anos, o pessoal começou a poder ter relógios pechisbeque também, já não era uma cena só de senhor cavalheiro e agora toda a gente tem uma porra de um telemóvel. Há horas em todo o lado. Parem de dizer as horas que já me estão a stressar. Ou dizerem-te a temperatura. Ok, pode ser simpático, mas mesmo o telemóvel já nos diz a temperatura, o tempo para amanhã, o tempo para depois de amanhã. Para que é que eu preciso da rádio para isso? Para que é que preciso da rádio para passar uma música que eu já ouvi mil vezes? Há muita coisa que é normal, nas rádios mais ouvidas até, epá, que tirando os programas em que há um investimento em humor e muitas pessoas, que são as que fazem diferença, o normal é haver uma redundância, uma repetição. Então, a Rádio vai tentar ser uma de duas coisas: ou vai ser um contraponto a isso tudo, tipo fazer tudo aquilo que uma rádio não faz, ou caricaturando o que pode ser uma rádio normal. À partida o que te é dito é que quando mais normal tu fores, seja em rádio ou como pessoa, mais bem-sucedido serás. É este o mito que te fica no fim. Se fores muito normal, vais ter uma vida mesmo mesmo normal. E depois tu ficas a pensar, ‘ya, um gajo não curte andar a sofrer, mas será que eu quero ter uma vida assim tão normal?’ E se começares a pensar nisso, ninguém quer ter uma vida assim tão normal. Claro que tu se calhar queres uma família, amigos e o que for, mas isso é natural, não é normal. E tu podes ter essas coisas de várias maneiras diferentes. Não o ter de casar com uma certa idade ou ter x dinheiro. Não. Tu tens é que te sentir bem. 

Aqui é um bocadinho o contrariar tudo o que são padrões. Contrariar padrões é uma boa forma de definir isto. É tentar contrariar padrões, mas também não ter problemas em aceitá-los quando eles são muito bons. 

Vou ter uma emissão com frequência atribuída (e legal) para durante um mês, só para esta zona. Uma frequência não-comercial que podem sintonizar em 88.4 FM e que há-de chegar até onde chegar. Pelas experiências que tenho anteriores — se fosse no Alentejo chegaria mais longe –, aqui, com tanto prédio e tanta antena no ar, deve dar um raio de 200 metros à volta. A ideia será chegar ao largo todo e um bocadinho mais. Mas certamente, e isso é o princípio, ocupar espaço fora da casa, um espaço no ar que normalmente não é considerado — e as empresas de telemóveis sabem bem o que é que isso vale. Então é ocupar um espaço que é democrático, que é o do ar, não és obrigado a ouvir, mas se quiseres ouves e nem tens que entrar [na casa] ou vir cá.

As coisas que são feitas podem ser mal feitas, podem ter bué defeitos, mas nenhuma delas será o tentar fingir o que é e o que não é. Não vai haver nada a fingir que é analógico, nem a fingir que é vintage. Ou é ou não é. Há coisas aqui que são vintage, há outras que não são. E a rádio é um emissor feito à mão com uma antena catita e que é feito mesmo para emissão de rádio com uma licença a sério de rádio, não é pirata. É uma rádio normal como as outras e é isso que ela quer ser. E vai tentar ser um exercício — como é uma tela de quadro, como é um musical, como é uma escultura — de esculpimento sonoro diário que eu vou tentar fazer aqui.”


