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Fotografia: Vera Marmelo

Olhos nos olhos.

Tristany e o afro-presentismo no São Luiz: “Eu nem sabia que este sítio existia…”

Fotografia: Vera Marmelo

Não será nunca Tristany a deixar-nos à vontade. O artista de Mem Martins – e a palavra aqui não é esvaziada do seu mais literal sentido: Tristany é Artista, mesmo – não entende o que faz como entretenimento e não sobe ao palco para nos distrair, para nos dizer o que achamos que queremos ouvir ou para repetir o êxito que não larga as playlists das rádios. Na sua primeira apresentação em Lisboa, no Lux, no âmbito do Festival TODOS, explicou, tal como reportado por Alexandre Ribeiro, que em palco havia corpos negros a tocarem música negra. Na passada sexta-feira, no Teatro São Luiz, em Lisboa, reconheceu a beleza do cenário, mas “picou” boa parte dos presentes quando deixou cair uma constatação tão simples como a verdade e tão capaz de ferir como a mais aguçada das farpas: “ya, a sala é bonita… mas eu nem sequer sabia que este lugar existia”. O mundo que Tristany habita é outro e ele não quer vir ao “lado de cá” mostrar-nos como é, prefere antes que façamos nós o caminho inverso. É disso que trata a sua música. A sua arte.

No palco há um estendal e não é por acaso que por lá estejam penduradas uma série de camisolas de clubes de futebol. Esse parece ser o único sonho ao alcance de muita gente, o de um dia pisar os relvados, ser um ídolo, garantir sustento. Acontece que se só um sonho é permitido a alguém, esse sonho também se pode tornar uma prisão. E por isso, as calças de fatos de treino, as camisolas de futebol que em palco vestem o DJ BlackFox, o percussionista Ariyouok, a violinista e cantora Suzana, o guitarrista Célio (a excepção, pelo menos em parte, na regra de indumentária que todos pareciam seguir) e o próprio Tristany podem parecer um uniforme. Mas até os uniformes são passíveis de serem subvertidos: basta para tanto meter a meia por cima das calças.

Meia Riba Kalxa, o extraordinário álbum que Tristany lançou no início do passado mês de Junho, foi imaginativamente transposto para o palco (e é interessante ver como em dois dias consecutivos, duas visões distintas, mas igualmente ambiciosas, do que pode ser um concerto foram exibidas em palcos de Lisboa: além da de Tristany, a de Lina_Raül Refree é igualmente digna de toda a nossa atenção). Há um cuidado cénico na apresentação e disposição dos corpos negros em palco e uma encenação coreografada que traduz o drama intrínseco de algumas das canções. E depois há a intenção de derrubar as artificiais barreiras que se erguem entre o palco e a plateia, questionando os lugares de pertença, a ideia do outro, o sentido de comunidade. Tristany fala directamente com o público, olhos nos olhos, porque a ideia não é a de uma “apresentação” – até porque, como fez questão de frisar, ele não está ali como representação de coisa alguma –, antes um diálogo ou até uma inquirição. Tristany, percebe-se, não pisa as centenárias tábuas daquele palco para nos entreter, antes para nos questionar. E daí não ser representação de coisa alguma: em cima do palco há corpos negros e viventes. Corpos reais. Fardados à força. Não é afro-futurismo o que se mostra ali. É afro-presentismo!

Depois de DJ BlackFox largar umas bombas de concentrado teor rítmico, de recorte kuduro, o concerto arranca, com os temas a serem alvo de versões estendidas, colando-se as músicas, sem nunca se vislumbrarem refrões de repetição funcional e oca. O primeiro tema que se escuta, como no álbum, é o “Hinu digra ..”, uma espécie de “A Portuguesa” com a meia por cima das vetustas calças, e depois Tristany entrega-se de corpo e alma a temas como “ONDA CIVIK ..”, “AMOR DE JINGA ..”, “RAPEPAZ ..”, “TIRANTE ..”, “NAXER DU SOL ..” ou “MÔ KASSULA”, combinando o tom de lamento com o de exaltação, nunca disfarçando a dor na voz ou a alegria e, sobretudo, o orgulho. A banda segue-o de perto, cruzando o morno balanço akizombado de alguns momentos com algo que soa a blues, se os blues não tivessem nascido num alpendre do Mississipi, mas antes numa garagem de Mem Martins.

E no palco há corpos negros que várias vezes se abraçam, vivos e felizes, mas não por estarem ali, num sítio que nem sequer sabiam que existia, mas por perceberem que estando assim, afro-presentes, nos questionam. E sendo nós levados a procurar uma resposta para essas perguntas, somos igualmente levados a mudar. Não, não é entretenimento, de facto, é resistência. E só há quem continue a resistir porque há quem continue a pressionar. Mudar é preciso. E foi de pé que se aplaudiu.

A segunda parte do concerto trouxe-nos uma performance de Odete e Alice dos Reis, acompanhadas pela harpista Rebeca Amorim, de título Portal. Um estranho e obtuso exercício (elogio) onde se cruzou a palavra, inquisitiva, uma vez mais, a performance, a presença dos corpos, o significado dos corpos, o futuro, a natureza e a ciência, com a electrónica, a flauta e a harpa a transportarem-nos a todos para um universo paralelo, que parecia pertencer ao futuro, mas talvez fosse apenas noutro lugar do tempo. É para isso que serve um portal, certo?

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