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Tristany

MEIA RIBA KALXA

Tristany / Sony Music Portugal

Texto de Rui Miguel Abreu

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É um facto inegável que nos últimos anos a música das periferias tem conquistado crescente espaço no centro das nossas atenções, mas o momento presente obriga-nos a questionar se esse fluxo corresponde a alguma mudança efectiva na engrenagem social. Mais melanina nos rostos que cantam o que parece que queremos ouvir significará igualmente mais cor nos rostos que surgem nos retratos das nossas elites sociais, políticas, culturais, económicas, desportivas? Não parece haver uma correspondência directa, na verdade, e a ascensão de visões perigosas no espectro político com ecos evidentes no espaço mediático pode até ameaçar as ténues conquistas trazidas por essa aproximação entre as “periferias” e o “centro”. Nada está ganho. Ainda não é tempo de festejos e tudo permanece por fazer. Tristany entende bem isso. E por isso canta, entre outras coisas, que tem “saudades do futuro” no extraordinário lamento que é “AMOR DE JINGA ..”, corpo híbrido com espessura orquestral, afrofuturista até à medula, com densidade emocional esculpida com auto-tune e graves que funcionam como o centro gravitacional que lhe mantém os pés assentes numa terra sonhada, mas longe ainda de ser real.

Excluindo o par de interlúdios – entre eles a extraordinária reinvenção do hino nacional que exalta os “digras valentes” que se elevam acima das “macumbas da memória” e com que se entra a pés juntos neste alinhamento –, essa “AMOR DE JINGA ..” é a segunda faixa de MEIA RIBA KALXA, logo depois de “ONDA CIVIK ..”. E só esse primeiro real momento musical bastará para que todos percebam que o que Tristany nos propõe nesta sua estreia em grande é simplesmente a mais ambiciosa visão artística em que temos o privilégio de mergulhar desde que Slow J nos saciou a fome com a sua The Free Food Tape.

É que como o Puto Lento ou, talvez, como Allen Halloween, o que Tristany aqui apresenta é um trabalho que partindo do rap se recusa por ele ser contido, rodando aliás para o máximo o botão da ambição artística, não temendo o risco sempre associado ao acto de desbravar novo terreno. Não é fácil assumir a diferença. E este “digra” da Linha de Sintra carrega bagagem com ele. Pesada, ainda por cima: carrega o rap de combate que lhe foi ensinado por Chullage ou Valete, carrega as cadências africanas que a cultura doméstica lhe há-de ter impresso na alma, carrega a banda sonora de recreios de escola (há laivos rock nas suas vocalizações), carrega o fado de ser português, carrega o que a Internet de Frank Ocean lhe revelou, carrega as ideias que a desmedida imaginação lhe deposita nos dedos e na garganta.



Tristany espalha sabedoria e uma ética moral nas letras, mas também nos interlúdios, pequenos e preciosos filmes da vida na tal periferia que pode ser intransponível – “mas tu tens passe?”, pergunta alguém em “é rap street .. é rap street ..” antes de, mais adiante, em “RAPEPAZ ..”, admitir: “A culpa não é minha, meteram-me aqui, esta é a minha prisão, nunca vi grades, mas senti” – e de que só a fantasiosa imaginação poderá permitir escapar. E, de facto, em temas como esse “RAPEPAZ ..” já nem sabemos bem onde nos encontramos, tão enredados que ficamos nessa original teia feita de bombos, tarolas, pratos nervosos, baixos fundos e reverb de catedral aposto às vozes que parecem mesmo querer apenas elevar-se aos céus. Quando o Chiado, para um rapaz da Linha, dista tanto quanto os 80 quarteirões um dia separaram outros rapazes da Tiffany’s, é-se livre apenas quando se olha para cima. Porque à volta, se calhar, tudo esmaga. “Há tanto ódio nas nossas vidas, diz-me, leão, se é normal tua sina, diz-me se gostas da jaula, e em seguida, fala-me como é que foi o teu dia, eu digo-te o que eu acho da minha e veremos quem está preso à rotina”. Não, não é comovente, é mesmo revoltante, certo?

Não haverá, como me relembrou um bom amigo agora mesmo, disco tão corajoso como este nos últimos anos do rap tuga, mas também, acrescento eu, não haverá disco tão liberto dos cânones desse mesmo rap tuga quanto este. E é dessa coragem de ser livre, com a meia por cima das calças, que trata este registo. E sim, falamos de um “record” no sentido americano do termo, de um registo, de um precioso documento que vai guardar para o futuro um dos mais agudos retratos destes tempos. “Tirantes” dói no seu rigor marcial distorcido, “acliclas” é uma lição feita com mais dor, com a constatação da nobreza que existe nos olhares de quem não aceita a condição em que é nascidx e tem o desplante, a ousadia de sonhar. Mesmo com imitações de feira nos pés. Não quero acreditar que haja quem sobreviva a “O MENINU KE BRINKAVA COM BUNEKAS ..” sem largar uma lágrima, quem consiga ouvir “MÔ KASSULA ..” e não pense imediatamente “poeta” ou quem chegue às duas partes de “Verde” que encerram esta viagem e não queira dar um abraço sentido a Tristany.

Isto só muda se acreditarmos que pode mudar. E Tristany dá-nos razões de sobra para termos fé. A música, que ele mesmo produz com a colaboração, sobretudo, de Ariyouok, faz-de todas as matérias da história, espraia-se das margens da música clássica aos hipnóticos arremedos soul da modernidade pós-Frank Ocean, reclama África e o espaço, as caixas de graves dos clubes e as cúpulas das maiores igrejas, tem ruas e sonhos, tem drama e esperança, tem vozes submersas em geleia digital e outras que nadam em límpidos lagos melódicos, expondo as palavras com o brilho que merecem. MEIA RIBA KALXA tem, enfim, a banda sonora que este filme – e é um documentário, não uma ficção distópica, atenção… – precisa agora.


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