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Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 10/04/2026

De volta ao laboratório musical que todos os anos refresca a paisagem sonora de Guimarães.

Westway Lab’26 — dias 1 e 2: fala a voz da(s) experiência(s)

Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 10/04/2026

Guimarães tem o seu nome bem cravado nos livros de história enquanto berço da nação portuguesa. Mas talvez já seja altura de também inscrever a cidade enquanto um dos principais berços das novas sonoridades que vão pairando pelo país. Por cá, através do Westway Lab, muita da música disruptiva nacional e internacional ganha palco, mas há também uma componente que está diretamente ligada ao ato da criação, através de residências que colocam vários artistas de diferentes países a dialogar musicalmente com o objetivo de criar o que nunca antes foi escutado. Esse é, aliás, o mote para o arranque de cada edição, já que é o momento mais apetecível do primeiro dia da programação do certame. No arranque, dias 8 e 9 de Abril, deu-se voz à(s) experiência(s).

O sentido duplo deste título prende-se com as duas diferentes formas de empregar a palavra “experiência”. Há aquela que se adquire e que simboliza alguém com trabalho acumulado numa qualquer área, e a outra a que associamos ao ato de experimentar e procurar fazer o que ainda não foi feito. O início do Westway Lab deste ano pendeu para a primeira definição, dando palco à longa pegada na música portuguesa que Carlos Maria Trindade tem deixado. Dono de um legado que assenta tanto nos registos a solo como em grupos (Corpo Diplomático, Heróis Do Mar, Madredeus…), trouxe até nós, na Igreja de São Francisco, um conjunto de temas seus que andaram perdidos e que foram recentemente recuperados para uma edição inédita pela Armoniz. Tédio, apelidado pelo autor como uma obra de cold wave, é um projeto já bem datado (gravado por volta de 1982) que, embora não carregue consigo a frescura sonora que ansiamos nos dias de hoje, nos permite perceber as origens da pop mais eletrónica que escutamos no presente. Padrões rítmicos rudimentares, melodias robóticas (expansivas q.b. muito a espaços) e letras que falam sobre varinas, bares gay de Lisboa, amores, mas também sobre (literalmente) nada, num dos casos em que a letra assentava numa língua totalmente inventada por Trindade.

Após uma paragem na Tasquinha do Tio Júlio para um repasto à moda antiga, mantendo a toada da experiência dos tempos idos, voltámos ao “agora” para testemunhar uma das componentes fulcrais do Westway Lab. Do laboratório criativo deste ano surgiram três projetos colaborativos, apresentados uns a seguir aos outros no Café-Concerto do Centro Cultural Vila Flor ao longo de um período que se estendeu mais ou menos por três horas.

Os primeiros a entrar em cena foram MALVA (Carolina Viana e Beatriz Madruga) e Never Sol, pseudónimo da música, compositora e produtora Sara Vondrášková, radicada em Praga. As criações em residência do trio deram o tónico perfeito para a entrada neste segmento, ameaçando desde logo em afirmar os seus experimentos musicais como os mais brilhantes da edição de 2026 do festival. A declamar poemas originais, Carolina Viana parecia encarnar Eça de Queiróz pelo detalhe descritivo e arrancava relâmpagos do violoncelo por entre estocadas mais agrestes, a casar perfeitamente com as nuvens negras que a eletrónica de Sara Vondrášková emanava. Muitas vezes em contraponto, Beatriz Madruga trazia a calma na vibração das cordas da sua guitarra elétrica — por vezes mais exploratória e colada à ambient, noutras mais concreta a fazer lembrar acordes de bossa nova. Juntas são tudo e nada, no melhor dos sentidos. Quem está do lado de cá aprecia em silêncio e bate palmas entre temas mesmo sem saber explicar muito bem porquê. Há uma beleza comovente em tudo aquilo que está a ser feito diante dos nossos olhos.

Momento de pausa para reorganizar os instrumentos em palco, aproveitado pelo público para elevar o nível de ruído e descomprimir. Seguiram-se a ucraniana NFNR e a portuguesa Sofia Leão, que não tiveram a mesma sorte das colegas anteriores na atenção dada pela plateia — ou talvez tenham sido as próprias que não exibiram argumentos palpáveis para a conquistar. NFNR podia muito bem ser uma produtora de techno cinemático a animar uma festa numa cave em Londres, tal como Sofia Leão podia estar a ocupar um palco de um grande teatro pelo seu talento e jeito natural na composição de canções, mas a verdade é que não passaram disso: duas partes separadas com dificuldade em se mesclar, como azeite e água num tubo de ensaio que, por mais que centrifugado, volta sempre à disposição por estratos. O burburinho das conversas sobrepôs-se quase sempre ao que ia burbulhando a partir das duas criativas, reflexo dessa tal incapacidade em apresentar um trabalho suficientemente polido que cativasse os presentes. Nem sempre a coisa corre bem nestas corridas contra o tempo que são criar durante um período muito limitado. Certamente que os talentos de NFNR e Sofia Leão lhes permitirão chegar a bom porto noutras iniciativas.

