5K7s # 11

[TEXTO/FOTOS] Rui Miguel Abreu

Mais de um mês passou desde a última incursão pelo universo férreo (ou cromado, se tivermos sorte) das cassetes, mas não por falta de novos títulos já que se têm acumulado aqui em casa os lançamentos recentes que ainda não tiveram tempo de ser destacados no 5K7s. Na verdade, depois destas cinco edições já ali estão escolhidas as próximas 5 a abordar e já estão a caminho mais algumas. O formato continua, claramente, de boa saúde.

Como por vezes acontece (foi o caso da edição anterior do 57s – dedicada a J Dilla) há uma certa unidade temática nesta nova selecção: não só são todos títulos disponíveis no Bandcamp – plataforma cada vez mais usada por quem lança neste formato mas quer igualmente assegurar distribuição digital dos seus títulos de forma independente – como seguem igualmente o conceito de bandas sonoras imaginárias ou pelo menos de alguma fantasia electrónica a remeter para os anos 80, como poderão constatar já a seguir.

Começamos na inevitável Nightwind Records de Danny Wolfers que, como saberá quem siga o Rimas e Batidas de forma regular, já nos forneceu combustível analógico em artigos anteriores.

Podem pegar nos vossos walkman e carregar no play!

 


nomad ninja tape

 

[NOMAD NINJA] Avond Sluimer
(Nightwind Records, 2015)

“Jazz sintetizado amador para o psiconauta sério”, garante Danny Wolfers, o homem por trás da “identidade” Nomad Ninja e de mais um trilião de outras máscaras. Acontece que a cada nova máscara, Danny Wolfers consegue a proeza de soar quase sempre ao mesmo: ele é, obviamente, obcecado pela sonoridade de uma determinada época, quando a tecnologia transistorizada dos sintetizadores começou a substituir os arsenais analógicos introduzindo uma mais urgente – e digital – ideia de futuro. Entre a library music tardia da Bruton, algumas derivas ambientais europeias (Klaus Schulze vem à ideia), música para cinema e para vídeos jogos, estas fantasias desenvolvem-se de forma tranquila. Estes discos de Danny Wolfers, que, como sabem, grava techno como Legowelt, soam como se fossem gravados ao primeiro take, sem grande calculismo ou pós-produção. É, por isso mesmo, música incrivelmente honesta. E nesse sentido entende-se a evocação da ideia de jazz pelo próprio autor, já que a improvisação desempenha aqui um papel central.

Edição especial em caixa de plástico que imita as antigas caixas dos VHS, com artwork desenhado pelo próprio Danny Wolfers. Inclui ainda autocolante especial, em relevo, com artork adicional de Wolfers. Cassete em concha azul opaca. Edição limitada.

 

 


swan song tape

 

[DANNY WOLFERS] Swan Song of the Skunkape Original Soundtrack
(Nightwind Records, 2015)

Danny Wolfers, que assina este lançamento em nome próprio, não facilita e apresenta Swan Song of the Skunkape como a “banda sonora para o documentário de Brad Abrahams sobre o mais estranho residente bípede da Florida do Sul”, o tal Skunk Ape, espécie de mítico “big foot” que preencheria a imaginação dos editores de publicações do género Jornal do Incrível. Tudo grita “delírio!”, mas o bom senso obriga-nos a uma busca no google e eis que o extraordinário acontece:


 


 

O “documentário” pelo menos existe, tornando esta “banda sonora” um objecto menos conceptual e menos fantasioso do que seria de pensar tendo em conta que se trata de um lançamento da Nightwind Records de Danny Wolfers, homem que gosta de imaginar cientistas nórdicos em reclusões árticas a combaterem a solidão com a ajuda de um Juno 60. Brad Abrahams é real. Tal como a música aqui incluída, embora boa parte não tenha sido usada no documentário que é de curta duração.

Ambientalismo de recorte new age mas com um subtetexto algo perturbador, como se através dos cristais Wolfers vislumbrasse uma realidade paralela assustadora. Os drones glaciares dos sintetizadores soam como se viessem de outro tempo, mérito da abordagem lo-fi à produção que só confere autenticidade a um score que parece saído de um documentário de finais dos anos 70 sobre… bem, tendo em conta algumas das passagens, sobre, certamente, um qualquer ser mítico cuja veracidade a comunidade científica desprezará, mas que animará sempre a imaginação de visionários menos conformados. Como Abrahams ou Wolfers.

