Ao longo da última meia-dúzia de anos, um nome curiosamente bastante conhecido na cidade do Porto tem-se destacado no campo do hip hop: Vilas Boas. Discípulo do 2º Piso, tem sido um dos produtores mais activos a Norte e prepara-se para lançar esta sexta-feira, 1 de Maio, o seu primeiro álbum, JAB.
Ao todo, são 15 faixas recheadas de convidados, sobretudo do Grande Porto mas não só: Mundo Segundo, Expeão, DJ Guze, DJ Score, Enigmacru, Birro, Rato54, RealPunch, Roke Lhe, Buster, $tag One, Composto, Tostaz, Necxo, Tácio, Qvxno, Big Jony, Laranja, Nameless, Smélio, DJ Suprhyme, Tuka, Guima, MK Scratch e K1X são os nomes convocados por Vilas Boas para este trabalho de estreia em nome próprio.
Para assinalar o marco, Vilas Boas terá esta sexta uma festa de lançamento no Espaço Fisga, no Porto, com DJ sets de Bruma, DJ Score e Laranja, enquanto, entre comes e bebes, o tatuador Jay Cruz estará a fazer flash tattoos no local. O artista abriu 50 vagas para os fãs que queiram fazer parte deste momento especial e os bilhetes encontram-se à venda online por 10€. Os videoclipes serão projectados na parede e também haverá uma pequena exposição de quadros de Paulo Vilas Boas, reconhecido pintor e avô do produtor. “O meu nome artístico é em honra a todo o trabalho dele, foi um pintor muito conhecido e vou ter lá algumas obras dele expostas a fazer a ligação ao álbum”, explica ao Rimas e Batidas.
JAB, o título do disco, é uma referência do universo do boxe, desporto de combate que Vilas Boas praticou durante vários anos e ao qual continua ligado, muito através do Boavista. “Achei interessante porque é algo que me caracteriza”, conta. “E, lá está, o primeiro álbum pode ser o JAB, a seguir posso fazer o Uppercut, depois o Cross e ligar tudo num Knock Out, por exemplo. É nesse sentido que estou a pensar.”
Começou a trabalhar no álbum há cerca de três anos, primeiro com os artistas que orbitavam à volta do 2º Piso, onde Vilas Boas colaborava com Mundo Segundo. “Depois conheci o Tácio, ele trouxe-me o Roke, o Roke trouxe-me os Enigmacru, os Enigma trouxeram-me o Smélio… Isto foi tudo uma corrente. Um chama outro, o outro chama outro. E hoje em dia somos todos amigos. Tenho uma boa relação com toda a gente que entra no álbum e acho que isso, além da música, também é bastante importante. Isto é muito mais do que música, é uma forma de estar e de viver.”
Vilas Boas começou com uma pasta de “50 ou 60” instrumentais e foi mostrando os golpes sonoros do seu arsenal aos rappers que convidava para participarem no projecto. Ao longo do tempo, foi afunilando a sua visão e começou logo a idealizar certas vozes enquanto produzia, o que fez com que apresentasse beats específicos a determinados rappers. “As coisas foram fluindo, e o que também sinto enquanto produtor, e que vou mostrar neste álbum, é que tenho um bocado de tudo. Ou seja, há boom bap, trap, drill, Jersey club… Tem um bocado de tudo, mesmo, sinto que tenho essa diversidade. Não me limito a um género só. O que eu sinto, aquilo de que gosto, eu produzo. E acho que é fixe conseguir fazer um pouco de tudo.”
Com alguns beats e captações de voz a somarem três anos na gaveta, Vilas Boas confessa que tinha mesmo de lançar cá para fora algumas destas faixas. “Tenho mesmo que lançar isto agora porque há certas músicas que até sinto que, se tivessem sido lançadas há três anos, teriam outro impacto. Fui pegando nos projectos e limando um bocadinho mais, mas sinto que têm mesmo de ser lançados agora.”
[Do passado ao futuro, um Vilas Boas do hip hop]
Criado em Lordelo do Ouro, Vilas Boas tem 28 anos, mas foi na adolescência que se apaixonou pelo rap, sobretudo pela velha guarda do hip hop do Porto, o núcleo duro de Dealema e companhia, como Berna, que gravou o seu álbum de estreia Reflexologia (2002) no antigo — e original — estúdio 2º Piso. Vilas Boas chegou a rimar por volta dos 14 ou 15 anos, participando em rodas de improviso, mas só bem mais tarde, na altura da pandemia, é que se iniciou na composição e produção de instrumentais. Aproveitou, claro, as bases de piano e teoria musical que aprendera em criança — mas também o tempo livre em casa a que a COVID-19 o obrigou durante os períodos de confinamento.
