Formado em 2013 em Ottawa por músicos ligados ao universo da Souljazz Orchestra, o Atlantis Jazz Ensemble tem vindo a afirmar-se como um dos projectos mais consistentes no cruzamento entre jazz espiritual, modal e influências afro-atlânticas. A sua discografia desenha já um percurso claro: o álbum de estreia Oceanic Suite (2016), seguido por Celestial Suite (2023), culminando agora em Mystic Suite (2026), um terceiro capítulo que completa uma espécie de trilogia conceptual construída ao longo de uma década .
Essa trajectória, que começou como uma exploração de novas direcções dentro do jazz contemporâneo, foi-se consolidando num som próprio — simultaneamente enraizado na tradição e aberto a geografias sonoras mais amplas, entre África, Europa e Américas, talvez e sobretudo o Brasil. Se Oceanic Suite marcou o início de uma viagem estética e Celestial Suite afirmou uma fase de maturidade luminosa, Mystic Suite surge agora como o capítulo mais intenso e pessoal, fechando o arco com uma dimensão quase existencial.
Publicada simbolicamente no Dia Internacional do Jazz, esta entrevista mergulha precisamente nesse percurso artístico e profundamente humano. Ao longo da conversa, o líder do ensemble revela o contexto dramático que esteve na origem de Mystic Suite, composto num curto espaço de tempo durante um período de crise pessoal, e explica como essa experiência moldou tanto a música como a própria ideia de trilogia.
Falamos ainda sobre a relação entre os três álbuns e a forma como, retrospectivamente, estes funcionam como um diário emocional; sobre a inesperada dimensão mitológica que liga oceano, céu e submundo; sobre as novas direcções sonoras exploradas neste último capítulo; e sobre o papel da improvisação, da colectividade e até do silêncio num projecto que continua, apesar de tudo, em aberto.
Na nossa conversa anterior, falaste-me sobre o Oceanic Suite e o Celestial Suite como parte de uma busca comum, chegando mesmo a sugerir que as coisas “costumam vir em trios”. Em que momento é que o Mystic Suite se tornou o inevitável terceiro capítulo, em vez de ser apenas uma possibilidade?
Acho que, para compreender verdadeiramente o Mystic Suite, é importante que te conte a verdadeira história por trás do álbum… Desde a última vez que falámos, muita coisa aconteceu na minha vida pessoal. Há cerca de um ano e meio, os médicos anunciaram-nos que o cancro da minha mulher tinha voltado e que agora se tinha espalhado. Isto foi obviamente devastador para a nossa jovem família e, nos seis meses seguintes, parei de fazer música para me concentrar na minha família durante os tratamentos da minha mulher. Os médicos disseram-nos então que a minha mulher podia fazer uma pausa para recuperar, e foi nessa altura que compus este álbum inteiro, num espaço de cerca de dez dias — durante toda essa provação, muitas ideias musicais andavam a dar voltas na minha cabeça, e tudo isso saiu, de uma forma um pouco terapêutica. Eu sabia que não tínhamos muito tempo, por isso reuni o grupo, fizemos alguns ensaios e depois corremos para o estúdio para gravar o álbum inteiro num fim-de-semana. Quando se está diante da morte, não se consegue evitar pensar no que vem a seguir, no que existe para além deste mundo, daí o título Mystic Suite.
Agora que a trilogia está completa, o que é que a conclusão de Mystic Suite te revelou sobre os dois álbuns anteriores? Isso alterou a forma como entendes Oceanic Suite e Celestial Suite?
Bem, olhando para trás, vejo como cada um destes álbuns registou onde estávamos nas nossas vidas, naquele momento, um pouco como um diário. Oceanic Suite foi o início da viagem, estávamos a explorar novas possibilidades, ainda à procura do nosso som característico. Ainda se consegue ouvir ligações a estilos de jazz mais antigos, como o swing e as baladas, por exemplo… O Celestial Suite foi gravado alguns anos mais tarde; foi uma época muito feliz na minha vida, o grupo estava contente por voltar a tocar em conjunto. Acho que isso transparece na música; é um álbum muito inspirador e sereno, com muitas tonalidades maiores. A Mystic Suite foi gravada durante um período muito mais tumultuoso, como mencionei, e, como resultado, acho que o álbum tem, por vezes, um certo toque de nervosismo e intensidade e, noutras, uma certa melancolia e pensatividade.
