O primeiro concerto da edição do festival bracarense Julho é de Jazz aconteceu ontem, no gnration. Em palco estiveram três quartos dos أحمد [Ahmed], com a ausência do pianista Pat Thomas a ter sido comunicada pela organização algumas horas antes. Presentes estiveram, portanto, o saxofonista Seymour Wright, o contrabaixista Joel Grip e o baterista Antonin Gerbal. O concerto, desvende-se já, foi extraordinário e premiado com uma ovação de pé.
Quem possa já ter visto a formação completa dos [Ahmed] em plena queda livre sobre o abismo do desconhecido saberá bem que a sua música vive, precisamente, nesse espaço que se ergue entre a ausência e a permanência, um lugar especial onde convivem a memória, a experiência e a absoluta necessidade da partilha colectiva de um genuíno impulso de descoberta. E isto serve para dizer que quando sobre a incessante base rítmica conjurada por Grip e Gerbal – certamente uma das melhores duplas de contrabaixo e bateria do lado mais livre e criativo da música contemporânea – se escutam o espiritual e compacto martelar de Thomas e o microtonal fraseado telegráfico de Wright há sempre a evocação de múltiplos espíritos que se tornam presentes à medida que a sua música avança a direito, sem desvios, honesta e incorruptível. O de Ahmed Abdul Malik, certamente, músico que lhes inspirou/guiou boa parte das entradas no seu catálogo e lhes cedeu o nome; o de Thelonious Monk, que é o alvo da mais recente entrada na sua discografia; mas também os talvez mais inesperados espíritos de outros génios como Jah Shaka ou RP Boo, este um espírito de corpo presente que a partir de Chicago propôs um outro tipo de léxico rítmico para alcançar o êxtase. Ontem, o espírito de Pat Thomas ocupou esse mesmo lugar espectral no palco, com a música ali criada instantaneamente a deixar espaço para que a nossa imaginação nela encaixasse os aglomerados atonais que Thomas sabe esculpir como mais ninguém.
A música dos [Ahmed] é enformada por essa escuta atenta da história que separa a Nova Orleães primal da Chicago ou Londres contemporâneas, pelo swing das grandes orquestras de Basie ou Ellington, pelas densas camadas de graves com que os sound systems envolvem o carnaval de Notting Hill ou pela incessante barragem rítmica com que o footwork une corpos nas pistas de dança. O abandono desta dimensão acontece através da repetição, instância que nos [Ahmed] é uma espécie de ética: impele-nos a acreditar que no meio daqueles loops criados em tempo real e de forma puramente orgânica há novos mundos carregados de maravilhamento.
E foi certamente isso que sucedeu ontem: Grip pode ter sido o mais discreto dos três músicos e, ao início pelo menos, o menos favorecido pelo som da sala, mas à medida que a performance avançava tornava-se nítido o espaço crucial que o seu instrumento preenche na arquitectura angular, matematicamente precisa e sinceramente fascinante do colectivo. Com arco, esse espaço tornou-se ainda mais nítido, com o drone conjurado a servir como moldura harmónica para os companheiros. Gerbal, por seu lado, é uma locomotiva alimentada pela eterna vibração do universo, um baterista de rigor absoluto e swing quântico, que, quase no final, desembocou num groove absolutamente monstruoso e – peço desculpa, mas aconteceu e não há como negá-lo – claramente dançante. Pelo menos tão dançante como a tal música que Shaka e Boo sempre souberam debitar através de sistemas de som que são, na verdade, portais para universos paralelos.
Por cima de tudo, seguiu a direito Seymour Wright, saxofonista de tom portentoso, que através de frases rápidas, incessantes e afiadas foi passando tangencialmente por melodias que soavam familiares antes de as abandonar e prosseguir caminho para outras paragens, sem nunca “solar”. Aliás o concerto – uma peça única de uns 70 minutos – não teve um único solo. Os três músicos entraram em palco, não disseram uma palavra, não mencionaram a ausência de Pat Thomas – talvez porque, lá está, ele não estivesse de facto ausente… – e atiraram-se em simultâneo a essa missão permanente renovada de nos levarem a um lugar novo ao convidarem-nos a deixarmos qualquer expectativa para trás. À minha frente, alguém expressava reservas: “Bem, isto de irem tocar Monk sem piano… vamos lá ver como corre”. Na verdade é possível pintar o nascer do sol sem amarelo ou esculpir uma pietá sem electricidade ou até erguer uma casa sem paredes. Basta pensar de outra maneira. E os [Ahmed], já não restam dúvidas, pensam mesmo de modo diferente. Que privilégio é poder escutar-lhes esse pensamento.