Uma vez mais, a edição é numa caixa que imita as antigas “clamshells” de VHS (Wolfers descreve melhor: “luxurious faux leather mini VHS vintage ZXSpectrum/C64 box”). Inclui um “micro zine” fotocopiado. Cassete em concha verde opaca. Edição limitada.

 


gavino morretti alien terrors tape

 

[GAVINO MORRETTI] Alien Terrors (Original 1982 Motion Picture Soundtrack)
(Disko Nero Recordings, 2015)

Garante-se que se trata da edição da banda sonora de 1982 do filme Alien Terrors com música de Gavino Morretti. Mas, ao contrário do que sucedeu no caso anterior, de Danny Wolfers, o google não ilumina algum recanto do passado que nos pudesse ter escapado. Uma busca pelo “compositor” Gavino Morretti só gera resultados do discogs da própria Disko Nero Recordings. O autor é no entanto suficientemente inteligente para no título desta falsa banda sonora ter citado um filme que de facto existe, com o pormenor de lhe ter apenas alterado o singular original para um plural de fantasia: Alien Terror foi uma daquelas produções de série Z com banda sonora de Guido e Maurizio de Angelis que encheu os cinemas de bairro no início dos anos 80.


 


 

A música, electrónica e pulsante, segue de forma brilhante todos os clichés do género, claro: acordes menores, stacatos, drones plenos de tensão, percussão orquestral banhada em reverb. Ou seja, puro mel para os ouvidos de quem possa ter crescido nesta época e ter apanhado ainda a era dourada das obscuras edições em VHS.

Edição em caixa de plástico com artork a cores em insert impresso profissionalmente. Cassete em concha vermelha com etiqueta em papel colada. Edição limitada a 50 exemplares.

 

 


Vi-Res first people tape

 

[VI-RES] The First People (Soundtrack to The Motion Picture)
(Disco Cinematic, 2015)

“Há muitas, muitas eras”, começa-se por se escrever na página bandcamp deste lançamento. Está lançado o mote conceptual para esta “banda sonora” assinada por Vi-Res, alter-ego de Michael Figucio que edita na australiana Disco Cinematic. A julgar pelo mural facebook deste artista, estas fantasias electrónicas parecem estar a render dividendos reais – Vi-Res anunciou estar a trabalhar na banda sonora de um filme com o título Jenny Dixon Beach.

Musicalmente, a fórmula não só é previsível como honestamente assumida: Carpenter e Goblin são referências apontadas e que servem de facto de ponto de partida para as explorações de Vi-Res. No caso desta “banda sonora” em concreto, há momentos de aproximação a uma sonoridade “italo disco” mais pop (como “Beneath The Surface”) que são bastante bem conseguidos. Fantasia, sim, mas bem executada, com atenção aos detalhes tímbricos correctos que garantem alguma “autenticidade” e rigor.

Cassete em caixa transparente com insert com artwork de tons escuros. Cassete em concha transparente com etiqueta colada. Edição limitada a 40 exemplares (está igualmente disponível em CD).

 

 


vi-res sunstar tape

 

[VI-RES] Sunstar
(Disco Cinematic, 2015)

Os títulos dos temas não permitem disfarçar o conceito aqui explorado: “Sunstar”, “Solar Wind”, “Stars”, “Space Junk”, “String Theory”, “Light Years”. Se no trabalho anterior a ideia de ficção científica estava implícita, aqui está exposta até ao osso. Camadas e camadas de sintetizadores, toques de “italo disco” que conferem alguma tensão funcional a esta música – pelo menos se forem djs nalguma discoteca frequentada por robots – e produção sólida, de quem estudou atentamente as lições de uma época em que os neons, os jogos de arcada, o cinema de série B erguido na sombra de Star Wars e “condenado” a uma existência paralela em VHS e os primeiros jogos de computador traduziam uma vertigem de futuro muito própria. Por vezes, o terreno frequentado por Vi-Res não é muito distante do que já foi percorrido pelos Zombi. Mais mel para ouvidos de quem não consegue ouvir suficientes arpégios sintetizados e se maravilha com “synth porn”.

Cassete de edição limitada disponível em caixa transparente com insert desdobrável impresso profissionalmente. Concha transparente com etiqueta de papel preto com lettering vermelho colada em ambas as faces.

 

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu