The Residents: da pré-história à terapia de grupo em mais dois títulos de uma obra singular

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTOS] Direitos Reservados

A deveras incontornável série pREServed com que os Residents têm vindo, desde 2018, a convenientemente arrumar o seu arquivo chega agora aos seus 9º e 10º títulos, A Nickle If Your Dick’s This Big e Not Available, que assim se juntam a Meet The Residents, The Third Reich ‘n Roll, Fingerprince, Duck Stab / Buster & Glen, Eskimo, Commercial Album, God in Three Persons e a Mole Box (nesta série específica, que não representa todo o output discográfico da misteriosa banda dos globos oculares nestes últimos dois anos, há ainda que contabilizar algumas edições especiais em vinil para The W***** B*** Album, B.S. e Eskimo Deconstructed).

Em primeiro lugar um par de considerações sobre o facto de todo este material existir e merecer, como aliás é desígnio da série, “preservação”: apesar de toda a desbragada loucura que atravessa a obra dos Residents, o colectivo que se abrigava na Cryptic Corporation teve total discernimento no momento de manter os seus arquivos organizados, facto que nos permite ter agora acesso a um conjunto sem precedentes de absolutas preciosidades. E desde que arrancou em 2018, a série pREServed já rendeu, para os tais 10 títulos referidos, edições que somam ao todo material espraiado por 25 (!!!) CDs. O que nos dá uma perspectiva da intensidade criativa que o grupo soube aplicar desde que se instalou, em finais da década de 60 do século passado, em São Francisco. Os Residents nunca duvidaram de que o que criavam era merecedor de atenção futura, exactamente porque souberam, desde logo, posicionar-se do lado mais crítico da arte por oposição ao assumidamente mais comercial (e portanto acrítico) território da indústria.

A Nickle… reúne o material de uma fase identificada pelo biógrafo da banda Jim Knipfel, que assina as maravilhosas e bastante esclarecedoras notas de capa, como Pre-Residents, uma espécie de pré-história ou preâmbulo do grupo que haveria de ser formalmente apresentado ao mundo com Meet The Residents, trabalho editado em 1974. Claro que, quase de certeza, há factos e ficção nos detalhes relatados por Knipfel e a arte estará, exactamente, na forma como ambas as dimensões se combinam na narrativa final. É-nos dito que em 1970 bateu à porta do futuro grupo, que então tinha por base um apartamento que ficava por cima de uma insuspeita oficina de reparação de automóveis, em San Mateo, nos arrabaldes de São Francisco, Roland Sheehan, músico vindo do Louisianna, de onde eram oriundos alguns dos futuros Residents, com quem Hardy Fox, figura que se assumiria como uma espécie de porta-voz da Cryptic Foundation (a entidade que gere a carreira e a obra dos Residents) e que muitos acreditam ter sido o real cérebro do grupo, terá até trabalhado na qualidade de manager quando o então estudante tinha uma banda chamada The Alliance. O facto de Sheehan ter aparecido em São Francisco com um atrelado cheio de instrumentos (guitarras, um Fender Rhodes, percussões variadas…) deu ao grupo de… hum… residentes do apartamento uma ideia de como ocuparem o tempo, ainda que, reza a lenda, nenhum deles tivesse qualquer educação musical formal. Outro detalhe importante (e as coincidências são sempre extraordinárias no universo da ficção…) passa por um dos membros do futuro colectivo ter-se na época tornado amigo de um veterano do Vietname que de regresso aos Estados Unidos aproveitou uma passagem por Hong Kong para adquirir um gravador de fita topo de gama. Perdido espiritualmente como tantos outros veteranos, este ex-soldado acabou por recompensar a amizade apaziguadora do futuro Resident oferecendo-lhe o tal gravador. E assim de repente, num mesmo espaço de San Mateo, juntaram-se as ferramentas necessárias para a criação de uma futura referência para o lado mais exploratório da música popular.