[A galeria da Junta de Freguesia de Arroios e as obras de António Costa Pinheiro e Leopoldo de Almeida]

“A Casa não deixa de ser um espaço nocturno, apesar de abrir às cinco da tarde, mas é um espaço onde as pessoas vêem beber copos, e ali, na Junta de Freguesia de Arroios, que cedeu o espaço da galeria, é mais um espaço público, mas também sem custo de entrada, onde vais poder ver, por exemplo, uma coisa que tem sido erradamente mencionada como a réplica do Padrão dos Descobrimentos, mas não é. Aquilo é a maquete. Ou seja, aquilo é o estudo, é o original do Padrão dos Descobrimentos. A pessoa que fez a escultura, o Leopoldo de Almeida, teve que fazer primeiro uma representação em pequeno do que é que ele queria que fosse feito mais tarde. Essa peça, a original dele, quando ele diz, ‘é isto que eu gostava que fosse o Padrão dos Descobrimentos’, é a que está na Junta. E que tem estado sempre guardada num armazém do Museu de Lisboa e que eu descobri a fazer digging de monumentos.

Eu não gosto da simbologia do Padrão dos Descobrimentos, detesto, mas se tu pensares que aquilo é o mais próximo que podes estar do gajo que fez aquilo, que não deixa de ser uma coisa simbólica da cidade, toca-me. Até te confesso que fiquei meio emocionado quando vi aquilo. Como te disse, detesto a simbologia, mas achei bonito ver o sítio onde alguém começou a fazer aquilo e está feito de forma tão perfeita e artística. E isso vai estar ali. 

E estava arrumado, não estava exposto. Assim como também estavam umas peças de um artista que eu não conhecia, mas que foi a zeladora do Museu de Lisboa, a Joana, que me sugeriu porque percebeu a minha temática, que tem muito que ver com o colonialismo, e ela disse-me, ‘olha, espreita aqui as coisas do António Costa Pinheiro e vê lá se gostas’. E eu não gostei, eu fiquei histérico porque me pareceu um gajo que não se percebe se sabe pintar ou não, se pinta mal por opção ou não. Pareceu-me basicamente punk. Depois percebi: ele cresceu fora de Portugal, esteve em Berlim durante algum tempo e isso deu-lhe um arejamento de cabeça que este país não deu às pessoas que cá estavam durante aquela fase do século. Portanto, ali na Junta, tens umas peças que não estão expostas em lado nenhum e que são muito bonitas e raras, as do Costa Pinheiro, que são século XX, e a do Leopoldo, que é mais antiga, e que se refere a outro tipo de coisa.”


[O activismo que existe (ou não), o sucesso e a verdade]

“Para mim, pode ser activismo se as pessoas o transformarem assim. Eu não vou dizer que sim, acho que se resultar nisso é fixe, mas ele faz sentido se as pessoas cá vierem e virem e aprenderem coisas que eu não ensinei.

O teu sucesso está em fazer e depois logo se vê o que é que as pessoas decidem ou não decidem achar ou não. Tu, como pessoa, o que podes fazer é… fazer. Mais do que objectivo, uma coisa que me faz sentir bem é perceber que qualquer coisa que eu faça tenha um impacto qualquer. Não o faço com essa obsessão, mas isso é o que me dá mais pica: mandar cá para fora tudo o que me incomode, expor-me ao erro e dar-me à morte naquilo que são opiniões que eu dê. 

Basicamente, o que eu posso dizer é que está aqui uma verdade. E a verdade assenta muito naquilo que eu tenho dentro do meu coração e da minha visão artística — e também muito na relação que eu tenho com a Inês [Valdez] da Casa Independente. Não houvesse essa proximidade entre mim e ela, eu não tinha nem a confiança em mim nem o sítio para expor-me desta maneira. Tudo começa por ser uma conversa de duas pessoas, depois [passa] para todas as pessoas que eu trouxe para cá. Não conheci o Leopoldo de Almeida, mas identifico-me com a necessidade de ter que falar do Padrão. Identifico-me muito com a forma de pintar do António Costa Pinheiro: aquilo seriam quadros que eu gostava de ter feito, e que se calhar um dia vou ter que fazer dando seguimento àquilo que foi esta coisa de pintar telas que não são só bonitas, mas que quase parece que o gajo queria tanto dizer uma coisa que os quadros falam mais do que são pinturas. E eu gosto dessa ideia. Gosto dessa cena que sobrepõe àquela forma de arte ou seja, eu vou trabalhar dança que vai tentar ser menos power moves e mais movimento e discurso, vou trabalhar discurso que vai tentar ser menos propagandista.”



