Os dois últimos dias do Westway Lab são aqueles que oferecem um maior número de concertos, mantendo sempre a premissa de colocar na frente dos seus visitantes algumas das sonoridades que menos pairam nos radares mais posicionados à superfície deste grande oceano a que chamamos de música. Esse lado laboratorial do festival é vincado edição atrás de edição e 2026 não foi excepção, porém fica a sensação de que há certas regiões do amplo espectro sonoro contemplado pela era que vivemos que foram pouco (ou nada) explorados.
Em fase de balanços, importa medir o pulso ao que foi feito, e a ideia que fica é a de que o certame de Guimarães puxou em demasia a cartada do rock, apesar de nunca se ter tentado afirmar como um “festival de rock”. Não será preciso recuar muitos anos — basta até olhar para as três edições anteriores — para encontrar nos cartazes do Westway Lab uma maior preocupação em dar destaque a estéticas como as do rap, do novo jazz e da pop inventiva levada a cabo por uma recente vaga de cantautores que tem despontado dentro de portas.
Depois de Cálculo, Redoma, Riça, La Furia, Silly, Visco, Capicua ou IBSXJAUR nos últimos anos, 2026 ofereceu um total de zero atuações de hip hop ao longo de toda a programação do Westway Lab. Nas novas linguagens do jazz, que tantos projetos inovadores tem feito florir no nosso país, apenas os xauxau dodô disseram “presente”. Tal como o hip hop, também a pop contemporânea ficou esquecida no cartaz, depois de uma série de três anos em que o festival vimaranense trouxe à baila gente como Ana Lua Caiano, Rita Vian, Isa Leen, EVAYA, B Fachada, Luís Severo, emmy Curl ou Homem em Catarse.
Os desequilíbrios, no entanto, não se ficam ao nível das sonoridades. Há que aplaudir o esforço da organização em tentar sempre equilibrar os seus programas com artistas homens, mulheres e queer, mas não deixa de ser estranho que, num país como Portugal, se vejam tão poucos rostos negros a passar por cima dos vários palcos que o evento monta pela cidade de Guimarães. E isso, infelizmente, tem sido transversal às anteriores três edições que temos analisado com maior detalhe por aqui. Se em 2023 o alinhamento do Westway Lab foi integralmente branco, os anos seguintes pouco tentaram contrariar essa tendência. Na edição que terminou no passado sábado, contabilizámos apenas dois projetos negros em mais de duas dezenas de atuações: Scúru Fitchádu e XEXA.
A sensação com que saímos de Guimarães no final do festival foi a que tínhamos marcado presença num evento para “cabeças” do rock de tez branca. E aqui o “rock” não deve ser levado demasiado à letra, no sentido da própria linguagem da música rock, mas mais na sua concepção estética — de um certo “peso” que pode estar incluído em qualquer sonoridade. Um par de exemplos: por mais funaná e eletrónico que seja Scúru Fitchádu, a sua veia punk permite-lhe inserir-se facilmente num qualquer circuito de traçado mais hardcore; Hate Moss, dupla italiana que em disco se cola facilmente à sombra da música de dança, ganha em palco uma dimensão muito mais física pela presença de uma bateria que transforma o registo para algo próximo do universo dos portugueses MAQUINA. (rock, portanto).




Ainda assim, por entre esta chuva de concertos que tomou conta de Guimarães nestes últimos dias, fomos sendo presenteados com algumas lufadas de ar fresco. Na primeira das duas noites em destaque nesta reportagem, 10 de Abril, o tal equilíbrio de que temos vindo aqui a falar até que foi dos mais bem conseguidos. Apesar do pouco que ainda apanhámos em palco, Gaia Banfi deixou muita vontade de poder experienciar a sua performance ao vivo na íntegra, especialmente dado a componente performativa ser tão levada a sério — no Teatro Jordão, a italiana estava rodeada de instrumentos tradicionais e apetrechos eletrónicos e tinha ao seu lado um outro multi-instrumentista igualmente bem equipado, embora mais focado na vertente rítmica, com o par a evitar ao máximo (se não mesmo na totalidade) o uso de material pré-gravado.