Os três álbuns parecem traçar uma espécie de cosmologia — oceano, céu e submundo. Essa estrutura era algo que já tinhas em mente desde o início, ou surgiu mais tarde como forma de dar forma à música?
Para ser totalmente sincero, não era algo que tivesse planeado inicialmente, aconteceu de forma totalmente orgânica… Escolhi títulos que se referiam a elementos da natureza (ou “supernatureza”) que representavam o espírito de cada álbum, à medida que o compunha. Quando estava a escrever o terceiro, deparei-me com a história do deus Cronos e dos seus três filhos, Poseidon, Zeus e Hades, e não conseguia acreditar como isso espelhava na perfeição os nossos três álbuns. Foi a vontade dos deuses!
Mystic Suite é apresentado como o capítulo mais intenso e talvez mais invulgar da trilogia. O que é que este álbum te permitiu explorar que os dois anteriores não exigiram?
Em primeiro lugar, a participação dos convidados Petr Cancura no saxofone tenor e Marielle Rivard na percussão acrescentou novas possibilidades que simplesmente não estavam disponíveis antes — o som potente do saxofone tenor de Petr permitiu-nos explorar mais o território coltraniano, enquanto a percussão de Marielle nos deu mais opções para polirritmos mais densos de inspiração afro e latina. Em segundo lugar, acho que o tema também nos levou em novas direções — por exemplo, as harmonias sobrenaturais e não funcionais de “Elysian Fields” eram invulgares para nós. Os solos também se desviaram frequentemente para território polimodal ou atonal um pouco mais do que o normal, e os timbres utilizados eram muitas vezes um pouco mais ásperos.
Desta vez, a mitologia grega desempenha um papel muito explícito. Será que estas referências mitológicas moldaram a composição em si — a harmonia, o ritmo, o ambiente — ou constituem mais uma estrutura simbólica em torno da música?
Bem, aqui as alusões à mitologia grega são principalmente simbólicas, metáforas para acontecimentos que estavam a ocorrer na minha vida pessoal. Mas, agora que penso nisso, as referências mitológicas também ajudaram a moldar a música… As figuras do Fender Rhodes na abertura de “Damocles” pretendiam imitar uma espada a sair da bainha; a delicada melodia de “Persephone” pretendia pintar um quadro da bela deusa; as notas prolongadas de “Elysian Fields” visavam retratar as vastas planícies do Elísio; a misteriosa introdução de percussão de “Asphodel Meadows” tentava capturar o farfalhar das flores fantasmagóricas nos campos… Portanto, está tudo ligado, de certa forma.
Os teus títulos sempre transmitiram um forte sentido de significado. O que tentaste condensar em peças como “Damocles”, “Persephone”, “Elysian Fields” ou “Broken Dreams”?
Como mencionei, todas estas eram metáforas para o que estava a acontecer à minha mulher e a mim… Tal como na lenda de Damocles, viver com uma doença grave pode parecer como se tivéssemos uma espada suspensa sobre a cabeça. Persephone era uma das deusas mais belas da Terra, mas foi raptada por Hades e forçada a viver com ele no submundo. Os Campos Elísios [Elysian Fields] são uma secção do submundo, basicamente o equivalente ao céu na mitologia grega. Há também uma área do submundo dedicada aos sonhos e pesadelos, que é onde “Broken Dreams” se encaixa. Vou mencionar mais uma… Dizia-se que os Portões do Sol [Gates of the Sun] eram a entrada para o submundo, descritos como grandes arcos circulares brancos, no fim do Oceano Atlântico, onde o sol se põe — coincidentemente não muito longe de onde se supunha que estivesse o continente perdido da Atlântida. Era isto que eu pretendia que a capa do álbum retratasse, embora o artista original estivesse, na verdade, a tentar capturar os halos solares que ocorrem no Ártico.