Os instrumentos, por um lado, e o tumultuoso presente da América de então, envolvida na guerra do Vietname, a braços com vigorosa contestação estudantil, com Panteras Negras e Movimento dos Direitos Civis, com a contra-cultura ao rubro e a procura de novos espaços espirituais através do intensivo uso de drogas, acabaram por inspirar as sessões criativas do colectivo, com letras absurdas improvisadas por cima de uma livre cacofonia que se traduziu em muitas horas de material gravado. Foi esse material que foi trabalhado e organizado numa bobine que o grupo enviou a Hal Halverstadt, o executivo da Warner responsável por ter contratado Captain Beefheart. Os Pre-Residents acreditavam que se um executivo tinha uma visão suficientemente generosa para compreender o homem de Trout Mask Replica também haveria de perceber onde queriam eles chegar. E por isso, juntamente com a bobine, em 1970 seguiu para a Warner uma carta endereçada ao senhor Halverstadt que terminava com quatro quadradinhos com hipóteses de resposta que oscilavam entre, de acordo com as notas de Jim Knipfel, “Vocês soam fantásticos, tomem lá um cheque de 50 mil dólares” a “Vocês são interessantes, mas temos o catálogo cheio neste momento”. A fita enviada anonimamente tinha por sugestivo (e algo optimista…) título The Warner Bros Album!



Ao mesmo tempo que aguardavam uma resposta por parte da editora, os futuros Residents receberam no seu quartel-general de San Mateo as visitas de Margaret Swatson, que haveria de assumir em vindouras colaborações com o grupo o nome de Peggy Honeydew, e do seu amigo, Philip Lithman, um guitarrista que Margaret tinha conhecido em Londres e que haveria de conquistar a alcunha de Snakefinger, graças à sua peculiar forma de tocar violino. Seria Snakefinger a recrutar depois um saxofonista bávaro que também por ali apareceu e que ficaria “conhecido” no universo dos Residents como The Mysterious N. Senada, uma espécie de filósofo ou guru, além de músico, que lhes apresentou a Teoria da Obscuridade. Juntamente com o resto do “gang”, estes novos recrutas haveriam de contribuir mais ruído para futuras peças gravadas no apartamento de San Mateo e em pontuais apresentações ao vivo.

Entretanto, a maquete submetida para apreciação à Warner foi devolvida pelo senhor Halverstadt que, desconhecendo a identidade dos remetentes de tal peça, por ele classificada como “okay at best”, enviou a carta de rejeição e a demo original “ao cuidado dos residentes” da morada que constava no envelope que tinha recebido. Foi assim que o colectivo ganhou o seu nome. Foi um grupo formado por Peggy Honeydew, N. Senada, Snakefinger e um violoncelista com vestido de noiva que surgiu lá em casa sem ninguém saber muito bem de onde vinha (ficção…) que se estreou ao vivo, em Outubro de 1971 (facto), marcando assim o arranque de uma das mais estranhas e esotéricas aventuras musicais dos últimos 50 anos. Esse concerto, bem como outra apresentação para celebrar o aniversário de Snakefinger, consta igualmente do material gravado e arquivado no vault dos Residents. Destas gravações ao vivo e de uma passagem de Snakefinger e Senada por um estúdio de rádio resultou o material que os Residents compilaram para uma segunda demo pensada para finalmente impressionar a Warner. Intitulada Baby Sex, essa demo ganharia infame notoriedade graças ao artwork com que foi embalada, uma serigrafia criada a partir da página central de uma revista porno dinamarquesa em que surgia uma foto de uma mulher a fazer sexo oral a um bebé…! A atitude amoralmente provocatória do grupo pretendia chocar e seria obviamente impossível de levar a cabo hoje em dia, mas à época antecipou algumas das mais extremas estratégias de choque do punk e do pós-punk, correntes que souberam igualmente procurar nas mais remotas margens do gosto imagens passíveis de agitar mentes e de provocar respostas violentas de rejeição.

