The Residents // God In Three Persons

[TEXTO] Rui Miguel Abreu 

Quem, como é o meu caso, chegou tarde aos Residents (grupo que conheço desde que comecei a ouvir música, na verdade, mas em que nunca tinha entrado a fundo até esta reorganização do catálogo que a Cherry Red colocou em marcha com as pREServed editions…) terá a vantagem que o tempo e a História proporcionam a quem se propõe a titânica tarefa de apreciar uma obra tão complexa, labiríntica e vasta como a do colectivo dos globos oculares gigantes.

As pREServed editions pretendem funcionar como a definitiva reorganização do catálogo destes mavericks, reunindo e restaurando edições originais e projectos satélite de cada título-chave da discografia. No presente caso isso significa não apenas o álbum que lançaram em 1988, apresentado aqui no primeiro CD com duas faixas extra, incluindo a versão do grupo para o clássico “Double Shot (Of My Baby’s Love)” (grande sucesso dos Swingin’ Medallions), originalmente editada como um single, mas também a sua versão “instrumental” – God In Three Persons Soundtrack, incluído no segundo CD desta edição, retitulado Original Soundtrack Recording, que ao alinhamento original adiciona a até agora inédita peça de 23 minutos “Knot In a Million Years” – e os singles projectados para o acompanharem que aqui surgem integrados num terceiro CD que recebe o subtítulo GP3 Ephemera que também inclui uma série de maquetes bem como um par de gravações ao vivo.

Há vários factos importantes que rodeiam este álbum dos Residents: por um lado foi o último que gravaram analogicamente, o derradeiro em que ainda trabalharam com edições (cortes e colagens…) feitas directamente nas gravações de fita, à boa maneira da música concreta; por outro lado, foi o primeiro registo do grupo pensado directamente para o novo tipo de duração que o CD então proporcionava, uma “tela” digital de 74 minutos que permitia outro tipo de fôlego narrativo contínuo quando comparado com os 35 a 40 minutos que um LP analógico simples permitia acomodar. Foi também o primeiro álbum dos Residents a ser originalmente lançado não pela própria Ralph Records, mas pela Rykodisc, editora independente (cujo arquivo é hoje pertença da Warner) surgida em 1983 e que se assumiu à partida como tendo um catálogo pensado exclusivamente para a então nova era dos CDs, reeditando nesse formato material de gente como Frank Zappa, Robert Wyatt ou Yoko Ono, mas também nova música de artistas como Bill Frisell, Dave Stewart ou Danny Thompson.

God in Three Persons é um título maior no cânone dos Residents, para muitos a sua obra fulcral dos anos 80, trabalho conceptual, quase operático, eminentemente electrónico, que nos relata a estranha história (como se alguma vez este enigmático grupo nos tivesse oferecido histórias comuns…) de um tal Mr. X, apresentado como um “tipo ao jeito do Coronel Tom Parker” (o lendário manager de Elvis Presley…) que encontra na rua um par de gémeos siameses, rapaz e rapariga, com um extraordinário poder da cura. Claro que tratando-se dos Residents o que de si já seria uma absurda proposição torna-se ainda mais rebuscada: o senhor X leva os gémeos em digressão, apresentando-os em espectáculos de beira-de-estrada que se podem imaginar como sendo meio freak show, meio revival-cristão-em-tenda-de-circo, explorando os seus dotes curativos em proveito próprio. É então que desperta no senhor X um profundamente erótico desejo em relação à rapariga do par de gémeos, só que X rapidamente percebe que os sexos dos gémeos não são fixos, antes condições fluídas. Com mais poder do que ele imaginava ao princípio, os gémeos serão também por isso vítimas de uma violação em que X pretende cortar a parte em que estão ligados, separando-os para sempre… O melhor, claro, é ouvir, que nesta era de mártires dos spoilers nunca convém contar a história completa.



