Nascia há três anos Cimbron Celeste, disco de estreia que se afirmava tanto pela solidez das suas ideias e raízes como pela amplitude dos seus horizontes e imaginários. Acácia Maior apresentava-se, nesse momento, como uma hipótese em aberto ao futuro; hoje é possível reconhecer o modo como essas raízes germinaram, deram flor e fruto e se expandiram em múltiplas direções. Um crescimento que se fez sem pressa, respeitando tempos, ciclos e encontros, uma ética que continua a marcar o percurso do coletivo.
Vindo do Espaço reúne precisamente esses desdobramentos: um conjunto de singles, colaborações, remisturas e temas inéditos que funcionam como uma cartografia de uma viagem em curso. Mais do que um segundo capítulo, o disco apresenta-se como um arquivo vivo de experimentação e circulação, onde diferentes momentos do trajeto do coletivo se cruzam e se reconfiguram. Muita coisa mudou no projeto, desde logo a partida de Luís Firmino para Cabo Verde, o que trouxe desafios, mas também novas possibilidades de ligação às ilhas e ao continente africano. Talvez por isso neste novo trabalho, os ritmos da kazukuta se entrelacem com o carnaval de São Vicente, a coladeira com o semba, o funaná com a banderona ou a morna, sem esquecer o rock e a pista de dança, com as eletrónicas diaspóricas que cruzam tempos e espaços.
Neste contexto de transformação e continuidade, Henrique Silva, uma das metades do projeto, revisita nesta entrevista parte do caminho feito e o lugar deste novo disco no percurso do coletivo. Um disco onde o estudo das tradições e o interesse pelos cruzamentos e pela experimentação continuam a ser a chave de um projeto aberto ao futuro, e que aqui se encontra com nomes como Nancy Vieira, Ndu Carlos, Braima Galissá, Cristina Clara, Yacine Rosa, Nunuka Appuli, Berlok, OSSN e Fidju Kitxora e, cereja no topo do bolo, o lendário Tony Lima, que se junta a estas novas gerações, que não esquecem um dos ensinamentos maiores de Cabral: a luta de libertação é um ato e um fator de cultura. Quanto ao futuro, preferem continuar a não fazer planos e deixar que o tempo e os encontros vão ditando novos caminhos. Por aqui, continuaremos a acompanhá-los. Boa viagem!
Cimbron Celeste, o vosso disco de estreia, foi lançado há exatamente três anos. Quando conversámos nessa altura, falámos de Acácia Maior como uma hipótese em aberto ao futuro. Olhando para trás, que forma tomou essa hipótese e o que é que ainda permanece em aberto?
A nossa Acácia continua a ser uma árvore musical e cultural de todos que queiram participar dela. Eu e o Luís, como jardineiros mor deste projeto, continuamos na nossa pesquisa e na promoção de encontros de forma a entender para onde este projeto pode caminhar. O que continua, e espero que sempre, é esta abertura para a inspiração e a vontade de fazer, criar, produzir seja em que formato for, com quem for e onde for.
Olhando assim em retrospetiva, que momentos destes três anos destacam e o que mais vos surpreendeu no percurso que Acácia Maior fez?
Nestes três anos muita coisa aconteceu, mas ao mesmo tempo de sido uma viagem muito serena. A nossa música já inspirou filmes, foi banda sonora de várias obras cinematográficas, performances, publicidades, peças de teatro… É muito interessante ver como as nossas canções vão ganhando vários formatos, e várias vidas também quando são interpretadas por outros artistas, seja num barzinho no Mindelo, no Kriol Jazz na Praia, ou num festival da lusofonia em Macau. Mas no meu caso, talvez o que mais me surpreendeu, foi saber de artistas de quem sou fã tornarem-se também nossos fãs.
O vosso projeto nasceu em Portugal, mas, entretanto, o Luís Firmino fixa-se em Cabo Verde. Como é que essa mudança reconfigurou Acácia Maior? Imagino que se tenham colocado novos desafios, mas também se tenham aberto muitas potencialidades para esta ponte que desenvolvem agora entre Portugal e Cabo Verde.
Sim, essa mudança trouxe novos desafios à nossa forma de trabalhar o projeto, no sentido de termos de trabalhar mais à distância, algo que não acontecia nos primeiros anos de Acácia. Mas essa distância minha e do Luís proporcionou um encurtamento da distância do projeto com a nossa terra natal. Com o Firmino em Cabo Verde, conseguimos chegar a mais público lá, conhecer mais artistas para colaborar, e ter mais concertos e atividade. E era algo que já ambicionávamos deste do início de Acácia, e que, agora aos poucos vamos conseguindo realizar.
