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Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 06/05/2026

Com três espectáculos internacionais em destaque.

O Amadora Jazz’26 e a matéria intangível em perspectiva

Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 06/05/2026

O que o mundo lá de fora, e que está cá dentro, mais precisa? O que nos podem trazer mais três de uns quantos concertos — consertos ou apelando a isso mesmo, em último reduto. O estado de espírito elevado pela música como matéria em desiderato. Em desejo — o amor. Programar um festival de jazz em tempos conturbados é uma acto consciente e um poder entre mãos disposto a fazer algo — intangível que seja, mas fazendo acontecer, de facto.

The Surrounding Green poderá ser inspiração para o concerto de abertura (amanhã dia 7, 21h nos Recreios da Amadora) com Fred Hersch em piano solo. Em conversa, aquando da apresentação desse mesmo álbum para a editora ECM, explicava que ele próprio nem sabe muito bem como surgiu a ideia do nome — mas sabendo que era esse o título que fazia mais sentido. Justamente o redor verdejante e que traz para perto. A paisagem que nos pode (e deve) circundar em contraponto com o o rasto de destruição, da guerras, da invasão, do genocídio em curso. Hersch assume que tem nas montanhas Catskill perto do habitat em Nova Iorque, um espaço de inspiração que se torna vital para si e para a sua música. A carga que Hersch transpõe a cada acorde no piano conduz à leveza de imediato — toca para elevar. Falou-nos junto do piano, nessa tarde de Julho último, no decurso de uma aula magistral no Conservatório do Funchal que tocar deve ser “muito mais na intencionalidade que na intensidade”, mas advertindo que ele mesmo se escusa a acreditar no sempre e no nunca. Mas o mote para o concerto de Hersch, no Amadora em Jazz, deverá ser Silent, Listening (ECM, 2024). E surge logo no título todo um fundamento da sua música e deste preciso álbum (que o mundo lá de fora também precisa) — a vírgula entre “Silent” e “Listening”, como afirmação da paciência! “Permitindo que as coisas se desdobrem, sem ter medo de deixar um espaço”, referindo-se em discurso directo à razão do nome escolhido para o registo. Para Hersch, a beleza e a emoção, “não passam de moda” e serve essa carga usando “som, cor e ritmo” através das teclas do piano. Tem uma longa e prolífica trajectória com uma dúzia de álbuns de piano solo, mas este mais recente registo ocupa um lugar especial no seu coração. É chegado o momento de escutar de perto toda a sua lírica soporífera no piano, como em “Akrasia”, ou mesmo quando retoma a matéria de outros como em “Star-Crossed Lovers” de Billy Strayhorn, “Softly, As In A Morning Sunrise” de Sigmund Romberg ou até “The Wind” de Russ Freeman. Falta quase nada para sabermos disso, como num sussurro.

Mary Halvorson é outro caso sério para contrapor aos dias correntes. Para chamar de perto na redenção da beleza, através de um léxico tão seu, tão próprio e apropriado. Tê-la por perto novamente soa a bálsamo em perspectiva. Ao Amadora Jazz virá com o seu novo fundamento em forma de quarteto “Canis Major”. Halvorson que explicava aquando da apresentação da nova formação que  “parece ser o início de algo muito especial”. Dando conta que “a música tem vindo a crescer exponencialmente cada vez que tocamos. Já há muitos anos que não liderava uma banda mais pequena, e tenho gostado imenso da profundidade, da interacção e da intensidade que esta formação traz à minha música”. Com ela (na guitarra), estarão Dave Adewumi em trompete, Henry Fraser no baixo e Tomas Fujiwara na bateria. Com Fujiwara, Halvorson tem construído pontes de longo alcance. Lembremos do seu sexteto Amaryllis: em Amaryllis & Belladonna (2022), Cloudward (2024) ou About Ghosts de 2025, todos selados pela prestigiada Nonesuch. Mas este “Canis Major” apenas se escuta em palcos, e todos eles bem recentes. Uma contribuição mais ao fundamento de que a música é para ser (melhor) vista. Nesta recente constelação, Halvorson e seus pares já revelaram, com os temas “Horn-shaped” e “The Color of Bone” trazidos da gravação na nova-iorquina The Jazz Gallery em Março de 2025, um maior cintilar. Acutilantes, entre fraseados ondulantes da guitarra de Halvorson e da profundidade celeste vinda do sopro de Adewumi. Halvorson aparenta trazer neste quarteto uma leitura em mais tensão do presente… como se entende, directa ao osso. Tudo para conferir, claro está na sala dos Recreios da Amadora, na próxima sexta-feira (dia 8, 21h).

E a matéria intangível guardará ainda lugar para sábado (dia 9, 21h) nesse mesmo sítio na Amadora. Momento em que uma dupla telepática na música subir a palco para discorrer a sua manifestação de interesses, desdobrando esse Unfolding (ECM, 2024). Referimos Louis Sclavis e Benjamin Moussay, em clarinetes e piano respectivamente. Um álbum em palco, como quem bebe essa chávena que a capa de disco ilustra. Uma música profunda e de descoberta à medida que se vai desenvolvendo. Uma linguagem recíproca, acentuando os contrastes tímbricos entre as cordas e as palhetas. Um olhar longínquo, e contrastante, com uma memória mais recente. Parecendo vincar que nada saberemos do amanhã perdendo essa memória do passado. Sclavis e Moussay estarão em conversa escorreita, onde haverá muito e bom espaço para a improvisação, sem tensão, com muita fluidez, como as águas que sabem o seu caminho. Haverá nos Recreios da Amadora lugar para “Unfolding” de Moussay — em prenúncio; e haverá uma resposta em harmonia com “L’étendue” ou “Somebody Leaves” de Sclavis. Haverá que estar presente para melhor saber para onde se vai, uma vez quando chegar o momento de escolher o caminho a seguir. Amando como a estrada começa, parafraseando Mário Cesariny. 


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