Sumol Summer Fest 2018 – Dia 2: menos é mais

[TEXTO] Alexandra Oliveira Matos, Alexandre Ribeiro e Ricardo Farinha [FOTOS] Sebastião Santana

Num dia com nomes internacionais de peso coube a Piruka aquecer as articulações “hipopianas” de milhares de jovens provavelmente doridos de um primeiro dia cheio da energia de Wet Bed Gang e a peladinha Portugal – Brasil. NelAssassin apresentou-se sem falhas nos pratos durante quase um quarto de hora. O DJ passou por todo o tipo de clássicos, nem sempre com a reacção mais eufórica de uma multidão que se acumulava mais e mais à espera do dono de milhões de visualizações no YouTube.

O rapper da Madorna entrou em palco com Savage, Vate MC e Timor — a família que suporta qualquer falha no folgo. “Tens de Intervir” da mixtape Quatro Cantos, de 2014, foi a escolhida para abrir um alinhamento cheio de músicas conhecidas por todos os adolescentes em que se destacou “Não se Passa Nada” cantada em uníssono com o público. Nota para a ausência de “Ca Bu Fla Ma Nau” na setlist em que não faltou “Só vim dizer Yau” e “Não faz Isso”. Pelo meio houve espaço para homenagear Puto G, o rapper da Cova da Moura que faleceu há poucos dias. Com a multidão a gritar “Puto G”, Timor YSF cantou “Peso nas Costas Carrega”. Competente: pode ser a palavra escolhida para resumir o concerto.

 



Directamente de Chicago para a Ericeira, Vic Mensa mostrou em pouco menos de uma hora que é um artista diferente. Carismático e talentoso, o artista norte-americano é rock na atitude e nas tatuagens (tem “Where Is My Mind” tatuado na cabeça) e skinhead na indumentária.

A abrir, “Say I Didn’t” serviu como aquecimento para “U Mad”, uma bomba confeccionada com Kanye West que, passados três anos, ainda contém a mesma potência. Os moshpits foram parte de um alinhamento que teve os seus pontos fracos nas tentativas sofríveis de cantar em instrumentais mais indie rock/guiados pelas guitarras. Nem o auto-tune ajudou (mesmo que a culpa nem tenha sido totalmente sua).

A meio do concerto, Mensa subiu a estrutura metálica do palco e atirou-se de uma altura assinalável para cima do público. Um momento arriscado que trouxe alguma vida à actuação depois de uma paragem de cerca de 10 minutos que arrefeceu a audiência.

Perante um público que pareceu conhecedor de alguns temas da sua discografia — tocou faixas de There’s A Lot Going On e The Autobiography –, Mensa também apelou à paz, falou sobre os problemas nos Estados Unidos da América e as políticas de imigração na Europa e ainda dedicou “16 Shots”, uma das suas músicas mais fortes, a todos aqueles que perderam a vida nas mãos da polícia. Mesmo com falhas, nota positiva para a estreia do músico em Portugal.

 



Se no primeiro dia de Sumol Summer Fest tivemos French Montana como cabeça de cartaz, no segundo tivemos a honra e o privilégio de recebermos Joey Bada$$. A antítese total, dentro do panorama do rap, portanto. Aos 23 anos, Jo-Vaughn Virginie Scott apresenta-se como um dos nomes mais interessantes da sua geração. O rapper é o herdeiro da importante escola dos anos 90 de Nova-Iorque — nas suas músicas, sobretudo as mais antigas, das mixtapes ou do álbum B4.DA.$$, de 2015, conseguimos ouvir na perfeição a influência da classe boom bap da Costa Este –, a sua Beast Coast. Das EFX, Fu-Schnickens, Large Professor, Jeru The Damaja, Big L ou Guru, entre vários outros, estariam (ou estarão) orgulhosos de ver o seu legado bem disseminado e representado em 2018, não temos grandes dúvidas.

Além disso, Badmon consegue fazer a ponte — sobretudo no disco que veio apresentar ao Sumol Summer Fest este sábado, 7 de Julho, na sua estreia em Portugal, All-Amerikkkan Bada$$ — com algumas sonoridades e vibes mais modernas. Este último álbum centra-se particularmente nos problemas da sociedade americana na era Trump, e Joey Bada$$ vem como profeta/activista espalhar a mensagem pela Europa — em simultâneo não deixa de fazer a festa, puxar pelo público, pedir que se abram moshpits na multidão e para que cantem com ele.

