5K7s #7

[TEXTO/FOTOS] Rui Miguel Abreu

 

Ao ouvir o novo lançamento da portuguesa Golden Mist, assinado por RAP/RAP/RAP e sobre o qual poderão ler mais detalhadamente daqui a um parágrafo, relembro-me que uma das razões para apreciar cassetes está no som que elas podem debitar: uma boa cassete de crómio duplicada profissionalmente em máquinas bem limpas e calibradas pode soar como um pequeno milagre, arredondando os baixos e dando espessura às baterias ao mesmo tempo que faz favores a qualquer soft synth processado através de uma placa de som baratucha. Se não acreditam, ora carreguem lá no play

(Nota: o 5K7s deste mês contém na verdade sete cassetes já que a entrada de Angus Maclise se refere a uma tripla cassete)

 


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[RAP/RAP/RAP] Killing
(Golden Mist, 2015)

Cassete adquirida na banca cooperativa da Golden Mist/One Eyed Jacks/A.M.O.R./1980 montada na última edição do Mercado de Música Independente, esta Killing assinada por RAP/RAP/RAP é um portento servido por excelente som e óptima noção de mistura e masterização. O trabalho é apresentado como uma viagem a uma juventude passada nos anos 90 em modo de mergulho num universo feito de consolas e hip hop. A tradução desse mergulho para o presente resulta numa viagem abstracta por um labirinto de beats e bleeps, com uma óptima noção de espaço sonoro e uma contagiante e lúdica gestão dos arranjos, o que torna Killing em matéria de excepção para auscultadores de qualidade. Isto é hip hop em suspensão fantasiosa num sonho tido algures numa casa de jogos de arcada em Tóquio ou talvez na Los Angeles imaginada por Ridley Scott em Blade Runner.

Killing teve edição original em formatos digitais durante 2014 e merece agora upgrade analógico, gesto que a Golden Mist pretende repetir com outros títulos do seu catálogo.

Killing está disponível em cassete com caixa de plástico transparente e branco, com insert simples e concha em plástico cor-de-rosa opaco. A edição em cassete é extremamente limitada.

 


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[ZOMBI] Shape Shift
(Relapse, 2015)

Os Zombi de A.E. Paterra e Steve Moore regressaram aos discos em 2015 com este extraordinário Shape Shift, álbum que sucede a Escape Velocity de 2011 e que é já o quinto trabalho de originais na conta da dupla de Pittsburgh desde que se estrearam a sério com Cosmos no já distante ano de 2004.

Este Space Shift foi, previsivelmente, editado em todos os formatos possíveis de imaginar, incluindo os digitais do costume – vinil de todas as cores e feitios, CD e, claro, cassete. O que faz pleno sentido, já que a música aqui presente – apoiada na já bem rodada fórmula do duo de musculadas bases de baixo e bateria sobre as quais são disponibilizadas diferentes camadas de texturas sintetizadas devedoras das lições primeiramente apresentadas ao mundo por gente como John Carpenter em bandas sonoras míticas como a de Halloween ou Escape From New York – evoca precisamente a época dos anos 80 em que este suporte era rei e nenhum Camaro era autorizado a fazer-se à estrada sem um porta-luvas bem apetrechado de cassetes. Ao ouvir-se Shape Shift também se entende claramente que os Zombi tenham encontrado poiso editorial na Relapse, etiqueta conhecida por explorar diversas vertentes do metal no seu catálogo. Há algum peso nesta música que soa como tendo sido criada para ser executada ao vivo e como ideal para praticantes dessa nobre, mas rara arte do “air synth”.

Cassete apresentada em caixa de plástico que imita uma caixa de DVD de tamanho um pouco mais reduzido com insert simples impresso a cores e concha em plástico branco opaco.

 


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[HEAD TECHNICIAN] Zones
(Ecstatic, 2015)

Head Technician é Martin Jenkins e Martins Jenkins é Pye Corner Audio e portanto Pye Corner Audio é Head Technician. Percebe-se que Jenkins queira editar esta Zones com outra identidade. O que nasceu como uma identidade hauntológica parece agora estar a evoluir para um criativo produtor de electrónica mais dançante, assumindo certamente uma influência clara dos trabalhos que Danny Wolfers vai lançando como Legowelt. O terreno, tal como acontece com boa parte das produções de Pye Corner Audio, ainda é o da memória, mas desta vez centrado nos primórdios house e techno, quando a 303 ainda dominava os estúdios caseiros de quem em Detroit ou Chicago procurava traduzir o futuro que ouvia dentro da sua cabeça. Com recurso a uma Roland TR-606, a uma MC-202 e, claro, a uma TB-303, Jenkins criou um álbum de techno analógico de forma algo aleatória, tocando todos estes temas ao vivo directamente para o disco duro do seu computador efectuando pequenos ajustes já em fase de pós-produção. E o resultado é uma satisfatória viagem no tempo, uma re-imaginação de uma sessão no Institute de Detroit ou no Muzic Box de Chicago, às 4 da manhã, num qualquer fim de semana de 1989. A edição é da Ecstatic de Alessio “Not Waving” Natalizia.

Cassete em caixa de plástico transparente, com insert desdobrável e cassete em concha branca opaca.

 


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[ANGUS MACLISE] Tapes
(Plesasure Editions, 2015)

São três cassetes numa belíssima edição da Pleasure Editions (disponível com as três cassetes ou num bundle de luxo a que se juntam alguns livros de poemas e desenhos de Maclise) que reúne trabalhos experimentais do poeta, compositor, percussionista e artista visual que integrou o Theatre of Eternal Music de LaMonte Young e, mais notoriamente, uma versão primitiva dos Velvet Underground de Lou Reed e John Cale (durante para aí cinco minutos). Hippie inveterado, explorador do oculto, Maclise acabou por viajar até ao Nepal onde permaneceu até à sua morte em 1979, num hospital de Katmandu. Estas cassetes reúnem material das incontáveis horas de gravações caseiras que fazia com uma assinalável quantidade de instrumentos, incluindo alguns sintetizadores primitivos, e que depois tratava com efeitos para criar hipnóticos mantras de ruído. Loucura pura, mas doce.

Cassetes disponíveis em caixa transparente, com inserts simples com fotos, impressos a sépia ou cores e conchas opacas em cores branca, preta e amarela.

Na impossibilidade de encontrar link para material contido nestas cassetes, incluímos aqui um excerto da excelente edição na Sub Rosa New York Electronic, 1965

 


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[GONZELVIS] Cete
(Marvellous Tone, 2014)

Esta cassete já data de 2014 e até já consta por aqui há algum tempo, mas ainda não tinha tido real oportunidade de me atirar a ela. Sou admirador do trabalho de Guna X, muito ligado à Marvellous Tone e que assina aqui um dos remixes, por isso até estranho não ter prestado atenção mais cedo a este lançamento. Não faço ideia de quem seja este Gonzelvis, mas a música aqui apresentada é uma síntese de muita coisa: do electro, 8 Bit, ao hip hop e R&B passando pelo drum ‘n’ bass, como se numa batedeira fosse possível meter uma série de CDs e extrair uma energética mistura de todas essas coordenadas, com todas as sonoridades num concentrado capaz de apontar em todas as direcções ao mesmo tempo.

Edição em caixa transparente simples, com insert simples a cores e cassete em concha cor de rosa opaca.

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu