Stereossauro põe as Mãos na Massa #1: um mestre de volta da memória da música portuguesa

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [ILUSTRAÇÃO] Dialogue

 

Se há um Irmão Mais Trabalhador No Negócio do Espectáculo ele responde pelo nome de Stereossauro, um verdadeiro animal de palco, longe de estar extinto, bem vivo em cada novo set que assina um pouco por todo o país. Parceiro de DJ Ride nos Beatbombers – que, revela-nos, estão a trabalhar num álbum…!!! -, Stereossauro tem uma carreira fulgurosa em nome próprio e um estilo particular que assenta muito numa clara devoção à memória da música portuguesa: o trabalho que fez em torno do eterno “Verdes Anos” de Carlos Paredes que entretanto mereceu o remix que podem conferir mais abaixo é uma das provas do seu talento incrível, aplaudido, por exemplo, pelo Maestro António Vitorino de Almeida que teve a ocasião de ver o produtor e DJ das Caldas da Raínha a trabalhar o clássico do mestre da guitarra portuguesa ao vivo e sem rede.

Agora, Stereossauro mete as mãos na massa, aqui mesmo na cozinha virtual do Rimas e Batidas: hoje inauguramos esta nova rubrica em que, regularmente, Sauro promete atirar-se a refinados ingredientes da nossa memória musical particular. Começa com Sérgio Godinho, ou seja começa da melhor maneira. Transportando o “Primeiro Dia” para uma nova dimensão em que apetece mesmo que aqueles dois minutos se transformem em 10 ou 12… Hoje é o primeiro dia de Stereossauro no ReB. Certeza absoluta: não será o último!

 


A tua relação com a música portuguesa é notória e tens trabalhado tudo e todos, de Carlos Paredes a Clã, de Orelha Negra a Ornatos Violeta. De onde vem essa paixão? 

O porquê da música portuguesa é muito simples: é a cultura onde vivo e onde cresci. Se fosse rapper certamente ia rimar em português, mas como sou DJ “samplo” maioritariamente musica tuga. Fácil. É a cultura da maior parte do público que me acompanha. E cada vez mais vou buscar inspiração nesses samples.

Na maior parte das vezes, escolho musicas ou artistas de que sou fã, como é caso do Paredes e dos Ornatos. Sou eu que vou à procura dos samples, outras vezes são os próprios artistas que me passam os samples ou acapellas para eu usar à vontade, o que é brutal. Aos poucos vou juntando uma colecção de acapellas tugas muito exclusivos. A pesquisa desses samples pode ser comparada a um coleccionismo de objectos raros e há samples tugas que são dos mais raros. Ao mesmo tempo quando uso alguma coisa sobejamente conhecida do publico geral, torna-se muito mais fácil para o publico que não esta muito familiarizado com scratch ou sampling perceber o que está ali a ser feito ou que a transformação está a resultar. De facto abracei esse conceito de usar samples portugueses há vários anos e continuo com muito muito ainda por explorar. Parece-me que só levantei a ponta do véu ainda. Cada vez mais descubro samples tugas brutais .

Algum nome português em que ainda não te tenhas atrevido a tocar? 

Não penso assim. Se ainda não usei foi porque não apanhei nenhum sample que gostasse muito ou simplesmente porque ainda não calhou, mas não tenho “cálices sagrados”. “Samplo” qualquer um na boa: o Carlos Paredes é dos mais difíceis de samplar porque muita da sua música não é 4×4 , mas até foi dos primeiros que samplei.
Mesmo artistas portugueses de que eu não seja propriamente fã, “samplo” muitas vezes para ver o que sou capaz de fazer. Tenho vários beats que nunca lancei com samples de cenas mais inusitadas. São experiências.

 



O Bombas em Bombos fez um belo percurso: o que sentes ao olhar hoje para esse registo de estreia? 

Epá, fico orgulhoso do resultado e por ter conseguido aproveitar a oportunidade que me foi dada pelo Henrique Amaro. Fico-lhe muito agradecido por tudo. Eu andava a trabalhar nessas musicas muito lentamente – quase que nos intervalos de outras coisas – porque trabalhava full time noutras e ainda fazia bastantes DJ sets pelo meio. De repente ele abriu-me a porta para lançar o álbum, mas tinha pouco mais de um mês para o fazer. Acabar o álbum num mês e ainda fazer o videoclip, capa e tudo o mais que está ligado a isso, foi um teste de fogo. Foi muito bom, deu-me mais segurança para outros lançamentos. E o single na altura resultou bem em algumas rádios, esteve umas semanas no top A3 30 da Antena 3, o que foi uma grande surpresa, e ainda teve direito a umas remisturas drum’n’bass do Médio, dos Bassbrothers e do Riot. Um abraço para eles também!

Quantos beats já tens de lado para o teu segundo álbum? Já podes adiantar alguma coisa? 

Neste momento, estou a trabalhar com o Ride num álbum de Beatbombers. Temos imensos beats possíveis para depois escolher os melhores. Estamos ainda na fase de ir mostrando os beats a vários MCs para ver quais vão ter voz e quais vão ser instrumentais. Ao mesmo tempo, tenho um projecto com o Razat que assim que possível vai começar a ver a luz do dia. Estamos de volta de um EP e estou super orgulhoso do que já temos. Esse puto “rula”.
Também estou a ajudar o Scorp na mixtape dele, e vou sempre lançando alguns beats em editoras de SoundCloud. Só quando acabar todas estas coisas que tenho começadas com amigos é que volto a focar-me num álbum a solo.

 



Tens trabalhado afincadamente como DJ neste último par de anos: como é que te defines enquanto DJ?