Tal como quando vimos Tyler, The Creator e Vince Staples no NOS Primavera Sound, aqui ficamos com a sensação de que basta um MC e um DJ para ocuparem totalmente o palco, sem sentirmos de que precisamos de mais. Naquele que foi o rigging mais exigente nesta edição do festival, vimos Joey Bada$$ com alguns painéis de luzes por trás, que estiveram sobretudo amarelos ou a ostentar a bandeira americana da capa do seu último álbum. Os projectores de luz fizeram o resto e foi, de longe, o espectáculo mais refinado, bem estruturado e bonito que vimos neste Sumol Summer Fest. Muitas vezes não é fácil levar o hip hop do estúdio para o palco, mas a apresentação de Bada$$ foi de categoria ultra-profissional e uma das coisas que mais assolam/estragam o rap ao vivo, o ruído desnecessário — desde os samples de sirenes a tiros de shotgun, às palavras extra de back vocals em palco — simplesmente não existiu. Menos é sempre mais. E nota máxima para os engenheiros de som neste concerto, também.

 



Embora pareça ter estado com a voz um pouco desgastada, Joey Bada$$ vai cantando as letras de temas como “Christ Conscious”, “Land of the Free”, “Paper Trail$”, “Temptation” ou “Rockabye Baby”, entre outros que se vão tornar clássicos para os seus seguidores. “Devastated” foi a faixa que mais animou o público adolescente. É bom ver como um rapper destes pode encabeçar um dia do Sumol Summer Fest e contribuir fortemente para esgotar o festival, com bastante gente a saber as suas letras e a gritar em voz alta “Joey Fucking Bada$$” — mas não temos dúvidas, caso este concerto tivesse acontecido numa sala em nome próprio, em Lisboa, que o público que lá estaria seria completamente diferente. E seria mais o seu público, certamente mais conhecedor e maduro.

O concerto praticamente infalível de Joey Bada$$ serve também, esperamos nós, para ensinar algo às organizações. O Sumol Summer Fest é produzido actualmente pela Música no Coração, promotora responsável por festivais como o MEO Sudoeste, Super Bock Super Rock ou o Vodafone Mexefest (que agora recuperou o nome de Super Bock em Stock). Ou seja, é uma organização que actualmente vai a todas, como se costuma dizer, dentro do hip hop: tanto contrata Lil Pump como Kendrick Lamar, tanto assina Joey Badass como Travis Scott, tanto traz a Portugal Large Professor & Diamond D como Desiigner ou Anderson .Paak. Isso é óptimo, no que ao universo das rimas e batidas diz respeito, mas há uma coisa que convém começar-se a entender.

As entidades e promotoras musicais não podem olhar para o hip hop todo da mesma forma e têm de perceber, quando contratam um artista — naturalmente baseados na sua música e base de fãs — o que será que aquele artista vai apresentar ao vivo. Não podemos sequer equiparar um concerto sério, consistente e coeso de Joey Bada$$ com uma atuação pobre de French Montana, que vai munido de um set de discoteca para um festival animar um público com músicas de outrem. Pode dar-se o caso de, quando uma promotora contrata um artista, ter de escolher entre vários packs, do mais caro para o mais acessível: aquele que inclui banda, o formato clássico MC-DJ, ou o tal set de discoteca. Se for este o caso, é urgente perceber que não vale a pena dar dinheiro (mesmo que seja menos) por este último formato: não tem qualidade suficiente para a exigência de um festival e é dar um espectáculo vazio e básico a um público que, neste caso, nem era muito exigente. O nome no cartaz pode chegar para vender bilhetes, mas não compensa quando o público chega ao dia do festival e não sai satisfeito. Gostos musicais à parte, precisamos de mais Joeys, Tylers, Vinces, Kendricks ou Oddisees.

 


ReB Team

ReB Team

Facebook.com/rimasebatidas
Twitter: @rimasebatidas
Instagram: @rimasebatidas
SoundCloud.com/rimasebatidas
YouTube.com/c/rimasebatidas
Mixcloud.com/rimasebatidas
ReB Team