Adrian Younge: “Sinto que Twelve Reasons to Die caminha para uma trilogia”

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O presente ano tem sido generoso no que toca a produções hip hop conceptualmente visuais. Do topo da memória: Sour Soul de BADBADNOTGOOD com Ghostface Killah; The Night Took Us In Like Family, de Jeremiah Jae e L’Orange; Time? Astonishing! de Kool Keith e (mais uma vez) L’Orange; e, porque não, To Pimp A Butterfly de Kendrick Lamar ou Surf de Donnie Trumpet & The Social Experiment preenchem as configurações de montagens que pretendem transportar o ouvinte, mais ou menos propositadamente, para um cenário, um palco, uma realidade ou uma ficção. Fazendo ponte sobre esse carácter mais ficcional que o hip hop também encarna, há um homem que se destaca entre os demais nessa abordagem cinéfila do género: Adrian Younge.

Produtor, compositor e multi-instrumentista natural de Los Angeles, Younge é um dos musicmakers ligados à neo-soul e ao hip hop mais requisitados dos últimos meses. Em finais do ano passado compôs um saudosista There Is Only Now com os Souls of Mischief; em Junho deste ano saiu o harmonioso In Another Life de Bilal, que contou com a colaboração, por exemplo, de Kendrick Lamar e cuja produção é da inteira responsabilidade de Younge; e já em Julho lançou com Ghostface Killah, membro dos Wu-Tang Clan, a sequela Twelve Reasons to Die II.

Resumidamente, Twelve Reasons to Die II segue um mesmo estilo de instalação comparando com o antecessor: a história acontece numa Nova Iorque obscura dos anos 1970 e relata os passos de um jovem gangster in the making, Lester Kane, que parte em busca de vingança face ao assassinato de Tony Starks às mãos da família DeLucas, célula mafiosa italiana que assumiu o protagonismo no primeiro álbum do género. “Eu queria que este novo trabalho fosse mais negro e pesado que o primeiro”, conta Adrian Younge a partir de uma chamada via Skype às 8 horas da manhã, hora do Pacífico. “Os temas são um pouco mais densos e a produção mais crua, mais in your face.”



Procurando dar essa profundidade a um álbum que tem uma carga climática cinzenta, de rimas horror, sanguinárias, Younge recrutou para a produção Raekwon, outro membro Wu-Tang também habituado às conceptualizações cinemáticas em torno do hip hop (Only Built 4 Cuban Lynx é um clássico entre clássicos que procuram fazer do cinema uma base para a produção de um álbum), mas sem nunca retirar a Ghostface Killah o protagonismo maior de uma colaboração que é, de facto, entre o MC de Long Island e Adrian Younge. “Ele é um vocalista muito cinemático, sabe bem como contar uma grande história, é uma das suas grandes vantagens enquanto MC”, descreve Younge. “Sempre desejei explorar essas características e criar um álbum de storytelling, que as pessoas pudessem visualizar na sua mente.”

Com uma confluência de ideias cimentada a partir da produção do primeiro episódio, Younge conta que não se encontrou com Ghostface Killah no estúdio para a gravação do álbum, limitando-se a construir os beats e a enviar ao MC nova iorquino para que, sobre eles, cuspisse umas rimas com base num guião também realizado por Younge. “Nós estamos sempre em sintonia, ele é muito inteligente e compreende bem as suas habilidades e características enquanto vocalista”, afirma Younge. “Apenas lhe enviei um guião com a narrativa para que ele o interpretasse e acabou por correr tudo bem.”

 


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“Não oiço música nova, estou sempre a ouvir discos antigos que nunca tinha ouvido. É por isso que o meu palato sónico permanece nesses limites e raramente salto fora das fronteiras musicais entre 1968 e 1973.”


O rap sempre teve a si associado o storytelling, já a arquitectura visual das líricas projectada em torno de um mundo ficcionado é uma arte em crescente exploração por uma fornada de novos produtores. Contudo, refuta Younge, “a cinematografia nada tem que ver com rap”, e sim o próprio ADN constitutivo da música. “Quando tens um conceito cinemático na música em geral, este ajuda-te a pintar uma imagem na mente das pessoas e quando tens a capacidade de criar visões com sons é sempre mais interessante, deixa de ser apenas música de fundo, é mais cativante, daí que haja mais gente interessada nesta abordagem.” E reeinterpretar Twelve Reasons to Die num filme, talvez numa curta, nunca foi hipótese? “Já pensei nisso, mas tenho muitas outras coisas pendentes neste momento. Tudo depende de tempo. O que é certo é que aos discos tem sido muito maior do que alguma vez imaginei e começo a sentir que isto caminha para uma trilogia, algo que nunca tinha pensado.”