Essa foi também a noite em que o Rimas e Batidas pôde testemunhar pela primeira vez ao vivo a magia dos xauxau dodô, um grande ensemble formado em Barcelos e com uma ligação muito espiritual ao jazz. São sete músicos em cima do palco com uma panóplia de diferentes timbres ao seu dispor, da percussão ao saxofone, passando também pelas vozes de alguns dos seus membros que nos versam sobre liberdade e esperança em cima de cadências que podem ser expansivas e contemplativas, mas também cheias de groove e a convidar o corpo à dança. E esse dia terminou precisamente na pista, ao som da infalível dupla MXGPU, que impressiona tanto pela música — uma viagem bem eclética entre a house e o techno — como pela performance — Moullinex e GPU Panic ficam no centro, rodeados pelo público, enquanto operam um impressionante número de máquinas montadas numa rack e lhes chovem vários lasers pelo corpo abaixo. Fica sempre aquela sensação de que se tivessem a “sorte” de ter nascido na Alemanha ou nos Estados Unidos da América podiam estar neste momento a dar voltas ao mundo e a esgotar arenas, de tão credível, sólida e inovadora tem sido a proposta que têm feito emergir enquanto dupla. Pelo meio destes dois actos, a visceralidade sonora e poética de Scúru Fitchádu fez rolar cabeças enquanto fazia mira à justiça social e aos problemas estruturais do mundo em que vivemos — como um verdadeiro firestarter numa qualquer reencarnação dos The Prodigy nascida de uma travessia entre Cabo Verde e Portugal, com a tradição do arquipélago de mãos dadas com a estética das raves clandestinas das grandes cidades.
No derradeiro dia deste festival, passeámos pela cidade para apanhar alguns dos concertos que fizeram o Westway Lab desdobrar-se por diferentes espaços, como o rock alternativo dos Humana Taranja ou o electroclash dos já mencionados Hate Moss. O momento que mais se destacou na despedida, no entanto, foi aquele que inaugurou a reta final da programação no Teatro Jordão e que trouxe até à boca de cena uma das mais disruptivas mentes criativas a militar no coletivo lisboeta da Príncipe Discos. XEXA tem-se feito notar pelo teor mais exploratório da sua música, corroendo a batida que Lisboa herdou da África lusófona com ácidos que tanto convidam à dança como provocam viagens mentais psicadélicas — mutações bem patentes ao longo da sua obra discográfica, desde o expansivo Calendário Sonoro 2021 às conjugações mais ritmadas do mais recente Kissom. Representa o que de melhor se tem feito por cá nos campos da “eletrónica para gente sentada” e ao vivo ganha uma profundidade extra pelo tom grave e monocórdico da sua voz, quase como se tivesse a cravar mantras na nossa mente. “Kizomba 003”, o tarraxo curativo que afasta más energias e serviu de single para o seu novo álbum, foi das últimas malhas ouvidas durante o set e permaneceu-nos na cabeça em loop durante horas.
O balanço de mais uma edição do Westway Lab nunca poderá ser negativo, porém há uma série de questões que não devem ser ignoradas e que certamente podem ajudar a que o futuro seja ainda melhor. O cenário da música feita e escutada em Portugal tem-se alterado a um ritmo vertiginoso nos últimos anos e cabe às entidades que programam a cultura acompanhá-las, promovendo nos seus eventos esses novos sons e rostos que tingem a pluralidade do nosso circuito. Portugal é um país feito de muitas culturas, tal como o certame de Guimarães também o tem tentado ser, mas falta efetivamente ajustar a sua equação para que as próximas experiências possam sintetizar em laboratório aquilo que se vive fora dele da forma mais fiel possível.