O que aconteceu no final da primeira noite do Westway Lab foi quase indescritível. Fenne, Tomás Alvarenga, Francisco Carneiro e Isak Nygren apanharam todos de surpresa quando invocaram os espíritos de Erykah Badu e os Soulquarians para cima do palco do Café-Concerto e apresentaram um repertório tão bem trabalhado que parecia até já ter sido gravado em disco. Se existiam representantes de editoras entre o público, duvidamos que não tenham sentido a tentação de procurar assinar este recém-formato coletivo. Uma verdadeira lição avançada de groove e um impressionante jogo de melodias e harmonias a dar pano para mangas, esticando os temas ao limite e permitindo extravasar as estruturas rígidas de verso-refrão-verso-refrão — fosse com introduções extensas, ganchos inventivos ou outros que adicionavam novos elementos à equação. Foi tudo mágico e era visível a desbunda que aqueles quatro jovens estavam a sentir ao interpretar aquele material, num momento que certamente ficará marcado na memória de todos os presentes. Mereciam palco maior e uma continuidade para além do Westway Lab, por muito que a distância geográfica dos diferentes membros possa complicar as coisas daqui em diante. Se nunca mais se repetir, foi uma sorte imensa termos tido a oportunidade de testmunhar este acontecimento.



As experiências voltaram a estar na base da programação para a segunda jornada, embora em moldes diferentes. Após uma manhã preenchida por várias conversas — onde se falou, por exemplo, de processos de candidaturas a financiamentos ou de showcases e trendsetters em Portugal —, deu-se novamente ouvidos à música através de uma série de três concertos apelidada de “The Portuguese Discovery”. O conceito é simples: dar oportunidade a projectos que têm operado mais à margem dos principais circuitos musicais, mas que são já detentores de sonoridades e repertórios minimamente solidificados. Ou seja: experimentar com o que já existe, dando a possibilidade aos festivaleiros (que, principalmente nestes primeiros dias, reúnem muitos rostos estrangeiros) de descobrir coisas que muitas vezes escapam ao atual cenário das sugestões via algoritmo.

Quem teve as honras de inaugurar as apresentações no Café-Concerto do CCVF foi Ana de Llor, um dos segredos mais bem guardados da pop vanguardista portuguesa cuja estética procura recontextualizar a tradição musical do nosso país em cenários pós-clube — imaginem algo tipo Ana Lua Caiano meets AURORA KATANA. Bilingue e com uma carreira que tem também tido repercussão no Reino Unido, a artista multidisciplinar (que também se desdobra pelos campos da pintura e da fotografia), não nos encheu completamente as medidas, mas o seu universo sombrio, muitas vezes a saber a ritualístico, é de facto original e poderá vir a conseguir captar mais atenções num futuro próximo.

A grande revelação da noite estava reservada para o slot seguinte, quando uma turma de seis jovens de Espinho se começou a posicionar em palco. Eram três guitarras ao todo, complementadas por baixo, bateria e uma voz principal que vinha de uma mulher-anjo com asinhas nas costas e coberta por um vestido de casamento. Juntos apresentam-se como Summer of Hate, uma banda de Espinho que parece falar praticamente todos os diferentes dialetos que residem dentro da esfera rock. A julgar pela adesão do público, pareceu unânime que aquela tinha sido das apostas mais arrojadas do Westway Lab deste ano, dado que conseguiram meter toda a gente a dançar com um som que, embora pesado, estava bem regado de psicadelismo, shoegaze, punk e até mesmo um certo blues do deserto, principalmente nas últimas duas malhas, que revelaram servir de chamadas de atenção para as guerras a que temos assistido na zona do Médio Oriente. Com apenas dois álbuns editados — Love Is Dead! Long Live Love (2022) e o mais recente Blood and Honey (2026) —, têm já a sua máquina bem oleada e parece que andam aqui aos anos, quer pelo à-vontade na componente performativa da forma como se apresentam, mas acima de tudo pela segurança com que interpretam cada faixa, sem nunca se atrapalharem mesmo com tantos instrumentos a soar em simultâneo.

Não tão surpreendentes dado o legado que já têm no circuito, os Sunflowers foram o conjunto escolhido para deitar a casa abaixo e fechar as contas do segundo dia do festival vimaranense. O enérgico trio do Porto puxou da expriência dos seus 10 anos de estrada para nos dar uma lição de como se pode fazer punk bem eclético em 2026 através de uma infusão com outras vertentes do rock que ajudam a descomplicar o caos e a dar camadas de criatividade adicionais, da cena surf à psicadélica. A passagem pelo Westway Lab surge na ressaca de um dos anos em que obtiveram maior reconhecimento internacional, já que em 2025 rubricaram o quinto álbum da carreira, You Have Fallen… Congratulations!, pela irreverente Fuzz Records, label que tem agitado as águas do underground a partir de Londres.


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