[IKOQWE, sampling e o “acesso ao maior arquivo de música africana do mundo”]

“As músicas todas já estão gravadas e têm todas sampling. Acabei por perceber que não usei muitos loop grandes, mas que de facto o sampling é uma coisa especial. O sample leva-nos logo para outro sítio. Tu ouvires certas tarolas põe-te noutro sítio. E eu estar a ouvir aquele arquivo, e agora quando oiço as músicas… fui ver e só tinha samplado dois segundos, porra, como é que é possível? Samplei um total de quatro segundos em chops de um segundo cada, mas aquilo transforma a música noutra coisa. Ficas logo em 1920, lá na aldeia, com a poeira. É tudo arquivo do interior de Angola, fora das cidades. Adoro o som: microfone mono, ouves as coisas por aproximação, e não são bandas, são pessoas a tocar.

E tu, enquanto samplador e como pessoa que compõe cenas, acho que é muito difícil, não usares coisas dos outros. Não é copiar. Nem que seja estares com a barriguinha de comida da tua mãe ou da tua avó que te dá um estado de espírito qualquer. Era como dizia o outro de Ubuntu, ‘eu sou porque nós somos’. Nós temos sempre interferência e influência externa. E também isso é uma coisa que acho que é importante: o artista a solo reconhecer sempre que há uma inevitabilidade em ter outros artistas a participarem contigo. Tu não queres uma banda que execute tudo o que tu fazes, se não acabas como o Prince, a fazer discos muita maus. Podes ter a técnica toda, mas é muito fixe sempre alguma interacção, é muito fixe haver interacção não só com público, mas com outras pessoas. Isso faz-te sempre crescer. Faz-nos crescer a todos.”


[Os tempos atribulados que vivemos]

“Eu gostava que seja lá o que for o meu reach de pessoas/alcance, que as que gostarem ou não, pelo menos que entendam um bocadinho como é que um gajo se pode exprimir. Portanto, há aqui uma história que tem muito a ver com o colonialismo e com a equidade social, que é das coisas mais violentas… eu nunca pensei estar a viver o que estamos a viver agora, confesso. Quando era miúdo e via as biografias do Gandhi, do Luther King e acompanhava o Mandela, sempre achei que isto era um crescendo: tu estás a crescer e achas sempre que as coisas vão sempre ser melhores. 

Mas estamos a entrar num poço de água tramado, que vamos ter obviamente que ultrapassar, resta saber como e a custo de quê. E acho que é importante nesta altura um gajo divertir-se, dançar, partir a loiça toda, mas fazê-lo com algum tipo de substância e a fazeres um ar de ‘eu estou-te a ver’. Nos dois sentidos: estou-te a ver, sacana, que estás a intoxicar isto tudo com falta de amor e ódio, mas também estou-te a ver a ti que estás a passar mal porque sofres com esta merda como eu. Porque não há ser humano que não seja feminista e anti-racista e anti-essas coisas todas porque todas essas coisas são anti-humanas. Não tens que ser pro. Toda a pessoa é por si só um gajo que deseja que essas coisas não existam, porque isso vira-se ao contrário para ti também. Mesmo em Portugal, onde um gajo está sempre naquela dos brandos costumes, há coisas que nós temos que estar atentos. E não é reprimir nem castrar, mas há cenas claramente que um gajo não quer que sejam tidas como normais. E há liberdade de expressão? Claro que sim. Fala à vontade. Mas se levares uma galheta a seguir, também é normal. Ou se alguém disser só ‘tu és um escroto’, se calhar é menos grave do que o gajo ter só ódio em relação a pessoas que ele não conhece. Eu ouvir alguém a dizer algo odioso e eu dizer só ‘tu és odioso’, isso é dirigido àquela pessoa. Tu dirigires-te a comunidades é estranhíssimo porque cada pessoa é uma pessoa muito diferente. Nós sentimos que o mundo está a bipolarizar-se, no mínimo, entre os que querem promover um ódio e um controlo, que são os mesmos de sempre, e todos os outros que depois entre si ainda arranjam maneira de se chatearem. E é aqui que a porca torce o rabo.