Vindo do Espaço foi lançado hoje de surpresa e é um álbum onde, de certa forma, podemos escutar dos muitos momentos e encontros do vosso percurso. Sentem que é um gesto de continuidade como caminho feito ou antecipa já alguns caminhos futuros?
Eu sinto que este disco é um trabalho de continuidade em relação àquilo que temos vindo a fazer. A “fórmula” ainda é um pouco a mesma. Precisávamos de consolidar ideias sem, claro, repeti-las. Talvez aqui tenhamos aprofundado um pouco aquilo que aprendemos em Cimbron Celeste. Mas também gosto de acreditar que este trabalho seja o fecho de um ciclo e também um abrir de portas para inspirações futuras. Não queremos ficar estanques em formas de trabalhar.
Em Cimbron Celeste falavam de uma viagem pelas ilhas e pelo tempo. Este novo disco prolonga essa ideia de viagem ou propõe novas cartografias?
Vindo do Espaço continua a ser uma viagem pelas ilhas e pelo tempo, mas também como mais incursões ao continente mãe. Temos, por exemplo, os mestres Ndu Carlos ou Braima Galissá gravados neste disco, e pudemos trazer sabores de Angola e Guiné, que antes nunca tínhamos experimentado.
A capa parece condensar muito do imaginário do disco. O que é que ela nos diz antes mesmo de ouvirmos a música? Que universo visual e simbólico está ali a ser convocado?
A capa, do nosso amigo e grande mestre José Mendes, tirada no Tarrafal de Santiago nos anos 90, e com uma inspiração cromática no disco Nevermind the Bollocks dos Sex Pistols, retrata um pouco o nosso espírito punk dentro da dita música tradicional cabo-verdiana. Aliás, o nome do disco vem dessa foto, com o nome do barco Vindo do Espaço. Sinto que neste disco estamos mais próximos da nossa terra Cabo Verde. Se em Cimbron Celeste fomos dar umas voltinhas ao espaço sideral da inspiração, neste novo disco fazemos a viagem de volta a terra. Como se aquele bote fosse a nossa nave espacial, o nosso estúdio ambulante.
O álbum cruza diferentes gerações e linguagens: vozes como Nancy Vieira ou Tony Lima, mas também artistas mais jovens como Berlok ou Yacine Rosa, além de remisturas por DJs e produtores. Como é que pensaram este diálogo entre tradição, contemporaneidade e reinterpretação neste novo gesto artístico?
Esse pensamento é intrínseco ao projeto de Acácia Maior. Este álbum é praticamente uma recolha de singles, featurings e temas que tínhamos na gaveta já há algum tempo. A ideia de chamar o Berlok e Fidju Kitxora para fazerem remixes de temas do álbum surgiu de forma espontânea ao organizar as músicas que tínhamos. Sentimos que seria interessante colocar um olhar de fora, mas que também é de dentro, sobre das nossa canções, e abrir mais possibilidades para que essas músicas possam ser tocadas em ambientes distintos.
Há temas, como “Amílcar Cabral (Bu Mori Cedo)”, que convocam figuras e memórias políticas muito fortes. Tendo recentemente assinalado os 50 anos das independências, que lugar ocupa hoje a história — e, em particular, a história da libertação e da independência — no vosso trabalho?
Esse tema, sem dúvida, é muito especial para nós. Foi uma musica produzida para o trabalho que virá a ser o primeiro disco a solo do grande Tony Lima, homem de muitas lutas e figura incontornável da cultura e da história da libertação e construção do nosso país. Este tema foi escrito por ele aquando da morte de Amílcar Cabral, e foi editado pela primeira vez no lendário disco Korda Skrabu (1974), de Kaoguiamo, do qual ele foi fundador. Para nós é uma honra poder conviver de perto com figuras de tamanha importância para a nossa história, e poder trabalhar com o Sr. Tony é quase como uma forma de agradecimento por aquilo que foi feito no passado. Estamos neste momento a trabalhar no disco dele como produtores. A libertação e independência é um processo continuo, nós apenas tentamos contribuir, nos dias de hoje, para aquilo que foi iniciado lá nos anos 60.
E agora sobre o futuro, que novos caminhos se desenham para Acácia Maior?
Nunca fazemos grandes planos de futuro. Vamos seguindo a intuição e a inspiração. Como referi na resposta da pergunta anterior, temos o disco do Tony Lima para terminar e temos agora este Vindo do Espaço + Cimbron Celeste para serem tocados ao vivo. Temos um mundo inteiro para levar a nossa música. Queremos fazer muito mais na e para a nossa querida terra Cabo Verde. Temos muita coisa para fazer, mas ao mesmo tempo não queremos forçar nada. Tudo que terá de acontecer com a Acácia virá a seu tempo.