“Damocles” abre o álbum com uma atmosfera muito sombria, quase ritualística — um Fender Rhodes, um toque frígio, uma espécie de pulsação sinistra. Foi importante sinalizar logo à partida que isto seria uma descida, em vez de uma ascensão?
Sim, desde o início, quis transmitir uma sensação de desgraça iminente… No entanto, à medida que o álbum avança, parece haver gradualmente uma maior sensação de aceitação.
Faixas como “Asphodel Meadows” e “Gates of the Sun” trazem ideias rítmicas em camadas — padrões em 12/8, percussão forte, até mesmo um toque de highlife. Como é que estas diferentes linguagens rítmicas servem a narrativa do álbum?
Acho que estes polirritmos impulsionadores realmente fazem a música avançar; eu queria transmitir a sensação de uma viagem.
O núcleo do conjunto mantém-se o mesmo, mas Mystic Suite apresenta Petr Cancura e Marielle Rivard. O que é que a presença deles tornou possível que antes não existia?
Bem, já falei um pouco sobre o Petr e a Marielle há pouco. Ambos são músicos maravilhosos, muito versáteis e altruístas. A Marielle tinha muitas ideias para a percussão, experimentámos imenso, ela até criou os seus próprios caxixis caseiros usando cestos e feijões secos. Sem que lhe pedissem, o Petr também apareceu no estúdio com um saco cheio de instrumentos de percussão estranhos — colares de pequenos cocos, chocalhos de aspeto esquisito, sinos metálicos… Até o Mike, na bateria, e o Chris, no contrabaixo, trouxeram novas cores, experimentando diferentes técnicas percussivas nos seus instrumentos. Toda esta percussão permitiu-nos adicionar muito mais cor e textura às peças. Como compositor, também foi ótimo ter um terceiro trompete com o Petr: dois trompetes parecem uma conversa, três dão a ilusão de uma secção completa, um coro. E bem, o Petr é uma força no saxofone tenor, os seus solos são simplesmente sublimes neste álbum. Gostei da forma como o Ed, o Zak e o Petr soavam de forma diferente, cada um deles trouxe a sua perspetiva única às peças com as suas improvisações.
O álbum foi gravado ao vivo, e há uma forte ênfase na ligação humana na forma como a música é descrita. Para um disco que aborda reinos invisíveis ou mitológicos, foi importante fundamentar tudo numa actuação muito física e colectiva?
Apesar de o disco abordar reinos invisíveis ou mitológicos, tudo se baseou em experiências humanas muito reais. Portanto, sim, foi importante para mim capturar uma actuação humana real e ao vivo, cheia de paixão e emoção. Com todas as batidas sintéticas e música artificial que se produzem hoje em dia, sinto que é mais importante do que nunca manter a música viva e a respirar.
Na nossa última entrevista, disseste que o silêncio é essencial para um compositor — que te permite ouvir a tua voz interior. Depois de concluir esta trilogia, essa ideia de silêncio significa algo diferente para ti agora?
Bem, neste caso, o silêncio foi-me de certa forma imposto… Devido às circunstâncias, tive de deixar a música de lado durante uns bons seis meses. Quando me foi permitido voltar a ela, senti que a música simplesmente jorrava de mim. A ausência pode fazer o coração ficar mais apaixonado.
Encerrar uma trilogia pode parecer um final, mas também um limiar. Depois de explorar o oceano, o céu e o submundo, sentes uma sensação de conclusão — ou será que isto abre a porta para uma direcção totalmente nova? O que poderá vir a seguir?
Não tenho a certeza! Sinto que, de certa forma, um capítulo chegou ao fim, mas também sinto que mal tocámos na superfície. Vou ter de meditar sobre isto em silêncio! Devo também mencionar que a minha mulher está relativamente bem neste momento. Está a tomar um novo medicamento que parece estar a manter a sua condição estável. Cada dia é uma bênção.