Já tinha algum material de produção e era amigo de Buster e de outros rappers que frequentavam o 2º Piso. “Ao início até me inscrevi num curso de produção, mas percebi que aquilo não era bem a minha cena e depois conheci o Mundo. Fui aprendendo com ele e foi assim que tudo começou.”
Mundo Segundo acabou por o convidar para se juntar à sua equipa, numa altura em que tornava a casa dealemática, o selo do seu antigo quarto, numa editora e estúdio de gravação independente de portas mais abertas e profissionalizadas. Começaram a lançar compilações com diferentes artistas e Vilas Boas tornou-se um colaborador habitual nesse processo, iniciando-se a produzir em temas como “Voo em Palavras” (de Buster), “Gangue” (de $tag One) ou “Obra Contemporânea” (de Ruca), este último integrado na colectânea 14 de Outubro.
Ao aprender a produzir com Mundo Segundo, passou a trabalhar na Maschine em conjunto com o Ableton Live. “Depois, por cima do sample, toco algumas melodias. Mas a minha base é muito o sampling de vinil”, conta. “Gosto de fazer o digging, comprar e estar a ouvir os meus discos, é isso que nos dá o bichinho. Aquela coisa de estar ali, fumar um, ouvir o sample, estar ali a chillar, a ver o que é que vou criar dali… Acho que essa é a parte bonita da criação. Desligas e entras mesmo noutro mundo. Eu adoro isso.”
Para Vilas Boas, trabalhar no 2º Piso com Mundo Segundo foi o concretizar de um sonho de juventude. “Só isso vale tudo, este núcleo onde estou inserido foi onde realmente cresci e sinto-me bastante realizado por os poder acompanhar. Somos de gerações diferentes e, quando éramos miúdinhos, nunca na vida pensei algum dia conseguir trabalhar como estou a trabalhar.”
Além disso, Vilas Boas formou recentemente um colectivo com uma das suas principais referências, Berna, e outro importante companheiro, Laranja. Juntos, são o trio Tropa Delete, que o Rimas e Batidas apresentou recentemente. Os três têm estado, em colaboração com Individeo, a trabalhar na docuficção Respirar é Resistência, da qual já se conhecem as faixas “Sol@Sol” e “A Culpa é Tua”.
“Estou muito feliz com isso, é um projeto em que fizemos música, não fomos só fazer rap. Fizemos o que estava a sair no momento. Então, Tropa Delete tem trap, boom bap, reggae, fiz o meu primeiro drum and bass… Vai ser assim uma cena bastante diversificada, nesses espectros musicais. E foi mesmo a cereja no topo do bolo deste ano, poder trabalhar com eles. O Laranja é um grande mano meu, o Berna só conheci recentemente, até lhe mostrei que a música mais ouvida no meu Spotify tinha sido a ‘Destrocamento’ dele com o Mundo. Por mais que isto às vezes não dê dinheiro, essa realização pessoal vale mais do que tudo. Claro que estamos aqui e queremos chegar a um lado. Quero fazer disto vida. Estaria a ser hipócrita se dissesse que não. Mas essa realização pessoal, que já tenho, para mim já faz valer a pena. Já valeu a pena ter investido nisto tudo, já não foi em vão. E acredito no trabalho que estou a fazer.”
Este não é o primeiro projecto que faz com nomes emblemáticos do rap nacional e portuense. Há um par de anos, trabalhou com Ace e Composto no disco Aquecimento Global. Outro trabalho colaborativo que fez com um MC foi Nova Era, de GUIMA, editado no ano passado. Foram estes e outros projectos que gravou pelo meio, para fazer render o estúdio que entretanto abriu no andar de baixo do 2º Piso, que foram adiando a conclusão de JAB.
Quando perspectiva o futuro, revela que já começou lentamente a trabalhar em faixas para um segundo disco — já existe um tema gravado com Deau —, e que espera concretizar participações e colaborações cada vez mais ambiciosas, nomeadamente com mais junções de Porto e Lisboa por cima dos seus beats. “Fazer cenas inesperadas, que o pessoal não esteja à espera. Acho que é esse o sentido da cena.” Adorava um dia trabalhar com outros pesos pesados e históricos do hip hop tuga, como Sam The Kid, Fuse e Regula, mas também há uma série de nomes da nova escola que deseja abraçar. “Por exemplo, ando a falar com um mano que é o Vato e identifico-me bué com a cena dele, acho que é um nome que vou ter no meu segundo projecto.” Tem ainda na bucket list, assume, conceber um disco inteiramente instrumental. “Quando achar que é o momento, claro que sim. Acho que faz todo o sentido enquanto produtor.”