Como é óbvio, a Warner rejeitou a maquete, e depois de assistirem ao regresso à Europa de Snakefinger e Senada, os Residents acabaram por encontrar novo espaço de trabalho num armazém de Sycamore Street, em São Francisco, onde gravariam depois o material do single Santa Dog (reeditado há alguns anos pela Superior Viaduct) que marcou, em 1972, a sua primeira edição oficial (e hoje extremamente valorizada: há registo de uma venda no Discogs já este ano por 1350 euros) na Ralph Records, a editora que os próprios criaram e com que estabeleceram o seu espaço de agitação artística e política no seio de uma indústria que nunca deixaram de criticar através da sua obra.



A Nickle if Your Dick’s This Big reúne e preserva para referência futura as duas maquetes que os Residents apresentaram à Warner (um gesto de provocação e choque em si mesmo), The W***** B*** Album e B.S. (Baby Sex…) e ainda as gravações das caóticas e surreais apresentações ao vivo naquele período formativo. Destas colagens, em que se escutam ideias que vimos mais tarde despontar na obra dos próprios Residents, mas também pequenos assomos de beleza atonal que poderiam ser interlúdios de Bone Machine de Tom Waits, há blues e vaudeville, ecos folk, versões dadaístas de clássicos dos Beatles (“Strawberry Fields Forever” pela banda residente num manicómio, por exemplo) e temas com títulos como “Jimi Hendrix Dildo”, “Art The White Elephant” ou uma sabotagem de um clássico dos Led Zepellin que aqui merece o título “Holelottadick” que começa com a voz de uma mulher a dizer “he doesn’t give a shit” antes de uma intro, que soa como uma peça de música concreta de Pierre Schaeffer, nos levar à desbragada versão de “Whole Lotta Love” que, num universo paralelo, poderia ter sido assinada por Alan Vega à frente dos Monks numa sobra das sessões de Black Monk Time… É assim tão fora, sim. E assim tão precioso também.



O segundo título neste recente par de acrescentos à série pREServed é Not Available, trabalho que já encontra os Residents em pleno swing, gravado logo após Meet The Residents mas enquadrado com a Teoria da Obscuridade apresentada ao grupo pelo já mencionado Mysterious N. Senada, uma linha de pensamento que defendia que o grupo deveria gravar material sob o título X is For Extra (A Conclusion) recusando qualquer intenção de alguma vez o revelar ao mundo, ou pelo menos não o revelar até que os seus autores se tivessem esquecido que existia. A ideia era que a remoção de uma possível audiência desta equação de criação/apresentação libertaria o artista e a sua arte, que assim poderia alcançar patamares criativos inacessíveis doutra forma. Essas gravações, no entanto, acabariam por ver a luz do dia mais cedo do que se esperaria, logo em 1978, compensado assim para a Ralph Records o atraso com a entrega dos masters de Eskimo, que foi depois lançado em 1979.

O já mencionado cronista dos Residents admite nas notas de capa que tudo o que se conhece acerca da história de Not Available mistura mito e factos, não se sabendo exactamente onde começa a fantasia e termina a realidade, algo que aliás, em boa verdade, é válido para praticamente tudo o que rodeia os Residents. As sessões de X Is For Extra (A Conclusion) terão, portanto, supostamente acontecido numa época de convulsão interna no grupo, com um triângulo romântico-sexual a causar sérios problemas. A solução foi transformar o caso num drama encenado em estúdio, com Edweena, o seu amante Porcupine e o rival Catbird como personagens centrais, havendo ainda espaço para Uncle Remus assumir o papel de coro grego. Dessa terapia artística de grupo terá emergido uma clarividência poético-dramática que os Residents aplicaram sobre uma espécie de sinfonia electrónica concebida por outro agitador do colectivo. E a ideia seria depois arquivar o resultado e avançar. Algo que o grupo fez. Quando as gravações de Eskimo  se atrasaram levando a problemas entre a Cryptic Foundation e a editora Ralph Records, os responsáveis resolveram colmatar o que poderia ter sido uma falha contratual resgatando as fitas arquivadas de X is For Extra (A Conclusion) e extraindo daí o material que seria editado à revelia do grupo como Not Available. Esta é a história que se conta, o que nunca é explicado é se eram de facto pessoas diferentes a tomar decisões pelo grupo, pela tal fundação críptica e pela editora, não sendo totalmente descabido que poderão muito bem terem sido sempre as mesmas cabeças a ditar todas estas sentenças. Eventualmente usando máscaras de gigantes globos oculares em algumas das reuniões, só para tornar a coisa ainda mais obtusa do que a história conhecida sugere… Mas até no meio de toda esta suposta confusão de papéis – entre a banda, a editora e a fundação – se pode ler um comentário ao normal funcionamento de uma indústria que se fez em tantos casos históricos (Bowie, Springsteen, Beach Boys…) de tensões entre artistas, managers e executivos discográficos.