Trabalhador, pesquisador insatisfeito, profissional e “risk taker”. Trabalho muito as vertentes turntablist e party DJ, horas a treinar técnicas de turntablism ou a preparar battles, seguidas de mais horas a pesquisar música nova, música antiga, música e mais música. É claro que muitas das coisas que aprendo enquanto toco para um público dançar depois passam para o lado das battles e vice versa. Estou sempre a incluir técnicas mais avançadas nos party sets, é essa a natureza de um DJ de hip hop e essa é a minha raiz. A procura da fusão perfeita entre géneros musicais diferentes também é muito importante para mim: ouvir um set com uma hora só de um estilo musical é uma seca tremenda para mim.

A pesquisa, a experimentação e o treino depois dão-me a capacidade de conseguir passar uma mensagem ou uma ideia através dos pratos. Prefiro sempre explorar algum conceito do que só fazer um mix random. Gosto quando as coisas estão bem executadas, soam bem e querem dizer algo. Esse é o meu caminho e, quando consigo acertar nessas premissas todas, sou um homem feliz.

Podes apontar-nos as tuas maiores referências atrás dos pratos? E explicar porque os eleges? 

MixMaster  Mike foi o que me fez querer ser DJ. Beastie Boys sempre foram uma das minhas bandas preferidas e quando comecei a ver videos do Mixmaster fiquei vidrado e pensei, “pronto, é isto, está decidido”.

O Shadow é incrível, quer na produção quer depois na execução ao vivo, e a musicalidade progressiva, adoro.O Endtroducing e The Private Press estão nos meus discos preferidos de sempre. E porque à pala dele depois fui investigar nomes como David Axelrod e outros…

O Gaslamp Killer, que quebra todas a regras, usa beats que mais ninguém conhece, entra pelo psicadelismo, numa “freakalhice” pegada de LA beats, skill e tudo isto com o sorriso na cara mesmo que seja a fazer cara de mau. Adoro este gajo.

Depois nas battles tenho imensas referências, muitas mesmo, mas vou escolher estes: Dj Tigerstyle, a musicalidade e a energia dos sets de battle dele são incríveis, o skill é de outro planeta, as routines dele parecem canções. Tudo sempre muito bem feito; DJ Craze, este não preciso de dizer nada: É o maior, atitude, skill battle 100% e party DJ 100%. Incrível longevidade e sempre no topo do seu game. O Craze é uma máquina. No chance.

Diz-nos cinco discos portugueses que sejam preciosidades na tua colecção? 

Pop Five Music inc – A Peça: Samples altamente, um disco a puxar para o raro e que já vi à venda na net por preços muito interessantes.  Quando o arranjei não fazia ideia do que era, nem o valor dele, até cheguei a levar para alguns DJ sets no início. Tinha umas intros bacanas que costumava usar.

Fausto – O Despertar do Alquimista: Tanto sample bom nisto. Good music.

Depois tenho uns quantos 45’s que se chamam “erotismo”, nem diz o nome do artista. Tem sempre uma gaja nua na capa, o que é optimo. São fados marotos , cenas muita ordinárias dos anos 70/80. Adoro, esses podem não valer um chavo comercialmente, mas, para mim, são priceless.

DJ Ride – 180g: O primeiro scratch tool português a sério. Anteriormente a este disco, penso que só o DJ Bomberjack tinha incluído num dos discos do Bomba Relógio uns samples dos vocais desse álbum, que é altamente e também tenho em vinil. Esse é também uma preciosidade. Mad respect pelo Bomber,  mas este do Ride é 100% um disco de scratch tool de inicio ao fim e foi o primeiro a lançar nesse formato, que foi seguido pela minha outra escolha.

TUGA BREAKS VOL 1: Este é da minha lavra com o Ride. É uma ferramenta que fizemos e para um turntablist teres o teu próprio vinil de battle é um orgulho enorme. É o quão sérios nós (Beatbombers) somos em relação ao turntablism. Estamos nisto de pés e cabeça.

 



Sempre disseste que és “dollar bin digger”. Mas a música portuguesa em vinil tem-se valorizado muito. Tens levado muitos baldes de água fria com preços inflaccionados nas feiras? 

Muitas vezes até já evito feiras. Prefiro comprar em lojas onde, pelo menos, os discos estão em melhores condições sem andarem à chuva e ao sol. Acho que são fases, de momento prefiro comprar menos discos mas coisas que quero mesmo ou que preciso. Pontualmente vou a feiras e vendas de velharias picar uns discos random para samplar, mas se os vendedores começam com manias a pedir muito dinheiro por discos em mau estado que praticamente ninguém quer… Aí bazo logo, já não tenho paciência para isso.

O nosso hip hop também está a ser profundamente coleccionável. O que pensas disso, de haver hoje uma geração que tem no hip hop português a sua maior referência musical? 

Parece-me prova de uma consolidação da cultura hip hop tuga com lançamentos constantes, vários artistas de diferentes estilos, uns mais underground outros mais comerciais, os indies, etc… Pela longevidade que o hip hop tuga já leva (pouco mais 20 anos, certo?), alguns já começam a fazer “escola” e certamente que influenciaram uma nova vaga de artistas, que provavelmente começaram a ouvir hip hop já em português quando ainda eram muito jovens.
O hip hop tuga tem na realidade uma presença cada vez mais forte no panorama musical nacional. Vejam-se os cartazes de festivais de musica e números nas redes sociais. Passo a passo está a conquistar o seu merecido lugar.

Falemos de pastas, já que tens agora as mãos na massa: esparguete ou macarrão?

Esparguete, mas se me quiserem convencer então é um ensopado de borrego à alentejana. Isso é mais forte que eu. A comida no nosso país é excelente e tem “pérolas” em cada região. Eu tenho um fraquinho por comida alentejana, é tudo brutal, desde a comida ao vinho.

 


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