Quanto mais próximos estivermos daquilo que representamos como pessoas, mais naturalmente a arte vai ser assim, e também mais naturalmente as pessoas vão ser, de repente, activistas. A pessoa comum, de repente, é activista. A pessoa comum que vai votar e não ficou em casa é um activista. Porque eu respeito muito o não votar, mas a democracia não respeita. A democracia devia respeitar o não-voto porque o não-voto pode ser muita coisa. Não é só a pessoa estar-se a cagar. Pode ser: ‘eu estou muito chateado’. É quase como se tu tiveres um melhor amigo que baza e tu não vais atrás dele, nem perguntas o que é que se passa. E nunca mais o vês? O que é que se passou? E fica assim? E nós não somos todos melhores amigos, mas estamos todos ligados, e essa facilidade com que se deixa metade da população alhear-se da democracia só faz pensar que a democracia se está a cagar para as pessoas e que as pessoas que estão no poder estão muito bem desde que ganhem. Parece um bocado aquele gajo que é de um clube e que quer que ganhe o clube ganhe nem que seja com golos fora-de-jogo.

Há uma ideia que eu tenho já há muitos anos, e que percebo que ela não ecoe facilmente, mas aqui vai: acho mesmo que o voto em branco aumentaria exponencialmente se fosse dito, por exemplo, que os votos brancos elegeriam cadeiras vazias no parlamento. Acho que havia pessoas que iam votar. E nós o que estamos a fazer é: a cadeira vazia não é possível. Ou ficas em casa e não votas ou vais votar branco e é a mesma merda. Ou então vais e votas num imbecil porque estás chateado e o que está a acontecer é que nós estamos a votar em imbecis porque estamos chateados. E isso é uma grande merda. Era melhor ter cadeiras vazias. Esta farsa da democracia faz com que ela nunca acabe.”


[A vontade de ser mais do que uma coisa]

“Eu, como ser humano, sinto que és obrigado a ter que te definir, no que quer que faças. Se és carpinteiro, tens que ser especialista em móveis. Tu podes decidir só fazer uma coisa, se for essa a tua paixão, eu acho que não há nenhum problema, nem há julgamento a ser feito. Mas a verdade é que nós por subsistência, porque só há empregos para uma coisa ou porque não há tempo para fazer outras ou porque te sugam a alma e de repente o teu lado artístico e criativo já foi com o caraças, tu acabas por alinhar em coreografias e definições que não são necessariamente aquelas que tu queres e eu sempre senti que não gosto só de uma coisa, que gosto de bué cenas. Não me sinto mestre em nenhuma, nem sinto que tenha de ser. Acho que o que nós temos que ser é a nossa versão de mestre de nós mesmos, e isso é a gente fazer tudo o que quiser. Não é sermos o mestre aos olhos dos outros. Não é sermos o melhor gajo a fazer não sei o quê. Gosto dessa ideia de um gajo poder fazer o que lhe apetecer. Seres o mais honesto que conseguires, porque depois um gajo engana-se sempre e faz coisas que morrem no tempo ou não têm qualidade para os outros ou se calhar tu próprio olhas e dizes, ‘não era isto’. Depois também há coisas que tu fazes que não têm a qualidade que querias, mas depois até são essas que as pessoas gostam. A cena da criação é muito uma coisa do teu ego. Mas deves fazê-lo mais porque não consegues não fazer do que necessariamente por te quereres afirmar.”