Em 1974 a música popular parecia dividida entre a manutenção de uma certa tradição (a Rolling Stone listou 461 Ocean Boulevard de Eric Clapton, Court and Spark de Joni Mitchell e Good Old Boys de Randy Newman no pódio da sua lista de melhores trabalhos do ano) e o irresistível apelo do futuro (Fullfillingness’ First Finale de Stevie Wonder e Taking Tiger Mountain de Brian Eno também merecem lugar no Top 10 do ano da mesma publicação…), pelo que esta criação à época secreta dos Residents se posicionava no lado mais avançado da música popular, com a cadência mecânica subtraída a uma das primeiras caixas de ritmos a ecoar outras experiências contemporâneas (Inspiration Information de Shuggie Otis foi o 11º melhor disco de 1974, ainda para a Rolling Stone…). Mas não é só a caixa de ritmos que aqui sinaliza o futuro: há que sublinhar a capacidade revelada pelos Residents de entenderem a mesa de mistura e o estúdio como peça fundamental de criação (tal como defendido por Brian Eno), com as diferentes vozes narrativas a serem processadas com efeitos (que são eles próprios máscaras) e os arranjos a resultarem da colagem experimental de diferentes instrumentos (sintetizadores, pianos, cordas…).

O primeiro CD nesta reedição pREServed de Not Available vê ao alinhamento original serem adicionadas duas versões adicionais de “Ships A’Going Down” – uma de 1982 (gravação de um ensaio) e outra (de um concerto) de 1986 – que deixam claro que o grupo tinha um entendimento especial da sua própria música, não encarando as suas principais peças como objectos definitivos preservados no âmbar de uma qualquer gravação, mas como ideias que deveriam ser constantemente buriladas e adaptadas aos tempos: a versão mais tardia do tema parece, uma vez mais, antecipar o fascínio que estetas como Tom Waits haveriam de revelar pela música dos carnivals e dos circos ambulantes que, aliás, faz pleno sentido no universo dos Residents que se parece fazer de reflexos em espelhos que deformam a realidade. O primeiro CD fecha-se com a gravação ao vivo de “Mourning Glories” (de 2014), demonstração de como os Residents foram retrabalhando o seu próprio reportório como uma fonte em que poderiam sempre beber, nunca cedendo à tentação da mera reprodução, mas antes entendendo ideias passadas como estímulos para realizações futuras.

O segundo CD faz-se então com a recuperação das tais gravações originais, a terapia de grupo que resultou em X is For Extra (A Conclusion), com a música daí resultante a revolver talvez em feridas à época demasiado abertas para serem logo colocadas em disco, razão talvez mais plausível para o material ter sido arquivado durante os quatro anos seguintes do que a conveniente Teoria da Obscuridade referida na “historiografia” oficial do grupo. Seja como for, é uma reveladora oportunidade para se mergulhar mais fundo na densa e opaca mitologia auto-erguida de um “grupo” cuja imagem, ainda que eventualmente mais nítida hoje, continua a ser orquestrada como o prolongamento de um pensamento artístico muito concreto.

De acordo com as indicações de números de catálogo da série pREServed incluídas no livreto de Not Available deverão seguir-se, presumivelmente em 2020, Cub-E e mais um boxset, desta vez para The American Composer Series, certamente reunindo material dos discos George & James: The American Comoser Series, vol. 1, de 1984, e Stars & Hank Forever: The American Composers Series, vol. 2, de 1986. Cá os esperamos.


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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