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Texto: Paulo Pena
Fotografia: LucasOwnView
Publicado a: 12/02/2024

Um segundo primeiro encontro com Miguela.

Silly no Centro Cultural de Belém: infinito é tudo o que acaba

Texto: Paulo Pena
Fotografia: LucasOwnView
Publicado a: 12/02/2024

A escolha teve o seu quê de romantismo, não padecesse o escriba em causa dessa fatídica e incurável condição. Depois do que ficou da actuação onírica numa das salas da Sociedade de Geografia de Lisboa, por ocasião da última edição do Super Bock em Stock, a obstinação era a de, como sempre acontece em quem sofre de tal mal disfarçado de bem, sentir de novo o que, por defeito, é irrepetível. Foi por essa razão que, na véspera da apresentação de Miguela, primeiro longa-duração de Silly, no Centro Cultural de Belém, resistimos em espreitar essa janela do tempo que, meses antes e ainda em versão contida, nos mexeu com coisas cá por dentro.

Só que as primeiras vezes nunca se repetem, ainda que teimemos em procurá-las irremediavelmente. Ainda para mais quando o que se nos apresenta diante dos nossos olhos nos remete, precisamente, para essa memória cristalizada: a configuração que espera Silly e Fred — parceiro da cantora e compositora na feitura deste disco — no palco do Pequeno Auditório do CCB é a mesma que, bem de perto, vimos na Sala Ermelinda Freitas, em Novembro do ano passado. Entram também eles com semelhante caracterização, Silly de fato-macaco cândido — porque a obra é radiante —, Fred de chapéu cravado no semblante resguardado, como se fosse sombra de uma luz maior. Sentam-se frente-a-frente, disposição que nos evoca o tête-à-tête entre DOMi & JD Beck na última edição do Festival Paredes de Coura: Fred, aqui, com menos vigor nas baquetas do que James Dennis Beck — e do que noutros contextos (Orelha Negra, por exemplo) costuma impor —, e Silly com uma outra graciosidade nos teclados face à irreverência inortodoxa de Domitille Degalle.

A cumplicidade entre ambos vem ao de cima novamente, mas a solenidade da sala, praticamente cheia, contém alguma intimidade que já lhes havíamos decifrado. A timidez de Maria Bentes também acaba por ceder perante a vontade de partilhar os bastidores do processo criativo de ano e meio em torno deste disco concebido, essencialmente, a duas cabeças. Também a ocasião merece a presença de outras figuras determinantes na construção de Miguela, desde David Jacinto, vocalista dos TV Rural, grupo que tantas vezes deu banda sonora às viagens da família Bentes, a Diogo Santos, par de mãos extra que socorreu as outras quatro quando vinte dedos não chegavam para tantas teclas. E ficam, ainda, agradecimentos sucessivos a tantos outros envolvidos, alguns deles presentes na plateia, que fizeram parte das histórias por detrás das 16 canções que compõem este trabalho.

É uma ínfima parte dessas histórias que Silly nos vai contando nos intervalos de cada tema que a tornam mais presente. Esbate-se a distância que a instrospecção lhe compele, abrindo-se a porta para onde nos quer deixar entrar. Que, em boa verdade, já estava entreaberta desde que lançou “Água Doce”; a brecha só se veio alargando à medida que “Coisas Fracas”, “Cavalo à Solta” e “Herança” nos foram chegando em antecipação. Mas só com Miguela exposto na sua plenitude conseguimos realmente entrar no lar Bentes e sentir o calor de uma lareira que, ao longo dos anos, não se apaga. Resistente aos ventos da mudança, de São Miguel a Serpa, da infância à idade adulta, perdura a chama de uma profunda união, subliminar, mas indelével: a ideia de família na sua concepção idílica, que não deixa de ser porto seguro quando a vida nos chama à realidade.

Mas é aqui que o mal disfarçado de bem se revela. Ou, para os menos fatalistas, que a ternura da memória se transfigura em saudade amargurada. Porque o tempo, intransigente, passa e não nos deixa voltar atrás para reviver o melhor, não nos deixa seguir em frente sobre o pior, nem nos deixa agarrar com todas as forças o agora. E essa percepção atravessa-nos o peito, desde logo, com Miguela, ao vivo exposto, que nos vai escorregando dos dedos nessa tentativa vã de abraçar o momento. Ainda para mais, convidados a reviver memórias que só são nossas por projecção, como se a pequena Maria Miguel a descobrir mundo a partir da cavalariça, a descobrir-se a si própria no reflexo dos seus, fôssemos, afinal, nós. E essas coisas que ela não quer perder confundem-se com as que deixámos de ter. Infinito é tudo o que não podemos manter.


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