5K7s #3

[FOTOS] Rui Miguel Abreu

 

Por vezes tem-se a sensação de que o filão das cassetes vai terminar, mas de repente mais um conjunto generoso de lançamentos neste formato é anunciado e mais uma série de pacotes atravessa oceanos ou fronteiras terrestres para aterrar aqui em casa.

Ao contrário do que aconteceu nas duas primeiras edições desta coluna, desta vez as cinco cassetes aqui apresentadas (na verdade são sete, como irão perceber…) são lançamentos exclusivos neste formato (no que ao plano físico diz respeito, claro, porque todas acabam por estar também disponíveis como ficheiros digitais para download ou streaming). As cassetes de Ghostface Killah com BADBADNOTGOOD ou Ras G de que aqui falei anteriormente são lançamentos que também existem em paralelo em vinil ou CD (no caso de Ras G, os 3º e 4ª volumes de Raw Fruit deverão estar para chegar ao formato vinil muito em breve), mas os cinco títulos aqui apresentados nesta terceira edição da coluna existem apenas em cassete. O que é sintomático da boa saúde deste suporte, para já pelo menos.

Entretanto, já há mais títulos a caminho para a quarta edição da 5K7s, mas importam para já estes títulos, divididos por três diferentes catálogos e por diferentes estilos, da electrónica experimental e planante ao techno, passando pelo hip hop e a new age.

 


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[ABUL MOGARD]
(The Sky Had Vanished, Ecstatic, 2015)

 

Curiosa a história de Abul Mogard, revelada originalmente através de três edições na VCO de Steve Moore e A.E. Paterra, os homens do projecto Zombi. As cassetes lançadas na VCO entre 2012 e 2014 revelaram o exploratório trabalho deste músico e compositor de Belgrado, na Sérvia, que toda a vida trabalhou numa metalurgia e só depois da reforma começou a fazer música. Não deixa de ser curioso que o seu trabalho esteja a ser valorizado por etiquetas que são orientadas por outros músicos: os já citados Moore e Paterra no caso da VCO e, claro, Alessio Natalizia e Sam Willis, no caso da Ecstatic que agora lança este The Sky Had Vanished. Trata-se de um extraordinário trabalho ambiental, denso, criado nas sombras, de longos drones em lenta evolução que a própria Ecstatic situa algures entre Brian Eno e Tim Hecker. Coordenadas correctas, embora neste trabalho em particular Mogard soe mais negro do que Eno e talvez mais primitivo do que Hecker. Apaixonante, em qualquer dos casos.

Primeira edição de 50 cassetes em concha transparente e caixa com insert simples impresso profissionalmente com artwork a preto e branco. Existe já uma segunda edição com concha branca.

 

 


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[PRIMITIVE WORLD]
(Ascention, Ecstatic, 2015)

 

Mais um lançamento da Ecsatic de Alessio Natalizia e Sam Willis, desta vez numa linguagem diferente, mais techno. Primitive World é Sam Willis, a outra metade dos Walls que tem espalhado trabalho por etiquetas como a Black Acre ou a Obsession Recordings e que agora se estreia na Ecstatic no mais dilatado formato de cassete (até agora só tinha apresentado maxis em vinil). Em Ascention há quatro “cuts” (os temas não têm títulos) simplesmente numerados, o que não revela nada sobre o universo conceptual deste Primitive World. Mas o texto na página bandcamp descodifica o título Ascention (a grafia errada de Ascension não se percebe se é propositada – talvez para distinguir do clássico de Coltrane?) como uma referencia a símbolos arquétipos de acensão encontrados em várias culturas – escadas, cordas, árvores, etc – e que se referem à união do terreno e do sagrado. Interessante. Willis consegue traduzir essas ideias num techno primitivo, com padrões rítmicos resgatados a velhas caixas de ritmos, tudo bastante lo-fi e muito processado.

Edição de 50 cópias com concha roxa e insert simples com artwork a preto e branco. Também neste caso há uma segunda edição, desta vez com concha verde.

