Sábado, 9 de Maio de 2026. Terceiro dia de jazz com assinatura no 14º Amadora Jazz. “Este festival, pela sua natureza aberta e inclusiva, reflete bem a diversidade que caracteriza o território da Amadora e afirma-se como um ponto de encontro entre culturas, gerações e diferentes formas de expressão”, lê-se no sítio da Câmara Municipal da Amadora, que promove este evento que tem direcção artística e organização do Jazz ao Centro Clube (JACC). Depois de Fred Hersch e Mary Halvorson, nos dias anteriores, hora de receber o duo francês constituído pelo clarinetista Louis Sclavis e pelo pianista Benjamin Moussay.
Louis Sclavis (n. Lyon, 2.2.1953) e Benjamin Moussay (n. Estrasburgo, 18.2.1973). Dois músicos do signo Aquário, de gerações diferentes, que partilham uma sensibilidade musical rara e uma relação apaixonada com os instrumentos que escolheram para se expressarem. O elemento do signo: ar. O símbolo do signo: duas linhas sinuosas que representam o movimento de águas em harmonia, em perfeito equilíbrio. Dias antes, Ricardo Vicente Paredes, aqui no Rimas e Batidas, apresentava-os como uma “dupla telepática, (…) sem tensão, com muita fluidez, como as águas que sabem o seu caminho”. O recital do duo no Amadora Jazz comprova-o. Uma música contemplativa e melancólica. Evocativa, intimista.
O alinhamento do concerto tem por base o álbum de jazz de câmara que editaram em 2024 pela ECM. Intitulado Unfolding, foi gravado nos estúdios La Buissonne, onde desde há cerca de 30 anos Sclavis regista os seus álbuns para a ECM. Estão localizados em Pernes-les-Fontaines, no sul de França, a nordeste da histórica cidade de Avignon, onde em 1908 nasceu o compositor Olivier Messiaen, citado como uma influência em Unfolding. É já longa a relação musical entre Moussay e Sclavis, em múltiplas gravações registadas em álbuns deste último, editados pela ECM, casa que o acolhe desde o magnífico Rouge (1992), onde Louis Sclavis explorava o jazz avant-garde e a música de câmara. Sclavis é uma figura histórica do jazz de vanguarda dos últimos 45 anos. Moussay, vinte anos mais novo, com uma sólida formação erudita em piano no Conservatório de Estrasburgo, tem-se notabilizado quer no contexto de várias formações de Sclavis quer ao lado da cantora de vanguarda Claudia Solal (filha do célebre músico de jazz francês Martial Solal).
Em Louis Sclavis ressalta um músico multifacetado, virtuoso e versátil, numa variedade de géneros e repertórios que vai desde a música tradicional e da música antiga ao jazz e à música de vanguarda. Recordamo-lo por exemplo em 1992 na companhia do mago da sanfona electroacústica Valentim Clastrier, na obra avant-folk intitulada Hérésie (o título diz tudo, num álbum onde pontifica outro clarinetista da mesma fibra de Sclavis e poucas vezes mencionado – o alemão Michael Riessler, que pude ver ao vivo em duo, precisamente com Clastrier, num concerto memorável em Algés, na segunda metade da década de 1990, no âmbito dos saudosos Encontros da Tradição Europeia). Noutros contextos igualmente menos conhecidos de Sclavis, ouvimo-lo em 1995 a explorar um imaginário de fusão do jazz com as músicas da América do Sul e do Mediterrâneo, em Il y a de L’orange Dans le Bleu, do pianista e compositor francês Daniel Goyone, e ao lado do duo Telectu com Jac Berrocal em Jazz Off Multimedia. Mais tarde, em 2002, Sclavis regressaria a Portugal para participar como convidado no álbum Radio Song, do trio do contrabaixista Carlos Barretto.
Mais conhecida é a sua relação com músicos franceses como os contrabaixistas Henri Texier e Bruno Chevillon, o violinista Dominique Pifarély, o trompetista Jean-Luc Cappozzo ou violoncelista Vincent Courtois. Fica, por exemplo, uma nota sobre o magnífico trabalho African Flashback (Label Bleu, 1995) que assinou em trio com Henri Texier e Aldo Romano, inspirado em registos fotográficos realizados pelo celebrado Guy Le Querrec no continente africano. Com o desaparecimento recente de Michel Portal (1935–2026), com quem Sclavis tocou como músico convidado no célebre quarteto Azur, de Henri Texier, passou certamente Louis Sclavis a tutelar o clarinete no jazz francês de vanguarda.
Unfolding apresenta música original composta por cada um dos músicos. Para além da referência a Messiaen e das idiossincrasias estilísticas nas composições de cada elemento do duo, há uma clara influência do jazz modal e do folclore francês. Interpretado ao vivo, Unfolding resulta num diálogo ainda mais intimista entre os dois intérpretes, em apreciação recíproca. A forma como se escutam mutuamente comprova-o. Por vezes, exploram uníssonos. O ar é cúmplice. E diríamos que poucos instrumentos ilustram tão bem uma determinada concepção de ar como o clarinete-baixo (razão pela qual talvez seja este instrumento tantas vezes privilegiado por compositores da música contemporânea de vanguarda). Em Sclavis é tão orgânico que funciona como uma extensão do próprio respirar. “Para esta gravação compusemos exclusivamente material novo. Escrevi peças muito simples que permitem muita improvisação. Dado que já tocamos juntos há mais de 20 anos em projetos diferentes, tornámo-nos cada vez melhores a expressar-nos como duo através da improvisação e a deixar-nos ir”, refere Louis Sclavis nas notas sobre Unfolding.
No belo auditório dos Recreios da Amadora, as peças de Unfolding sucedem-se fluídas. Alguns títulos: “Unfolding”, “L’heure de Loup”, “Siete Lagunas” (inspirada num lugar da Sierra Nevada), “A Garden in Ispahan”. A acústica do auditório é muito boa e a captação excelente. Poucos microfones, palco minimalista com tela preta ao fundo, que vai alternando entre tons fortes palacianos de azul, verde e roxo. Um piano de cauda Yamaha. Um clarinete e um clarinete-baixo. Dois músicos exímios que procuram o silencio. O piano de Moussay é magnífico a explorá-lo. O público é bom (como refere aliás Sclavis, numa das intervenções durante o concerto, sobre o público português dos concertos de jazz, salientando ainda a qualidade dos festivais em Portugal) e silencioso. A música, por vezes muito cinematográfica, parece fazer parte dum certo imaginário naturalista de Éric Rohmer. Um convite à introspecção – à procura de um lugar onde todos podemos ser felizes. É Maio e há flores novas para colher. Na região de Grasse, na Riviera Francesa, a centifólia é denominada rosa-de-maio porque floresce na Primavera. Nos campos onde são cultivadas para a indústria da perfumaria, os agricultores instalam altifalantes que reproduzem sons de piano. Dizem que as vibrações ajudam os botões a desabrochar uniformemente.