Crónicas de um HipHopcondríaco #6: Alegria de viver

[TEXTO] Manuel Rodrigues [ILUSTRAÇÃO] Riça

O mundo recebeu com tremendo choque a notícia da morte de Anthony Bourdain, no passado dia 8 de Junho. Ao que tudo indica, o chef de cozinha e apresentador de televisão ter-se-á suicidado no quarto onde se encontrava hospedado no hotel Le Chambard, em Kaysersberg, França. Conhecido por programas como A Cook’s Tour, No Reservations e The Layover, Bourdain encontrava-se em França, mais precisamente nos arredores de Strasbourg, a filmar um episódio para o seu mais recente programa televisivo, Parts Unknown, que já havia passado por países como Líbia, Tóquio, Nigéria, Etiópia, Jamaica e Vietname, com este a ter como convidado o antigo presidente dos Estados Unidos da América, Barack Obama.

Ultimamente, têm sido várias as notícias de suicídios de celebridades, não só do universo do cinema, como serve de exemplo Robin Williams, que colocou termo à vida a 11 de Agosto de 2014, mas também do da música, com os casos de Avicii, Chester Bennington e Chris Cornell a serem os mais recentes. É normal que a morte de celebridades nestes contornos abalem o mundo, pelo facto de serem caras conhecidas de todos nós, do dia-a-dia, das quais até somos por vezes fãs, e sobretudo por nos colocar frente-a-frente com uma dura realidade: a de que este é um problema que bate à porta de todos, não obstante o dinheiro, segmento social ou facilidade em recurso a ajuda externa.

O que levará alguém a colocar fim à vida? Qual terá que ser o desespero para que um ser Humano, muitas vezes através de métodos dolorosos e nem sempre eficazes, decida dar esse passo? Num artigo publicado na Medical News Today, Christian Nordqvist escreve sobre algumas das causas que poderão despoletar o suicídio. Na lista apresentada, é possível encontrar razões como stress, depressão, ansiedade, distúrbios na alimentação, como serve de exemplo a anorexia, abuso de substâncias, problemas financeiros, a morte de alguém muito próximo, o ponto final numa relação ou a luta contra uma doença debilitante, entre muitas mas mesmo muito outras.

O artigo chega ao fim com números arrasadores. Nos Estados Unidos, o suicídio é a décima maior causa de morte, responsável por 44 mil casos em 2015. Foi a terceira maior causa de morte entre os 10 e os 14 anos, e a segunda entre os 15 e os 34. Em 2015, o número de suicídios foi duas vezes mais elevado que o de homicídios.

No exacto dia em que foi noticiada a morte de Anthony Bourdain, o site da CTV, televisão privada canadiana, lançou uma peça que, para além de informar sobre a quantidade de suicídios no país – aproximadamente 10 pessoas por dia –, ainda revela que para cada acto concluído existem cerca de 20 tentativas não consumadas. No mesmo documento, compreensivamente focado no sucedido com o chef de cozinha norte-americano, a CTV acrescenta ainda que os suicídios de celebridades, pelas razões mais óbvias, podem aumentar a taxa já existente. Um estudo feito numa universidade dos Estados Unidos comprovou terem acontecido mais 2000 suicídios que normal nos 4 meses que se seguiram à morte de Robin Williams, o que corresponde a um aumento de 10 por cento.

Há formas de prevenir este tipo de desfecho. Quem o diz é Mark Henick, especialista em saúde mental. “Existe ajuda por esse mundo fora. Qualquer suicídio é prevenível se as pessoas conseguirem a ajuda que precisam, quando preciso”, afirma Henick, acrescentando “a única coisa boa que se pode retirar deste tipo de tragédias é que é possível falar-se com as pessoas para evitar que tal aconteça”.

Em 2002, a revista portuguesa Dance Club trouxe até às bancas um número que se fazia acompanhar de uma compilação, intitulada Loop:Soundz Hip Hop Nacional para 2002. Nessa mesma colecção de músicas, onde era possível encontrar temas de Micro, Aprendiz, Sam The Kid (“24H” consegue ser um dos melhores temas instrumentais do rapper e produtor de Chelas) e Bullet, ganhava principal destaque o tema “Alegoria da Vida”, do rapper portuense Fuse.

“Alegoria da Vida” guarda em si uma energia positiva inexplicável, uma aura benévola capaz de retirar qualquer um do mais profundo estado depressivo, resgatando-o para a superfície do mar de tristeza onde se deixou mergulhar. Os versos de Fuse repousam sobre um sample que parece também querer lutar contra isso, através de filtros de frequência que fazem a canção oscilar entre o bem e o mal, o positivo e o negativo, a tristeza e a alegria, a escuridão e a esperança, respondendo assim aos próprios versos e refrão que procuram também eles alternar entre os dois pólos deste gigantesco íman chamado vida.

Em “Alegoria da Vida”, Fuse não só escreve um poema a um dos maiores fenómenos que o Planeta Terra testemunhou na sua longa e acidentada história, como procura também assinar um pacto vitalício com a própria existência, selado com sangue, amor e devoção. Esta é uma das melhores dedicatórias que alguém alguma vez fez à vida.

Se alguma vez se sentirem em baixo, ou sem forças para continuar, façam o favor de ouvir esta música. É exímia na reposição do astral. Digo isto de experiência própria.

 


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