O essencial deste singular enredo é assumido através da narração do próprio Mr. X em jeito irónico-declamatório com evidente sotaque sulista e com uma entrega com alguns pontos de contacto com os talkin-blues. Por outro lado, a colaboradora dos Residents Laurie Amat assume aqui a condição de coro grego que vai comentando o desenrolar do drama (e que, na faixa de abertura, quase como num filme em que se mostram os créditos ao início, nos relata ainda a ficha técnica do álbum naquilo que era suposto ser a abertura para mais uma ambiciosa produção visual para palco que nunca chegou a acontecer…). A melodia do clássico “Double Shot (Of My Baby’s Love)”, tema de Don Smith e Cyril Vetter que Dick Holler originalmente gravou em 1964, mas que se tornaria um enorme sucesso na versão de 1966 dos Swingin’ Medallions, surge como o tema recorrente que confere unidade à acção, técnica bastas vezes usada no universo das bandas sonoras. Outro tema repetido tem melodia inspirada no clássico hino religioso “Holy, Holy, Holy”, o que é em si uma reveladora moldura conceptual para a música de God in Three Persons, que se posiciona algures entre o imediatismo pop e a espiritualidade religiosa, facto que combina na perfeição com uma das possíveis leituras da rebuscada história apresentada pelos Residents: a do rock e da música popular como uma criação juvenil de pronunciada carga sexual aprisionada nas mãos de duvidosas figuras autoritárias e predatórias que ao longo das décadas foram abusando e violentando o que na origem foi uma pura destilação do pulsar hormonal juvenil transformando-a num comercial ritual para as massas.

Musicalmente, os Residents mantêm tudo muito simples, com arranjos electrónicos esparsos, mas pulsantes, como se o ritmo fosse pensado para carregar a narrativa, mas, ao mesmo tempo, uma escuta atenta – e para isso, a versão “banda sonora”, liberta da narração, ajuda bastante – revela uma profunda inteligência musical aplicada, com os sintetizadores e as caixas de ritmos a servirem o que o grupo deveria imaginar poder ser interpretado por uma mini-orquestra, quase uma versão contida e essencialmente tecnológica das mini-orquestras que mais ou menos na mesma época Tom Waits andava a levar para o palco (Big Time também é de 1988…), conjugando acordeões e bongos, orgãos e banjos, sitars e clarinetes numa tentativa de criar algo entre o cabaret e o show burlesco de vaudeville. Os Residents, certamente com orçamentos mais contidos do que o criador de Rain Dogs, procuravam o mesmo efeito com a sua abordagem intuitiva/experimental aos sintetizadores, quase fazendo dos sons pequenas personagens, ou meros figurantes neste estranho conto. “Loss of a Loved One”, com o seu sino, sopros e base semi-dissonante, como um orgão de fole fora de prazo, é um excelente exemplo.

No último CD, as maquetes deixam claro que na base de tamanha loucura havia também um claro método, com os arranjos a serem meticulosamente pensados em torno da narração que aqui ainda surge sem “as roupas de cena”, sem o sotaque mais carregado da versão final, soando a algumas gravações da cena exótica dos anos 50, igualmente servidas por narrativas (e contribuindo para que se perceba que o que na versão final do álbum soa a declamação irónica e algo básica é, na verdade, uma interpretação dirigida e calculada). Mas a verdadeira pérola desta edição, para quem eventualmente já possa conhecer/possuir os singles, mais as versões instrumental e original desta obra, é sem dúvida a mini-suite “Knot in a Million Years” que fecha o segundo CD. São 23 minutos de electrónica laboratorial, que soam como se os Residents quisessem condensar uma longa metragem – tudo mesmo: a história, a acção, a iluminação, os enquadramentos, o desempenho dos actores, a direcção artística, a montagem, a banda sonora, o score orquestral… – numa peça musical de 23 minutos, electrónica, irrequieta, variada, para a qual parecem convocar todos os sons incluídos nos presets dos sintetizadores que então imaginamos pudessem constar no seu arsenal. Música psicótica, assombrada e ao mesmo tempo com algo de pueril e inocente. Numa palavra: extraordinária.

Os próximos capítulos nesta saga de reedições deverão chegar ainda antes do final do ano, com edição planeada para o próximo mês de Novembro: A Nickle if Your Dick’s This Big (1971-1972), CD que reúne dois lançamentos mais recentes pensados para o Record Store Day (The W***** B*** Album de 2018 e B.S., já deste ano) e ainda, da série pREServed, o álbum de 1978 Not Available. É manterem-se atentos a este espaço…


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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