Donnie Trumpet & The Social Experiment // Surf

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A verdade antes de mais nada: Chance The Rapper tem tanto sucesso a esconder-se no meio destes Social Experiment como Sam The Kid teve a ocultar-se no meio dos Orelha Negra. A diferença foi que Sam The Kid deixou o microfone em casa quando integrou o colectivo que já leva dois álbuns e duas mixtapes na sua bagagem. Quando foi editado como um download gratuito há um par de semanas através do iTunes, Surf foi anunciado como o sucessor de Acid Rap, o trabalho que de facto colocou o rapper de Chicago no mapa em 2013, mas na verdade, este é um trabalho dirigido por Nico Segal, o jovem prodígio de 21 anos que responde pelo nome artístico Donnie Trumpet, homem do leme do colectivo Social Experiment que Chance The Rapper integra.

Chance resguarda-se em Surf e deixa a luz incidir sobretudo em Donnie: apesar de marcar presença logo nas duas primeiras faixas, podendo assim aumentar a confusão sobre o seu real papel neste trabalho, as suas rimas só se escutam em cerca de metade dos temas do álbum e quase nunca de forma dominante. O resto é uma intensa tapeçaria de vozes e instrumentos pacientemente trabalhada sobre moldes soul, jazz, gospel e, claro, hip hop. É a forma como Chance se tece a ele mesmo neste emaranhado de talentos que faz de Surf um objecto tão curioso. A norte-americana Spin sublinhava isso mesmo quando se deu ao trabalho de enumerar as contradições de que se faz a até agora ainda curta, mas extremamente promissora, carreira de Chance The Rapper: “Ele quer fazer a sua música chegar ao maior número possível de pessoas, mas nunca editou um single. Ele é ferozmente independente, mas apareceu em canções de Madonna e Justin Bieber. Ele adora liderar singalongs com o seu público, mas odeia tocar os seus temas mais populares. Ele é um viciado em trabalho e rato de estúdio (…), mas tecnicamente ainda nem sequer editou o seu álbum de estreia. Ele é obviamente ambicioso, mas parece assustado pela falta de controlo que o sucesso implica (…)”.

Na verdade, pode entender-se esta estratégia, da diluição no caldeirão de talento que é este Social Experiment, como uma espécie de teste às águas, como o pé que cuidadosamente se mergulha na banheira para perceber se o banho de imersão está na temperatura correcta. Chance está obviamente a estudar as suas opções, a aguardar os desenvolvimentos da indústria, a tentar perceber qual a melhor maneira de fazer a sua música chegar às pessoas. Até agora têm sido as mixtapes, mais descomprometidas conceptualmente, e agora Surf, uma edição gratuita sem nenhum tipo de pressão comercial. Mas distribuída através do iTunes… Chance The Rapper está, certamente, a apontar alto. Quase que dá para apostar que o seu próximo trabalho em nome próprio terá algum tipo de ligação à recém lançada Beats Music, a plataforma multi-funcções da Apple que promete revolucionar o mundo da música.

Mas para já importa então este Surf, mais um álbum que é um intenso mosaico de sons, de ideias, de palavras, de géneros, ecoando, de certa maneira, a complexidade de To Pimp a Butterfly: arranjos de cordas, espessura coral, riqueza harmónica, variedade rítmica. Há por aqui muita ambição: Surf, sim, mas numa onda musical digna de comparação com as da Nazaré. Essa ambição não é meramente musical, no entanto, e Surf soa por vezes como uma produção de palco da Broadway a que se assiste de olhos fechados. E há imensos convidados: Busta Rhymes, Janelle Monáe, Jesse Boykins III, Erykah Badu… Elenco de luxo neste musical, portanto, em que Chance é mais um personagem, mas que consegue brilhar com intensidade (ouça-se “Rememory”, por exemplo).

Não se pode dizer que haja algo de errado com Surf para lá da indefinição da sua verdadeira natureza (é um álbum de Donnie Trumpet, do colectivo, de Chance The Rapper?). É, certamente, um novo tipo de disco, nascido de uma reflexão cuidada sobre o que significa estar no hip hop, estar na música, estar na indústria em 2015. E o que se pode e deve fazer neste novo cenário em permanente evolução. A resposta está algures em Surf, mas é necessário honrar este disco com múltiplas audições antes que um propósito mais nítido comece a emergir. E se isto é um preâmbulo à estreia a sério de Chance The Rapper então uma coisa é certa: ele está a colocar a fasquia bem alta. E é mesmo necessário começar a perguntar se 2015 não é um dos melhores anos de sempre da história do hip hop em termos de produção discográfica…

 

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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