A musicalidade de Adrian Younge e o seu registo-resgate da soul e do funk são elementos que direccionam os caminhos adoptados pelo produtor de 37 anos, embora nem sempre tenha sido assim. Até finais dos anos 1990, altura em que começou a dedicar-se às composições musicais, Younge era um ávido consumidor de hip hop, mas ao detectar as suas limitações à época – o sampling de loops continuados – descartou-se desses escutas e mergulhou nos discos antanhos de andamento soul e funk que passaram mais ou menos despercebidos. “Todas as minhas produções se baseiam em discos antigos”, explica. “Não oiço música nova, estou sempre a ouvir discos antigos que nunca tinha ouvido. É por isso que o meu palato sónico permanece nesses limites e raramente salto fora das fronteiras musicais entre 1968 e 1973.”

Não será, então, por acaso que Twelve Reasons to Die se desenrola nos anos 1960 e 1970 e transporta consigo aquele grão poeirento que se arrasta ao longo dos instrumentais: Younge não tem um computador ou dispositivo digital no seu estúdio e é um dos poucos produtores que utiliza exclusivamente objectos analógicos – da produção até à gravação. “Tudo o que faço não recorre a samples, é tudo tocado nos meus instrumentos e gravado em fita analógica”, descreve. “É tudo hardware antigo, não há computadores, nada do género. Simplesmente vou para o estúdio, pego num instrumento e componho música.” Com o desejo de vir a ser samplado enquanto produtor de soul com uma mente que compreende o hip hop, como o próprio admitiu.

 


 


Com Kendrick Lamar a descartar os beats programáveis e a recrutar uma série de ecléticos instrumentistas para To Pimp A Butterfly ou o próprio Ghostface Killah a unir-se ao trio neo-jazz BADBADNOTGOOD para Sour Soul, a posição de Adrian Younge face à música digitalmente produzida perde a sua carga disruptiva, ainda que contenha em si um carácter missionário quando recorre às influências passadas e as recria contemporaneamente. “Há tanta música perdida e tanta gente que gosta do que faço que tento sempre que escutem as coisas que me inspiram. Sinto que tenho uma missão para que as pessoas descubram muita desta música perdida.” “E se pudesse criar uma banda com todas as suas referências, quem é que a integraria?” “Idris Muhammad na bateria, Ron Carter no baixo, Herbie Hancock no teclado, Graham Green na guitarra e Miles Davis no trompete com Donald Berg.”

As particularidades da produção e a própria visão de Adrian Younge em relação à música conduziram-no à fundação, no ano passado, da editora e loja de discos Linear Labs, selo de Twelve Reasons to Die II. “Eu queria controlar [a música que produzo] criando uma empresa que providencia música com uma noção de feitura manual”, explica. “Eu quero que as pessoas sintam o erro humano nesses trabalhos, que sintam que há um ser humano a prestar muita atenção aos detalhes a oferecer um produto que quer ser o espelho de si próprio. Ter uma editora cultiva esta identidade e permite que as pessoas encontrem estes elementos num só lugar.” Mas deter uma editora pressupõe atenção face à música que se produz hoje em dia, um hábito que é veementemente descartado por Younge, pelo que sobram dúvidas sobre ao processo de escolha de artistas a representar. Ou talvez não, garante Younge: “É simples: se me inspirarem a fazer melhor o meu trabalho, então quero trabalhar com eles. Senão, não vale a pena. Por isso, estou sempre à procura que novos artistas que me influenciem.”

Depois de Twelve Reasons to Die II, Younge já tem em agenda uma série de produções a lançar ainda este ano, sempre com uma conceptualização visual na sua gestação. “Estou a produzir um álbum com Ali Shaheed Muhammed [A Tribe Called Quest] chamado Midnight House: One Night in Harlem, 1971 que será lançado no Outono. Conta com colaborações de Cee-Lo, Big Daddy Kane, Ladybug [aka Mecca dos Digable Planets], entre outros. Basicamente a trabalhar com pessoas com quem me sinto enamorado.”

Ricardo Miguel Vieira

Escrevo umas linhas em revistas e sites. Cultura, música, activismo, DIY, surfing são o meu universo. Se não me encontrarem por aí de headphones entre orelhas é porque estou algures no oceano.