 

 


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[DRAE DA SKIMASK]
(’95 Mindfulness, Astral Black, 2015)

 

Acabadinha de editar (data oficial de 17 de Julho), esta cassete já se encontra esgotada o que demonstra bem o hype que actualmente parece rodear a Astral Black. este lançamento marca a estreia em nome próprio do jovem Drae Da Skimask, produtor de apenas 19 anos (prestes a completar 20 – o ’95 do título referencia o seu ano de nascimento), residente em Londres, mas parte de uma online production crew, os Swisher Boys, que alarga a sua influência da Europa aos Estados Unidos. Drae já trabalhou com rappers underground de ambos os lados do Atlântico e parece ser um nome com algum eco nesses círculos. Ouvindo as suas produções aqui apresentadas, percebe-se porquê: algures entre uma memória boom bap distorcida e uma toada algo chopped and screwed, Drae afirma uma modernidade em sintonia com alguns dos mais estimulantes caminhos seguidos pela actual cultura rap. E apesar de instrumentais, o material aqui apresentado nesta cassete não se ressente da falta de MCs, até porque há uma dimensão narrativa na forma como Drae vai pontuando alguns dos seus beats com vozes e sons que parecem contar histórias. A ter debaixo de olho, definitivamente.

Cassete limitada a 75 exemplares numerados com concha cinzenta opaca e insert desdobrável em papel reciclado de alta qualidade.

 

 


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[INKKE]
(Faded With Da Kittens, Astral Black, 2014)

 

Mais um título na Astral Black, mas este já datado de Março do ano passado, mas só agora transplantado aqui para casa. Faded With Da Kittens começou por ser uma simples edição de autor digital que a Astral Black depois incluiu no seu catálogo. Entretanto, Inkke já lançou outro material em vinil, incluindo um 10 polegadas com carimbo dos Red Bull Studios. Este álbum com 11 títulos situa-se firme em terreno hip hop, denso e hipnótico – influências chopped and screwed bem notórias -, com ecos de trap e grime nas programações e colaboração de DePTHS, rapper de Glasgow com algum trabalho também lançado em nome próprio (a checar o seu álbum com Scatabrainz disponível no Bandcamp).

Esta cassete teve edição limitada a 100 exemplares e está disponível em concha opaca azul e insert desdobravável impresso em papel reciclado de qualidade.

 

 


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[LARAAJI]
(All in One Peace, Leaving Records, 2015)

 

Este pacote, espiritualmente correcto ao ser embalado num envelope de cartão cor de laranja, a cor usada por mestres de ioga ou meditação, inclui três diferentes cassetes aqui reeditadas pela primeira vez desde que foram originalmente lançadas nesse formato entre finais dos anos 70 e inícios dos anos 80. Lotus Collage (1978) é a primeira e Laraaji apresenta-a como uma das suas primeiras gravações caseiras em cítara eléctrica (são 59 minutos ao todo); Unicorns in Paradise (1981) estende-se por 64 minutos e acrescenta aos timbres da cítara processada electronicamente os sons do teclado Casiotone MT-70, o que lhe dá uma dimensão mais claramente electrónica; finalmente há Connecting With The Inner Healer Through Music (1983), quase 90 minutos de música que incluem ainda cinco movimentos de outra edição de autor de Laraaji, Rhythm and Blues, de 1982. A peça que dá título à cassete veio de um workshop com o mesmo nome realizado em 1983. Igualmente de recorte mais electrónico. Trata-se de new age de primeira água, música ambiental que obviamente ajuda a explicar o fascínio que Brian Eno sentiu quando descobriu Laraaji a tocar nas ruas de Nova Iorque editando-o na época na sua editora EG (a primeira destas cassetes precede a edição de Day of Radiance por Eno em 1980, as duas restantes são posteriores e mais exploratórias).

Edição em três cassetes que reproduzem os artworks originais em cassetes de concha preta com etiquetas de papel coladas.

 

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu