Arca e a arte de virar do avesso

[TEXTO] Miguel Alexandre [FOTO] Daniel Shea

Há, ao todo, cinco segundos de puro suspense entre bafos de respiração. Em dois tempos, ouvem-se berros de desordem atirados aos ventos, sons eróticos, batidas fantasmagóricas — tudo aliado a um cenário sadomasoquista, que quebra o gelo de quem entra, e também o pensamento. Arca está em palco e, com poucas formalidades, dirige-se para a audiência: “a chuva é boa para lavar, não é?” Estamos em 2018, num dos últimos concertos do Primavera Sound que acontece às tantas da madrugada. Os poucos que preenchem o recinto ou o fazem pela curiosidade, ou porque não querem ainda despedir-se do festival. No final, o concerto não foi nada vulgar, mas a verdade é que Arca também não o é; numa das primeiras apresentações feitas em solo português, o artista fez questão de mostrar tanta irreverência como vulnerabilidade. Em Março, o produtor regressa a Portugal para actuar no ID, o novo festival que se vai realizar no Centro de Congressos do Estoril. 

Alejandro Ghersi fala muito em labirintos, quer em entrevistas como na sua música — talvez porque durante muito tempo se sentiu perdido num. Nascido na capital venezuelana, em 1989, a necessidade de se esconder do ambiente retraído e conservador familiar foi uma urgência: “enquanto criança, gastei imensa energia a esconder quem eu realmente era e a tentar enquadrar-me ao máximo”, contou ao jornal The Guardian. “Se eu me vestisse da maneira como me visto agora, estaria em perigo. Em adulto, faço questão de celebrar aquilo que durante muitos anos tentei esconder”. Cada celebração é vista como um grito de guerra acompanhado ainda pela dor do que passou e pelo peso do presente. Ghersi ainda não se sente totalmente liberto, mas está a caminhar para lá chegar. E a música é o meio a utilizar: sufocante no seu contorno, mas indulgente no seu cerne. Há uma mistura perfeitamente desajustada de lo-fi, electrónica e IDM, mas tudo num formato terrivelmente uniformizado, como se cada ritmo, cada batida, cada melodia já tivesse sido concebida muito antes da sua execução.

Este formato valeu-lhe, até agora, três álbuns: Xen, de 2014, seguido de Mutant no ano seguinte. Mas é o esforço de 2017 que se destaca da restante discografia: honesto, hipnótico, homólogo. Arca é o primeiro trabalho em que ouvimos a voz da pessoa por detrás da música e somos automaticamente emergidos para um universo à parte do que estávamos habituados em trabalhos passados. “Piel”. a música de abertura, é a derradeira prova: crua, delicada e desoladora, um autêntico de pedido de ajuda de alguém que tem sofrido em silêncio estes anos todos: “quítame la piel de ayer/ no sé caer/ los árboles mueren de pie”. A implementação da voz foi bem executada, mas não foi ideia inicial dele. Ghersi conta que foi Björk, amiga de longa data e colaboradora, que o convenceu a tal: “Ela perguntou-me se já tinha considerado pôr a minha voz no meu trabalho”, revelou. “Foi uma pergunta em vez de uma sugestão”.

 



Aliás, o trabalho como vocalista não era novo, uma vez que o artista gravara pequenas demos em espanhol na sua cidade natal. Na altura, era conhecido como Nuuro e o seu género musical desprendia-se das experimentações de hoje para um indie pop mais conciso. O projecto rapidamente morreu, mas ao mesmo tempo deu-lhe a confiança suficiente para sair da Venezuela e procurar algo tem tivesse mais significado. Na altura, ainda era reservado na sua música, como na sua homossexualidade, mas quando chegou a Nova Iorque sentiu-se finalmente aceite. A comunidade de artistas queer com quem convivia na altura ajudou-o a chegar ao tipo de som que sempre quis fazer. Em 2012, lançou Strech 1&2 , duas pequenas mixtapes que alcançaram uma atenção moderada, mas que chegaram aos ouvidos de Kanye West, que o convidou a participar em Yeezus. Pouco tempo depois, seguiram-se colaborações com FKA twigs, Kelela, Frank Ocean e Björk.

Arca olha para o seu trabalho como fosse o seu último. A ideia de que tudo pode terminar a qualquer altura é desafiante o suficiente para que continue a produzir. É compreensível o porquê de adoptar tal pensamento; afinal, Ghersi ainda se esconde por detrás de uma grande parede de som, equipamento, botas latex de salto alto e distorção. Há ainda insegurança na sua música, especialmente na sua voz, que sente ter traído ao longo destes anos. Ao mesmo tempo, os demónios que o perseguem desde a adolescência não estão absolutamente exorcizados, daí explicar o ambiente demente – como ele descreve – que paira quando está no estúdio. Na volta, todo esta transformação em Arca é libertadora, partindo e acabando na mesma pessoa: ele próprio. Ghersi não se importa de partilhar o sofrimento que passou ao longo destes anos com uma audiência disposta a ouvir cada lamúria; no entanto, faz tudo parte de um processo de auto-superação que o artista tenta alcançar desde os 17 anos. “Muitas músicas neste último álbum são como rios que podem terminar ou começar em sítios diferentes. O estado mental em que eu tinha de estar era bastante frágil, como se eu não tivesse pele”.

Há uma inevitável tristeza que o segue desde então e que o artista acaba sempre por incorporar quando entra em cena. Cada canção é quase como uma catarse que se coaduna inteiramente com o seu estado de espírito. Em “Reverie”, dos momentos mais desafiantes da sua carreira, Arca suplica para ser amado novamente. A ambiguidade da letra é brilhante e assertiva: Ghersi pode facilmente estar-se a referir a um amante – a alguém a quem ele pede para o aceitar tal e qual como ele é, porque esconder já não é mais uma opção. Ou pode ser um pedido para ele próprio: um apelo final que desculpasse todas as incongruências do passado, de modo a que se sentisse, de uma vez por todas, em paz consigo mesmo. O mistério é, como tudo o resto, deixado à interpretação do público, que se limita a assistir: o elemento de choque aqui não é fugaz, mas quase esotérico e penetra-nos o dogma e as ideias. Arca sabe exactamente o que faz quando chega a um palco. Nós limitamo-nos a aplaudir.

 


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